O Amor nos Tempos da Covid-19, de Natan Zanini Falconi

20/08/2021
Share on twitter
Share on linkedin
Share on facebook
Share on whatsapp

Na última terça-feira, enquanto assistia à primeira aula do curso de Saúde Global, ministrado pela professora Deisy Ventura, saltou-me à memória um trecho de um dos meus livros preferidos: “O amor nos tempos do cólera”, de Gabriel García Márquez. Nele, o narrador afirma que “No fim das contas todo mundo sabia que os tempos do cólera não haviam terminado, apesar dos alegres informes das autoridades sanitárias. Quanto ao navio, não havia problema. Transferiu-se a pouca carga embarcada, aos passageiros se disse que havia um percalço de máquinas, e foram passados de madrugada para um navio de outra empresa. Se coisas assim se faziam por tantas razões imorais, e até indignas, Florentino Ariza não via por que não seria lícito fazê-las por amor.” (p. 425).

Quando tive contato com a obra pela primeira vez, em março deste ano, não pude deixar de relacioná-la com a pandemia de Covid-19. À primeira vista, os elementos ficcionais apresentados por Márquez que mais se aproximam da nossa realidade são: o descaso das autoridades, o negacionismo em relação à ciência e, principalmente, as oportunidades de corrupção criadas por uma crise desta dimensão – afinal, não é como se a morte de centenas de milhares de brasileiros fosse servir como impeditivo moral para uma prática tão consolidada em nosso país. Uma única aula foi suficiente, no entanto, para que eu percebesse que essa situação não se limita à Covid-19 e muito menos ao cenário brasileiro. Ao contrário, está presente na Saúde Global como um todo, e na forma como herdamos da medicina colonial a busca pela “bala mágica”, expressão frequentemente utilizada por João Biehl, pioneiro nos estudos críticos da Saúde Global e uma de suas mais importantes referências.

A estratégia da “bala mágica” resume-se a encontrar soluções pontuais e em muitos aspectos milagrosas para um problema, mas sem provocar mudanças estruturais na forma como encaramos a saúde, sobretudo a saúde pública. Nesse sentido, podemos questionar até que ponto as próprias vacinas contra a Covid-19, a despeito de sua absoluta importância no momento em que nos encontramos, não representam também essa tendência. Afinal, bastou que os adultos fossem vacinados com a primeira dose para que o estado de São Paulo anunciasse a reabertura sem restrições dos bares e restaurantes, para não mencionar os “alegres informes” do presidente Jair Bolsonaro, que comemora o suposto fim da pandemia desde o ano passado, quando não havíamos sequer atingido o maior pico. Enquanto apostamos todas as nossas fichas em soluções milagrosas e no desenvolvimento de novas tecnologias, nos afastamos dos reais problemas de Saúde Global e dos verdadeiros mecanismos de prevenção, como direito à moradia, acesso a saneamento básico, trabalho digno, investimento em saúde e formação de profissionais capacitados e combate às desigualdades sociais, para citar apenas alguns.
Ainda no livro, afirma-se que “O cólera se encarniçou muito mais contra a população negra, por ser a mais numerosa e pobre, mas na realidade não teve contemplação com cores nem linhagens. Parou de chofre como havia começado, e nunca se soube o número de suas vítimas, não porque fosse impossível estabelecê-lo, e sim porque uma de nossas virtudes corriqueiras era o pudor das próprias desgraças.” (p. 143).

Nesse outro fragmento, torna-se evidente que tanto na epidemia de cólera que assolou diversas cidades latino-americanas no final do século XIX quanto na atual pandemia de Covid-19 as pessoas negras e pobres são as que mais morrem. Sobre isso, vale destacar dois pontos principais que também foram trabalhados em aula. Primeiro, a importância das determinantes sociais de saúde, muito utilizadas pelo historiador peruano Marcos Cueto. Ou seja, a percepção de que a saúde vai além do aspecto biológico, recebendo também grande influência das redes comunitárias, condições de trabalho e desigualdades sociais. Segundo, escancara as consequências de uma Saúde Global que, durante séculos, foi pautada pela busca de “balas mágicas”, sem necessariamente atingir a raiz dos problemas, diminuir a carga global das doenças e melhorar os indicadores de saúde e sociais das populações.

Assim como o cólera no livro, os tempos da pandemia ainda não terminaram, mas fica cada vez mais claro que a ameaça não se restringe à Covid-19 e suas variantes, estendendo-se também para futuras doenças que podem – e tudo indica que devem – surgir. Portanto, a pergunta que devemos fazer é: estaremos preparados para lidar com elas ou esperaremos que nos devastem para sair em busca de inovações tecnológicas e vacinas compatíveis?

5 1 vote
Article Rating
5 Comentários
Oldest
Newest Most Voted
Inline Feedbacks
View all comments
Guilherme Affonso Salles Pereira
16 dias atrás

Ótimo texto Natan! Realmente a “bala mágica” é extremamente difundida como solução. Poucos dias atrás, uma conhecida passou por uma crise de ansiedade, medo e pânico no meio da rua enquanto voltava para casa, pois semanas antes sofreu um assalto armado em frente ao seu condomínio e, a partir de então, voltar ao lar se tornou gatilho para lembrar dos momentos de terror. Enfim, quando chegou em casa, a primeira coisa que seus pais disseram foi “precisamos ir ao médico para conseguir receita de remédios para você tomar e se acalmar quando tiver essas crises”. Quando fiquei sabendo disso só consegui pensar que, por mais que o remédio ajudasse no momento, não passaria de uma “bala mágica” que não resolveria o problema na raiz, o que seria feito, por exemplo, indo ao psicólogo e tratando esse trauma (minha opinião).
Mas voltando à questão do COVID-19, seu texto me ajudou a perceber que ao contrário do que os governantes e até a mídia divulgam, as vacinas, por mais importantes que sejam, realmente podem ser vista como “balas mágicas” e penso que a resposta para sua questão final é não, infelizmente não estamos prontos para novas pandemias.
Parabéns pelo texto!

Natan Zanini Falconi
9 dias atrás

Caramba, Guilherme! Que situação triste – mas, infelizmente, comum – a da sua conhecida. Compartilho da mesma opinião que você em relação a essa busca desenfreada por medicamentos, e isso só nos mostra que a tal estratégia da “bala mágica” está muito mais enraizada na nossa sociedade do que parece, transpassando o governo e a indústria farmacêutica e chegando até os nossos lares, na forma como lidamos com os problemas de saúde. Obrigado pelo comentário!

Beatriz Lalli
13 dias atrás

Natan, achei sua comparação com o livro do Garcia Marques interessante e criativa. Eu particularmente também sou suspeita pra falar dele, mas acho que você soube aprofundar e explorar bem esses cenários que, ora ocupam a história de amor do livro, ora as nossas vidas hoje, questionando o fim e a solução dos problemas que nos assolam. 

Sua reflexão me lembra outro livro, um do Thomas Mann chamado “Morte em Veneza”, que tem muitos elementos do “Amor nos tempos de cólera”, — como a temática da doença e o platonismo amoroso –, mas é mais filosófico. A cólera tem outro significado e o livro percorre o lugar do narcisismo, da perfeição estética, em busca de uma satisfação pessoal transitória, que jamais tem fim. A “bala mágica” da indústria farmacêutica que você comenta também ocupa, em certa medida, a narrativa oculta e ambiciosa da perfeição científica, da solução efêmera, do engano. É um romance muito bem construído, talvez você goste também, então fica aqui a sugestão :).

Natan Zanini Falconi
9 dias atrás
Reply to  Beatriz Lalli

Esse livro é realmente incrível, Beatriz! Fiquei muito impactado pela forma como o autor consegue reproduzir questões tão atuais, sobretudo no contexto da pandemia de Covid-19, mesmo escrevendo no século passado. Não conhecia esse livro do Thomas Mann, mas me interessei demais pela sua descrição e vou procurá-lo com certeza. Muito obrigado pela sugestão!

Beatriz Lalli
13 dias atrás

Natan, achei sua comparação com o livro do Garcia Marques muito criativa. Eu particularmente também sou suspeita pra falar dele, mas acho que você soube aprofundar e explorar bem esses cenários que, ora ocupam a história de amor do livro, ora as nossas vidas hoje, questionando o fim e a solução dos problemas que nos assolam. 

Sua reflexão também me lembra outro livro, um do Thomas Mann chamado “Morte em Veneza”, que tem muitos elementos do “Amor nos tempos de cólera”, — como a temática da doença e o ultra platonismo amoroso que perpassa a história–, mas é mais filosófico. A cólera tem outro significado, e o livro percorre o lugar do narcisismo, da perfeição estética, em busca de uma satisfação pessoal transitória, que jamais tem fim. A “bala mágica” da indústria farmacêutica que você comenta também ocupa a narrativa oculta e ambiciosa da perfeição científica, da solução efêmera, do engano. É um romance muito bem construído, talvez você goste também. Se você ainda não conhece, fica aqui a sugestão :).

Last edited 13 dias atrás by Beatriz Lalli
Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin