Saúde mental e a Covid-19, de Bianca do Nascimento Barreto

03/09/2021
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De acordo com o Preâmbulo da Constituição da Organização Mundial da Saúde de 1946 e bem elucidado pela Professora Doutora Deisy Ventura, saúde é entendida como um estado de completo bem-estar físico, mental e social. Tendo em vista esses três pilares, concentrarei meus esforços na temática mental, muitas vezes negligenciada, especialmente durante a pandemia da Coronavirus Disease 2019 (COVID-19).

Durante uma pandemia, os indivíduos estão mais expostos a um aumento de experiências e emoções negativas e, dito isso, prevenir e amenizar os efeitos de realidade pandêmica é prioridade dos profissionais da saúde, suscitando a necessidade de cuidados psicológicos constantes  (Ho et al., 2020; W. Li et al., 2020). Recentemente, diferentes organizações internacionais se manifestaram quanto à premência dos cuidados em saúde mental na pandemia da COVID-19 (WHO, 2020a; European Centre for Disease Prevention and Control [ECDC], 2020). Além do medo de contrair a doença, a COVID-19 tem provocado sensação de insegurança em todos os aspectos da vida. O confinamento -que muitas vezes nos faz refletir com vivacidade outras situações difíceis que já passamos, impulsionando gatilhos emocionais-; conflitos familiares desencadeados pelo excesso de convívio familiar durante a quarentena; insegurança alimentar, habitacional e salarial; afastamento dos amigos;  incerteza perante o futuro; falta de acesso ou medo da necessidade de serviços de saúde; alterações no sono; exposição desacerbada à internet e notícias negativas; escassez de atividades de lazer e entre outras modificações na rotina fez com houvesse grande impacto quanto à saúde mental. Vale ressaltar que tal impacto não se restringe somente à população adulta. Guilherme Polanczyk, professor de Psiquiatria da Infância e Adolescência da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, vem pesquisando com afinco sobre saúde mental de crianças e adolescentes na pandemia da COVID-19. Segundo o mesmo, o principal fator de risco para transtornos mentais nesse grupo é a pobreza. Quando analisamos o nosso país, temos um dado alarmante, uma vez que 20 milhões de crianças entre 0 e 14 anos enfrentam essa situação. Olhando para o cenário global, a depressão constitui um dos principais fatores de incapacidade entre adolescentes de 15 a 19 anos. Conforme o pesquisador, o atendimento psicoterápico de crianças e adolescentes com sintomas ansiosos ou depressivos no contexto da pandemia devem ser levados a sério e o atendimento qualificado deve ser  ofertado e realizado, mesmo que por videoconferência ou telefone.  

Além dos diversos fatores que levam ao adoecimento mental nesses dois anos pandêmicos, temos uma problemática ainda mais complexa, o luto. A COVID-19 já fez mais de 4,49 milhões de vítimas. Todas essas pessoas possuíam famílias, amigos, colegas. A doença é avassaladora. Entre os primeiros sintomas e a morte temos um curto espaço de tempo.  O círculo afetivo do enfermo é obrigado a vivenciar situações extremamente desafiadoras, como não poder ver os pacientes internados até a impossibilidade de velar e enterrar seus entes queridos. Segundo Rafael Polakiewicz, Doutorando em Ciências do Cuidado em Saúde, o processo de morte na pandemia é atípico e ainda desconhecido. Os rituais fúnebres foram retirados dos enlutados, piorando o quadro de estresse pós-traumático. Houve uma desconstrução dos ritos de passagem. As pessoas encaminham seus entes queridos para o local de cuidado e muitas vezes nunca mais os encontram. Não se pode mais olhar para a pessoa amada e se despedir, fazendo com que o motivo da morte não seja processado e, consequentemente, cria-se uma lacuna na condição emocional. Os rituais frente à morte, são culturais, históricos e simbólicos para a sociedade e fazem parte de um importante papel de assimilação. Pesquisadores da área da saúde estão preocupados com a vulnerabilidade da população lutuosa que não está recebendo a devida atenção.

Conforme a pesquisa “ConVid Comportamentos”,  feita via web durante um mês que alcançou 45.161 brasileiros, de todas as unidades da Federação Brasileira, realizada em parceria pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e coordenada por por Marilisa Barros, professora titular de Epidemiologia da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM-Unicamp), atestou-se que 34% dos fumantes aumentaram o número de cigarros consumidos por dia e 17,6% das pessoas aumentaram o consumo de álcool. Tais indicadores correlacionam-se com sentimentos associados ao quadro depressivo. “Das pessoas entrevistadas, 40,4% disseram ter sentimentos de tristeza ou depressão, e 52,6% afirmaram experimentar sentimentos de nervosismo ou ansiedade, muitas vezes ou sempre”.

Por fim, compreende-se que o acolhimento dos familiares e amigos daqueles que vêm sofrendo durante a pandemia é de extrema importância, especialmente para se evitar o uso de válvulas de escapes prejudiciais à saúde, como tabagismo.  Práticas de meditações, atividades físicas, exercícios de respiração e entre outros são extremamente recomendados mas, tendo em vista o quadro mundial, quando se percebido sintomas de adoecimento mental recorrentes, deve-se procurar ajuda médica. O aumento de psicoterapias e tratamentos psiquiátricos aumentarão, isso é fato, mas devemos procurá-los o quanto antes, a fim de que se evite uma nova crise. A crise mental pós pandêmica da COVID-19.

REFERÊNCIAS

FAPESP. O agravamento dos transtornos mentais durante a pandemia. Disponível em: https://agencia.fapesp.br/o-agravamento-dos-transtornos-mentais-durante-a-pandemia/34505/. Acesso em: 27 ago. 2021.

KFF – FILLING THE NEED FOR TRUSTED INFORMATION ON NATIONAL HEALTH ISSUES. The Implications of COVID-19 for Mental Health and Substance Use. Disponível em: https://www.kff.org/coronavirus-covid-19/issue-brief/the-implications-of-covid-19-for-mental-health-and-substance-use/. Acesso em: 27 ago. 2021.

OSWALDO CRUZ – HOSPITAL ALEMÃO. SAÚDE MENTAL NA PANDEMIA: COMO FICAM AS DOENÇAS PSÍQUICAS APÓS MAIS DE UM ANO DE ISOLAMENTO SOCIAL?. Disponível em: https://www.hospitaloswaldocruz.org.br/imprensa/noticias/saude-mental-na-pandemia-como-ficam-as-doencas-psiquicas-apos-mais-de-um-ano-de-isolamento-social/. Acesso em: 27 ago. 2021.

SCIELO BRASIL. COVID-19 e saúde mental: a emergência do cuidado. Disponível em: https://www.scielo.br/j/estpsi/a/dkxZ6QwHRPhZLsR3z8m7hvF/. Acesso em: 27 ago. 2021.

SCIELO BRASIL. Saúde mental e intervenções psicológicas diante da pandemia do novo coronavírus (COVID-19). Disponível em: https://www.scielo.br/j/estpsi/a/L6j64vKkynZH9Gc4PtNWQng/?lang=pt. Acesso em: 27 ago. 2021.

VEJA SAÚDE. Luto em tempos de pandemia: o que muda ao dizer adeus. Disponível em: https://saude.abril.com.br/blog/com-a-palavra/luto-em-tempos-de-pandemia-o-que-muda-ao-dizer-adeus/. Acesso em: 27 ago. 2021.

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Mariana Uhelszki
20 dias atrás

Excelente matéria, a Saúde mental é grande pilar pra podermos aprender a lidar e conviver com a nova realidade

Beatriz Oliveira
20 dias atrás

Bom ler um texto que traz a vulnerabilidade da população que perdeu um ente querido, infelizmente, sinto que não conseguimos reinventar formas de viver o luto nessa pandemia, por termos perdido todos os meios de elaborar isso em grupo, tendo que viver de forma solitária e isolada. Obrigada por trazer esse tema.

Diêgo Ferreira da Silva
20 dias atrás

Ótimo post! Neste setembro amarelo é muito interessante refletir sobre os impactos da pandemia, pois como mencionado, a saúde mental pode causar grandes impactos na sociedade em um futuro próximo. Muito bem lembrado que devemos acolher aqueles que sofrem ao nosso redor e recomendar ajuda profissional, assim como incentivar a prática de atividades voltadas ao bem-estar. Também devemos sempre ficar atentos ao que postamos nas redes sociais, pois esse conteúdo pode ajudar, mas também piorar a saúde mental daqueles temos contato. Esta reportagem da CNN (https://www.cnnbrasil.com.br/saude/covid-19-uma-a-cada-cinco-pessoas-procurou-ajuda-para-tratar-saude-mental/) foi postada ontem e corrobora os pontos levantados, bem como a urgência do tema.

Gabriella Manzini Prado
20 dias atrás

Em meio a tanta angústia e sofrimento, é de certa forma reconfortante ler textos que trazem a tona pontos tão esquecidos e essenciais nesse momento de dor, a nível global. A sensação de exaustão e frustração tende só a aumentar, reconhecer que elas são válidas e que a saúde mental é uma pauta prioritária, é um caminho para passar de verdade por tamanho trauma que a pandemia tem se Tornado.

Patrick Alexander Eugster
19 dias atrás

Highly interesting and important article! As you mentioned, mental health during the COVID pandemic has been strongly affected by many factors. These factors are also strongly affecting students, whose lifes were strongly changed by lockdowns and fears of getting ill. There is an interesting article, which looks specifically at college students and the effects the pandemic had on their lifes (https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC8173277/). I personally know a lot of students our age who were struggling with mental health issues throughout the pandemic and I find it extremely important that society is aware of those issues!

Gabriela Souza Barbosa
19 dias atrás

Abalada e motivada. Bianca, você conseguiu despertar 2 sentimentos atípicos ao meu estado psicológico dos últimos tempos. O texto repleto de dados e carregado de empatia evidenciou mais uma vez a realidade mórbida que nos acompanha há quase 2 anos, mas além do caráter informativo a matéria me intrigou/cutucou de tal forma que, mesmo depois de alguns meses afastada de notícias por estar cuidando da minha própria saúde mental, me sinto motivada a não só voltar com as “news daily” como também estudar mais sobre o assunto, principalmente por ser uma aspirante a profissional da saúde. Obrigada!

Mariana Pinheiro Marques
15 dias atrás

O debate sobre saúde mental é muito importante, principalmente considerando o cenário atual da pandemia e como esta afetou o bem-estar mental de muitos. Ao ler o parágrafo sobre o luto, fiquei pensando sobre a naturalização e banalização da morte que vem ocorrendo com a pandemia. Muitas vezes em meio ao bombardeamento de notícias não há um processamento dessas informações e pessoas se tornam números, sem rosto, família, vida. Nesse sentido, penso ser muito relevante a questão sobre os rituais fúnebres, a assimilação da morte e a possibilidade do luto, capazes de evitar essa contenção emocional e a naturalização dos óbitos. 

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