Filmando em meio ao caos: COVID-19 e o setor audiovisual, de Gabriela Molina Consolo

29/09/2021
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É difícil pensar em um setor ligado ao entretenimento que tenha ganhado mais proeminência durante a quarentena do que a indústria audiovisual. Literalmente de um dia para o outro, com um decreto de estado de emergência em março de 2020, o setor cultural viu suas portas se fechando. Cinemas, teatros, circos, museus, exposições, e até mesmo as ruas, completamente desertos. No entanto, o audiovisual tinha um trunfo em relação aos demais: o conteúdo em casa.

Segundo a Conviva, uma plataforma de inteligência em tempo real para mídia de streaming otimizada, o tempo de utilização médio de serviços de streaming globalmente aumentou 63% em 2020 em relação ao ano anterior. A oportunidade se transformou também em um desafio: como lidar com o repentino aumento na demanda se é proibido filmar?

“No dia que a Prefeitura anunciou que as filmagens em locais públicos estavam proibidas, nós já esperávamos”, conta Carolinne, responsável pela São Paulo Film Commission (SPFilm), o departamento público que controla o processo de autorizações de filmagem na cidade. “Algumas produções já tinham parado por conta própria, outras esperavam a determinação.”.

“Estávamos com três projetos em andamento. Paralisamos tudo. Todo mundo foi para casa e pagamos os envolvidos, desde técnicos até fornecedores. Tivemos que acionar o seguro por conta do prejuízo”, relembra Marcelo, assistente de produção executiva.

A história de Marcelo é parte de um fenômeno global. Segundo a Olsberg-SPI, a maior consultoria de entretenimento do mundo, a paralisação levou, internacionalmente, a uma perda de 10 milhões de empregos na cadeia de valor global do setor e US$145 bilhões em impacto econômico nos primeiros seis meses de 2020.

“Há pouco respaldo para o setor audiovisual. O índice de informalidade é muito alto; era difícil imaginar, antes da pandemia, uma paralisação. As relações de trabalho se dão geralmente por PJ ou MEI, não há amparo para a maioria dos profissionais”, relata Carolinne.

No primeiro semestre de 2020, a vacinação ainda um sonho distante, surge uma esperança para a retomada das produções: o teste PCR-RT como mecanismo eficaz para a detecção de contágio por COVID-19. Após fechar uma parceria com um hospital, a produtora em que Marcelo trabalhava começou a desenhar, junto a uma infectologista, um plano para filmar em segurança durante uma pandemia.

Um marco desse processo foi a criação de um Departamento de Saúde na produtora, que era responsável por marcar e acompanhar os testes duas vezes ao mês. Além disso, foram necessárias adaptações na infraestrutura dos estúdios. Aos profissionais, era concedido transporte e alimentação.

Enquanto isso, a SPFilm também estudava protocolos para um retorno seguro.

“O fato de a COVID-19 ter chegado primeiro à Europa nos ajudou a nos preparar. Pudemos observar de perto quais medidas estavam sendo tomadas internacionalmente para criar protocolos de saúde oficiais”, Carolinne relembra. “Acompanhamos a construção do Plano São Paulo, do governo federal e de experiências internacionais, especialmente de países com uma realidade similar à do Brasil.”.

Carolinne e sua equipe, quando pensavam protocolos para a retomada das filmagens, tinham um desafio: conciliar a realidade da COVID-19 no Brasil, que estava longe de acabar, com um setor vulnerável paralisado há meses. A SPFilm seguiu fazendo o “meio de campo” entre o setor público e as associações e sindicatos do audiovisual.

“O governo federal, como sabemos, pouco fez para controlar a pandemia. Já no caso da Prefeitura [de São Paulo], ainda que as soluções tenham tomado um tempo para aparecer, eu senti muita transparência sobre o que estava acontecendo e em que pé estávamos”, Marcelo pontua.

Quando as filmagens em locais públicos voltaram a ser autorizadas, em 10 de julho de 2020 (quase quatro meses após sua suspensão), as produções já tinham acesso ao protocolo de higiene de associações do setor audiovisual, e ao protocolo da SPFilm. Ambos foram corroborados por autoridades sanitárias da Prefeitura de São Paulo, tornando seu cumprimento obrigatório. Desde o início da pandemia, segundo a Olsberg-SPI, Diretor de Medidas contra COVID-19 já se tornou um dos cargos com maior demanda no setor audiovisual.

“A questão sanitária foi levada extremamente a sério pelos profissionais. Na minha percepção, ajudou o fato de os protocolos terem sido desenvolvidos por pessoas que vivem o dia-a-dia do setor. Nosso trabalho foi balancear as necessidades do setor e a proteção dos espaços públicos, pensando nos servidores e no público que voltariam a acessar aqueles locais”, Carolinne segue contando.

Marcelo concorda com a avaliação de Carolinne. “Nossas equipes foram algumas das primeiras a voltar a filmar. Não houve contestação aos protocolos. Havia muito medo de não ter trabalho, de não receber. Os protocolos foram vistos como uma oportunidade.”.

Em questões criativas, houve necessidade de adaptação dos formatos. Para a gravação da nova temporada de um grande reality show, era impensável trazer participantes de outros estados por conta do deslocamento aéreo. O time criativo decidiu, para evitar a necessidade de confinamento do elenco, ter participantes diferentes e um ganhador a cada episódio. “O pessoal de casa reclamou, mas foi a forma que encontramos de continuar produzindo”, ele confessa.

Isso é um reflexo da grande questão do audiovisual nesse período: o aumento da demanda vs. as limitações sanitárias. “As emissoras estavam reciclando conteúdo, o que foi legal no começo, mas logo veio o que chamaram de ‘super demanda’”, ele lembra, referindo-se ao aumento do consumo audiovisual em casa por conta da quarentena. “A orientação era clara: conteúdos leves, felizes, que retomassem a esperança das pessoas. Este ano, chegamos à triplicação da demanda. Estávamos com 3 projetos, na semana seguinte tínhamos 9, e agora já chegamos a 12. Foi a primeira vez que tivemos tantas equipes ativas ao mesmo tempo.”.

Carolinne traz fatores adicionais para a sobrecarga. “Para seguir os protocolos, foi necessário diminuir as jornadas de trabalho. Pelo menos 2 dessas horas são gastas com questões de COVID – testagem, sanitização de espaços etc. A alimentação mudou totalmente; passou a ser feita com catering individual, revezamento e barreiras físicas entre as pessoas. Isso muda a escolha das locações. Hoje, percebemos maior preferência por locais abertos ou controlados, como estúdios”.

Apesar de todos os solavancos, os protocolos são considerados um sucesso. Desde a retomada das filmagens, segundo associações do setor, os níveis de contágio por COVID-19 em sets são muito baixos, e estão atrás de outros grandes centros audiovisuais da América Latina, como a Cidade do México.

“Saúde pública é um pacto coletivo”, Marcelo relembra. “É um acordo entre as pessoas; todas as medidas são pelo bem comum. Não estamos aqui para questionar por que precisa de álcool gel. Cada um faz o seu papel não só para não se contagiar, mas para não colocar seus colegas em risco.”.

Por trás do glamour dos tapetes vermelhos e premiações, milhões de profissionais do audiovisual se viram em uma realidade bem diferente dos filmes quando a quarentena começou. Vivendo a dualidade de, por um lado, serem quistos como nunca antes por seus espectadores em casa e, por outro, da falta de amparo para garantir sua sobrevivência e bem-estar, eles voltaram às ruas em um momento que a maior parte dos setores sequer o cogitava. Quando a questão não é se filmar mas como filmar, o foco no desenho e cumprimento de procedimentos de higiene e saúde foi essencial para implementar políticas públicas que abordem também aspectos sociais e econômicos do setor e de seus trabalhadores.

Referências

OLSBERG-SPI. Global Screen Production – The Impact of Film and Television Production on Economic Recovery from COVID-19. 25 jun. 2020. Disponível em: <https://www.o-spi.co.uk/wp-content/uploads/2020/06/Global-Screen-Production-and-COVID-19-Economic-Recovery-Final-2020-06-25.pdf>.

PROTOCOLO DE SEGURANÇA E SAÚDE NO TRABALHO DO AUDIOVISUAL. 2021. Disponível em: <http://spcine.com.br/wp-content/uploads/PROTOCOLO_AV_2021_OK-1.pdf>.

PROTOCOLO DE FILMAGENS E GRAVAÇÕES EM ESPAÇOS PÚBLICOS. 2021. Disponível em: <http://spcine.com.br/wp-content/uploads/Protocolo-de-Filmagens-e-Grava%C3%A7%C3%B5es-em-Espa%C3%A7os-P%C3%BAblicos.pdf>.

TREVIZANI, Renata. Consumo de conteúdo audiovisual aumenta na pandemia. Comunicare. 10 nov. 2020. Disponível em: <https://www.portalcomunicare.com.br/consumo-de-conteudo-audiovisual-aumenta-na-pandemia/>.

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Amanda Gonçalves Machado
23 dias atrás

Adorei a publicação! Ouve-se muito desde o início da pandemia sobre o aumento da demanda por conteúdo de streaming e, sem dúvida, as séries, filmes e programas de TV se tornaram companhia fiel no dia-a-dia de uma sociedade distanciada fisicamente pelo vírus. O impacto na cultura cinematográfica (bem como nos espetáculos de teatro, música, etc.) também foi duro e claro. Apesar de saber de ambos fatos, não havia parado para relacioná-los até ler este post inédito. Realmente são aspectos concomitantes mas um no sentido inverso do outro; e é uma pena que em uma suposta oportunidade de maior produção cultural brasileira pelo aumento da demanda, o cenário de saúde pública nacional tenha tornado perigoso e limitante gravar novos episódios, filmes e produzir conteúdo cultural de uma forma geral. Esperamos que o futuro recompense este setor, entre outros setores tão importantes para a sociedade, dura e continuamente atingido pela pandemia (principalmente pela forma como ela foi gerida no país, na verdade).

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