COP26, os povos indígenas e a geração Z, de Débora Tunes do Nascimento

19/11/2021
Share on twitter
Share on linkedin
Share on facebook
Share on whatsapp

A participação de Txai Suruí na COP26 trouxe sentimento de orgulho aos brasileiros. A jovem representante do povo Paiter Suruí fez um discurso que misturou referências do pensamento e da cultura brasileira, urgência e esperança1. Contudo, não só a presença indígena na COP26 chama a atenção. A mensagem das ausências dos povos indígenas na COP26 é igualmente importante.

Impedidos de viajar por restrições financeiras, migratórias ou por falta de acesso a vacinas, cerca de dois terços dos representantes das comunidades indígenas que costumam comparecer a COP26 não estavam presentes2, e uma vez dentro das reuniões, muitos enfrentam limitações para exercer a função de observadores3. Frustrados pela falta de voz na Conferência, ativistas organizaram a People’s Summit for Climate Justice, que ilustra a crise de legitimidade que a COP26 atravessa4.

A presença indígena na COP26 se mostra essencial em um contexto em que no Brasil, foi contabilizado um aumento de 61% dos assassinatos de líderes indígenas durante o ano de 2020 e de 137% nas invasões de terras em relação a 20185. Os povos indígenas também sofreram muitas perdas em decorrência da pandemia, totalizando mais de 1,1 mil óbitos. Ademais, encontram-se particularmente vulneráveis face à perspectiva de que novas pandemias surjam como consequência da intensificação do contato humano com espécies animais causada pelo aumento do desmatamento. Assim, como afirma Txai Suruí em entrevista, seu povo presencia tanto as causas (as invasões, o desmatamento) quanto às consequências na degradação dos ecossistemas, mudança do regime de chuvas e perda de biodiversidade6.

‘Seria a condição de observadores suficiente para os representantes das populações indígenas, considerando sua atuação decisiva para o combate do desmatamento e da proteção à biodiversidade?’, questiona uma reportagem publicada no jornal The New York Times7. De acordo com Schuster et al. (2019), a ocupação indígena estaria relacionada com presença de um maior número de espécies de vertebrados. Segundo o autor, “Indigenous land management practices and areas co-management by Indigenous communities and federal or state governments can also contribute positively to biodiversity conservation”. Já a pesquisa de Baragwanath et. al (2020), mostra que a homologação reduz em 66% o desmatamento dentro de terras indígenas, tanto na área próxima a em comparação com o grupo onde as comunidades indígenas estão presentes. Se a Amazônia se tornar uma savana, estima-se que “levaria 6 milhões de pessoas a um extremo risco térmico à saúde, com sensações térmicas próximas dos 34°C”, além de modificar completamente o regime de chuvas do continente8, podendo ter impactos negativos sobre a segurança alimentar daqueles que aqui vivem. O calor extremo é muito perigoso para os seres humanos e pode levar a falhas cardíacas, neurológica, renais e hepáticas9.

Em meio a proliferação, de um lado, de respostas individuais que se restringem a escolhas de consumo, e de outro, da desconfiança generalizada na política como solução, (dada a dificuldade da comunidade internacional para tomar ações efetivas contra a crise climática), a geração que cresceu à sombra da catástrofe urge por novas lideranças e maneiras de se relacionar com a política. Uma possível resposta pode residir na inclusão de novos atores no processo político: não apenas no aumento de espaço para que a geração Z se expresse, mas de maior poder decisório para as comunidades indígenas na agenda das mudanças climáticas.

Notas:
1 https://g1.globo.com/ro/rondonia/noticia/2021/11/01/indigena-de-rondonia-discursa-na-abertura-da-cop26-a-terra-nos-diz-que-nao-temos-mais-tempo.ghtml
2 https://www.theguardian.com/environment/2021/nov/02/cop26-indigenous-activists-climate-crisis
3https://www.theguardian.com/environment/2021/nov/08/cop26-legitimacy-questioned-as-groups-excluded-from-crucial-talks
4 https://www.theguardian.com/environment/2021/nov/07/counter-climate-summit-kicks-off-as-activists-lament-cop26-inaction
5 https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2021/10/pandemia-e-omissao-do-governo-fez-situacao-de-indigenas-piorar-em-2020-diz-relatorio.shtml
6 https://portalrapmais.com/indigena-txai-surui-cita-racionais-na-cop-26/
7 https://www.nytimes.com/2021/03/11/climate/nature-conservation-30-percent.html
8 https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2021/10/crise-climatica-e-desmatamento-da-amazonia-podem-deixar-11-milhoes-de-brasileiros-sob-calor-intenso.shtml
9 https://www.theguardian.com/global-development/2021/oct/20/too-hot-to-handle-can-our-bodies-with
stand-global-heating

Referências:

BARAGWANATHA, Kathryn, BAYIB, Ella, Collective property rights reduce deforestation in the Brazilian Amazon, PNAS, 2020

SCHUSTERA, Richard, GERMAINA, Ryan R., BENNETTB, Joseph R., REOD, Nicholas J., ARCESE, Peter, Vertebrate biodiversity on indigenous-managed lands in Australia, Brazil, and Canada equals that in protected areas, Environmental Science and Policy, 2019

0 0 votes
Article Rating
0 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments
Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin