Como fica o tratamento e acompanhamento das doenças crônicas não transmissíveis durante a pandemia do coronavírus?, de Marina Roesler Gallerani

12/11/2021
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É natural que frente a um cenário extremamente grave de pandemia de um vírus novo e desconhecido, nossa atenção se direcione majoritariamente para esse fenômeno. Com a mídia tratando quase exclusivamente desse tema por meses, acabamos por esquecer que antes de tudo isso os hospitais e médicos já estavam ocupados com outras enfermidades. A questão é que, apesar de pensarmos praticamente apenas na Covid-19, as demais doenças não deixaram de existir nem diminuam sua incidência na população. Quando se trata de doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) que necessitam de um atendimento e tratamento contínuo como hipertensão, diabetes, doenças cardíacas e respiratórias, não existe “pausa” – elas são responsáveis por mais de 66% das mortes no mundo (SUBRAMANIAM et al., 2020).

Alguns fatores colaboraram para um recente agravamento de DCNTs, dentre eles a sobrecarga dos sistemas de saúde com o combate à pandemia. Dessa forma, houve uma diminuição na oferta de alguns serviços de saúde, e inclusive a suspensão de procedimentos e cirurgias eletivas, que, apesar de não serem urgentes, têm um papel fundamental na saúde e bem-estar dos pacientes. Além disso, a necessidade de isolamento social como medida de saúde pública, combinada ao medo da população em se expor ao vírus, fez com que muitos pacientes deixassem de procurar atendimento médico com a mesma regularidade de antes (BORGES et al., 2021)

Tratando especificamente das doenças cardiovasculares, doenças essas que já figuravam entre as principais responsáveis pelo maior número de mortes no mundo (FRANZÃO, 2021), o cenário também foi agravado com a pandemia, frente à necessidade de priorizar os leitos de UTI para pacientes com Covid-19. Agora, com a recente melhora dos índices pandêmicos e o avanço da vacinação, estamos em um momento em que esses tratamentos estão sendo retomados. Entretanto, a alta do dólar americano elevou o preço de insumos médicos necessários para os procedimentos, tornando extremamente difícil para o SUS adquiri-los dentro de seus preços tabelados e colocando 50 mil pessoas na fila de espera para cirurgia cardíaca (LOPES; VARGAS, 2021). Os resultados disso já são visíveis, um estudo publicado pela CNN e desenvolvido em conjunto por pesquisadores da UFMG, da UFRJ, do Hospital Alberto Urquiza Wanderley e da Sociedade Brasileira de Cardiologia, apontou que durante a pandemia houve um aumento de 132% nos óbitos em decorrência de doenças cardiovasculares nas seis capitais brasileiras avaliadas (FRANZÃO, 2021). Os números impactantes que vemos na mídia com a contabilização dos óbitos por Covid-19, apesar de extremamente altos, não consideram essas outras mortes “silenciosas” que também ocorrem, de certa forma, em decorrência da pandemia.

Outro quadro que se agravou nos últimos 18 meses, foi a questão da saúde mental da população. Com as pessoas procurando menos pelos serviços de atendimento psicológico e psiquiátrico e com a pandemia sendo um catalisador de problemas de saúde mental, temos mais uma frente que poderá sobrecarregar o sistema de saúde nos próximos meses. Quando consideramos a relação entre depressão e doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs), temos mais um agravante na demanda por cuidados no futuro próximo, afinal depressão é considerada um fator de risco para as DCNTs levando a piores prognósticos para essa população. (SILVA et al., 2017)

Dessa forma, é necessário voltar nossas atenções para esse grupo de doenças, mesmo que a pandemia ainda não tenha acabado, para garantir que esses problemas sejam adequadamente adereçados e que as pessoas portadoras de doenças crônicas tenham como tratar e controlar seus quadros, visando minimizar as mortes ocasionadas por falta de recursos, assistência ou tratamento contínuo e correto dessas condições com as quais nosso sistema e nossos profissionais de saúde já estão extremamente familiarizados. Com o avanço da vacinação contra a Covid-19 e a melhora nos índices da doença, já está na hora de retomar de maneira eficiente o cuidado com as doenças crônicas.

Referências

SUBRAMANIAM, Kannan et al. Doenças Crônicas não podem ser esquecidas durante a pandemia. Veja Saúde, São Paulo, 2 set. 2020. Disponível em: https://saude.abril.com.br/blog/com-a-palavra/doencas-cronicas-nao-podem-ser-esquecidas-durante-a-pandemia/. Acesso em: 23 out. 2021.

 SILVA, Amanda Ramalho et al. Doenças crônicas não transmissíveis e fatores sociodemográficos associados a sintomas de depressão em idosos. Jornal Brasileiro de Psiquiatria, [S.L.], v. 66, n. 1, p. 45-51, mar. 2017. FapUNIFESP (SciELO). http://dx.doi.org/10.1590/0047-2085000000149.

FRANZÃO, Luana. Mortes por doenças cardiovasculares crescem até 132% na pandemia: o estudo avaliou seis capitais nacionais: Manaus (AM), Belém (PA), Rio de Janeiro (RJ), São Paulo (SP), Recife (PE) e Fortaleza (CE). CNN Brasil. São Paulo, 28 jan. 2021. Saúde. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/saude/mortes-por-doencas-cardiovasculares-crescem-ate-132-na-pandemia/. Acesso em: 23 out. 2021.

JORNAL NACIONAL (Brasil). Mortes por outras doenças aumentam na pandemia, dizem pesquisadores da Fiocruz: a pandemia fora de controle traz consequências também para pacientes de outras doenças. com hospitais lotados, fica difícil oferecer o tratamento adequado. G1 Globo. São Paulo.  29 abr. 2021. Disponível em: https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2021/04/29/mortes-por-outras-doencas-aumentam-na-pandemia-dizem-pesquisadores-da-fiocruz.ghtml. Acesso em: 23 out. 2021.

BORGES, Kalyne Naves Guimarães et al. O impacto da pandemia de COVID-19 em indivíduos com doenças crônicas e a sua correlação com o acesso a serviços de saúde. RESAP, Goiânia, p. 1-15. Disponível em: https://docs.bvsalud.org/biblioref/2020/11/1129415/o-impacto-da-pandemia-de-covid-19-em-individuos-com-doencas-cronicas.pdf. Acesso em: 23 out. 2021.

CRUZ, Carolina. Estudo alerta sobre ‘pandemia paralela’ na saúde mental e risco de sobrecarga nas consultas após vacinação contra Covid. G1 Globo. São Paulo. 24 out. 2021. Disponível em: https://g1.globo.com/df/distrito-federal/noticia/2021/10/24/estudo-alerta-sobre-pandemia-paralela-na-saude-mental-e-risco-de-sobrecarga-nas-consultas-apos-vacinacao-contra-covid.ghtml. Acesso em: 24 out. 2021.

LOPES, Raquel; VARGAS, Mateus. Pandemia e alta do dólar empurram cerca de 50 mil para fila de cirurgia cardíaca no SUS: insumos ficaram mais caros, com valores muito acima dos que o governo federal repassa aos hospitais. Folha de S. Paulo. São Paulo. 24 out. 2021. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2021/10/pandemia-e-alta-do-dolar-empurram-cerca-de-50-mil-para-fila-de-cirurgia-cardiaca-no-sus.shtml. Acesso em: 24 out. 2021. 

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