O SUS na opinião pública: entre defensores e detratores, de Juan Sousa Perroni

16 novembro 2021

O SUS na opinião pública: entre defensores e detratores, de Juan Sousa Perroni

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O SUS é padrão ouro em vigilância à saúde, vacinação infantil e clínica de alta complexidade, sendo um dos únicos sistemas públicos no mundo tendo trunfos nestas modalidades. Apesar disso, a opinião pública sobre o sistema ainda é um desafio. Levantamento do IPEA (2011), por exemplo, mostrava um julgamento regular por 42,6% da população; bom ou ótimo por 28,9%; e ruim ou muito ruim por 28,5%.  

Apesar de ser possível investir na narrativa de comparar o Brasil com outros países para dizer que “poderia ser pior”, existe um fosso sobre o que a população julga no seu imaginário sobre a saúde. Aqui, a comparação principal é saúde privada versus saúde pública, sendo o SUS considerado um “sistema pobre para os pobres” (Reigada e Romano, 2018) e a saúde privada um objeto de desejo geral: quem pode pagar por saúde, pagará (Coelho, 2007). 

Isso não ocorre só na classe média tradicional. Um exemplo recente é a emergência dos cartões de desconto – empresas que cobram mensalidades para reduzir o preço de determinados serviços de saúde sob demanda. A abordagem com o usuário às vezes ocorre próxima ao portão da própria unidade de saúde: o cliente normalmente é uma pessoa de Classe C, desempregada e desiludida com a dificuldade para acessar determinado procedimento pelo SUS. Por não serem planos de saúde, a categoria não é regulamentada (Veloso, 2019).

De um lado, a saúde suplementar promete múltiplos profissionais, autonomia para acessar os serviços e a capacidade de barganhar termos e condições deste produto de mercado. De outro, há o senso comum sobre o desmantelo nos serviços de base do SUS, como acesso a medicamentos, clínicas de baixa e moderada complexidade, exames, consultas e internações hospitalares. No estereótipo mais primário, estão imagens de filas, macas desassistidas em corredores e meses para agendar uma especialidade médica.

Essas cenas existem, sobretudo nos municípios onde já está atestada a maior concentração da falta de recursos humanos (Moimaz et al., 2010). A questão é que o sistema de saúde tem trunfos e desafios, mas os desafios sempre são o objeto principal na esfera pública. No jornalismo, por exemplo, Silva e Rasera (2014) encontraram aquilo que chamam de “SUS-Problema”. Em uma análise de 670 artigos de 2008 na Folha de S. Paulo, notaram que o SUS pouco foi mencionado em matérias que falavam sobre melhoria de índices de saúde ou excelência na prestação de algum serviço público, e mais naquelas que tratavam de “crise”, casos dramáticos ligados a procedimentos complexos e emergenciais, tudo envolto em recursos linguísticos que remontam à burocracia, excesso de gastos, incoerência científica e falta de legitimidade. 

O jornal não oferecia quaisquer meios para o leitor poder se tornar participante da gestão do SUS e fazer uma denúncia ativa, isto é, com o objetivo de ajudar a população a atingir o pleno direito à saúde. Nesta narrativa, o descontentamento torna-se rancor e preconceito com o sistema.  

O IPEA (2011) mostra que a maioria que avalia o SUS como ruim ou péssimo é quem não o utiliza (30,4% frente a 19,2% do outro grupo). Reigada e Romano (2018) testaram esta perspectiva com mulheres de mais de 60 anos, residentes do bairro de classe média Grajaú, no Rio de Janeiro, que utilizaram pela primeira vez os serviços de uma nova unidade pública da região. Nenhuma avaliou o serviço daquela unidade em particular de forma negativa, apesar da visão ruim que tinham sobre o SUS. Entretanto, mostravam resistência a essa continuidade, sobretudo pelo estigma associado a não ter um plano de saúde e pela cisão social em não quererem ser atendidas no mesmo local que a população do Morro dos Macacos. 

Afinal, é possível tornar atraente a toda a população a ideia de desfrutar de seus direitos civis em um serviço público?

A pandemia parece estar, mesmo que momentaneamente, mostrando que é possível. Uma pesquisa do Sou Ciência mostrou um aumento de 40% para 62% dos brasileiros que atribuem importância altíssima ao SUS (Fernandes, 2021), e o Ibope mostrou que, em 2020, a população passou a ter a confiança mais alta no SUS dos últimos 12 anos (Toledo, 2021). 

Uma hipótese para isso seria o aumento de atendimentos de Covid-19 no SUS e a campanha de vacinação. Mas restam dúvidas sobre a perenidade dessa tendência e do tipo de consciência construída. Será que a vacinação é interpretada como direito ou como ato filantrópico e momentâneo? Ver uma política de Estado cumprir sua obrigação moral e prestar socorro à sociedade pode ser um alento, mas precisamos tomar cuidado para não parecer que ela é benesse. 

Como Reigada e Romano (2018) apontam, o SUS não faz marketing próprio, objetivo que vem sendo discutido desde a 13ª Conferência Nacional de Saúde, em 2007 (Silva e Rasera, 2014). A comunicação sobre o SUS fica a cargo da mídia privada, que é concentrada e interessada, inclusive, em negócios envolvendo a saúde suplementar. Neste cenário, fica difícil formar uma consciência sanitária junto à opinião pública (Teodoro, 2021). 

Tanto na classe média quanto na Classe C, a defesa do SUS segue sendo um eterno impasse. É preciso fazer o cidadão sentir a mudança no status quo do sistema, e isso começa trabalhando em suas deficiências que são consequência direta do subfinanciamento estrutural, como discuti em outro texto para este blog (https://saudeglobal.org/subfinanciamento-do-sus-a-negligencia-continua-de-juan-sousa-perroni/). E assim, como sugere Coelho (2007), poderemos viabilizar a flexibilização de algumas racionalidades para incorporar os desejos dos usuários, como escolher seu próprio médico ou os serviços onde quer ser atendido no sistema. 

Além disso, devemos estar alertas para os limites da nossa própria comunicação.  O que queremos dizer com “defender o SUS” na prática? Os porta-vozes deste imperativo representam o Brasil que utiliza os serviços básicos do SUS? 

Referências 

Coelho, Ivan Batista. Os impasses do SUS. Ciência & Saúde Coletiva, 12(2), p. 309-11, 2007.  https://www.scielosp.org/article/ssm/content/raw/?resource_ssm_path=/media/assets/csc/v12n2/a04v12n2.pdf

Fernandes, Samuel. SUS, ciência e universidades se valorizam na pandemia, sugere pesquisa. Folha de S. Paulo, 29 ago. 2021. Disponível em: 

<https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2021/08/sus-ciencia-e-universidades-se-valorizam-na-pandemia-sugere-pesquisa.shtml>. 

Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). SUS é mais bem avaliado por quem utiliza o serviço. 09 fev 2011. Disponível em: <https://www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=7187>. 

Moimaz, SAS et al. Satisfação e percepção do usuário do SUS sobre o serviço público de saúde. Revista de Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, 20 (4), 1419-1440, 2010. https://www.scielo.br/j/physis/a/mhKYHzfQFwKrLKct9WW4rBb/abstract/?lang=pt 

Reigada, CLL; Romano, VF. O uso do SUS como estigma: a visão de uma classe média. Revista de Saúde Coletiva 28(3), 2018. https://www.scielo.br/j/physis/a/6mk4Hsqvwf9kKcdfKFKMv6y/abstract/?lang=pt 

Silva, GM; Rasera, EF. A construção do SUS-problema no jornal Folha de S. Paulo. História, Ciências, Saúde 21(1), 2014. https://www.scielo.br/j/hcsm/a/39MMgrRqVhbvWsVFzNzQ4hN/abstract/?lang=pt

Teodoro, Ronaldo. SUS: um cidadão sem voz. Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz, 2021.  https://www.cee.fiocruz.br/?q=SUS-um-cidadao-sem-voz

Toledo, JR. Confiança no SUS tem crescimento recorde na pandemia. Piauí, 26 nov. 2021. Disponível em: <https://piaui.folha.uol.com.br/confianca-no-sus-tem-crescimento-recorde-na-pandemia/>.  

Veloso, AC. Alternativa aos planos de saúde, cartões de desconto viram dor de cabeça. Entenda como funciona. O Globo, 23 jun. 2019. Disponível em:  <https://oglobo.globo.com/economia/defesa-do-consumidor/alternativa-aos-planos-de-saude-cartoes-de-desconto-viram-dor-de-cabeca-entenda-como-funciona-23758040>. 

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Leonardo Derenze
1 mês atrás

Excelente texto, Juan! É triste pensar que justamente essa capacidade de avaliar os problemas do sistema (e seus canais para tal, como imprensa livre, ministério público, outros canais para denúncias) seja visto como outro problema, criando esse imaginário público de um sistema de saúde largado às traças. É um caso paradigmático de jogar-se o bebê fora com a água do banho. Óbvio que a descoberta, análise e empenho em melhorias estruturais faz-se necessário. Semelhante ocorre com o Bolsa Família: é muito comum que o primeiro comentário sobre o programa seja suas irregularidades e denúncias de corrupção. Isso ocorrerá com qualquer política pública e é ótimo que a possibilidade dessas denúncias surgirem se faça corrente. Mas, como você bem lembra, é necessário distinguir as virtudes dessas políticas públicos de seus desvios da regra, justamente para combatê-los e aperfeiçoar.

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