A Linguagem enquanto mecanismo de enfraquecimento cultural e dominação em Saúde Global, de Jenifer Torres Toniolo

20/10/2021
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Não há muita credibilidade na bondade da indústria farmacêutica, mas certamente as companhias de saúde global poderiam fazer muito mais pela saúde humana. E é assim, mudando de nome, que grupos hegemônicos se redesenham bem diante dos nossos olhos, para nos iludir e fazer acreditar que realmente estão trabalhando pelo bem estar da humanidade. 

Através de artifícios linguísticos, rebranded themselves, (Biehl, 2016, apud Biehl e Petryna 2013b), João Biehl em Theorizing Global Health nos convida a observar como atores antigos competem por recursos e influência através de parcerias público privadas para disponibilizar tratamentos farmacológicos tecnologicamente ultrapassados aos países em desenvolvimento. Liberando assim seus estoques de produtos que não servem mais para serem comercializados, se utilizando da “farmacofilantropia” e acelerando a oferta de tecnologias farmacêuticas menos iatrogênicas e mais eficientes para os consumidores dos países do centro do capitalismo global. Partindo da lógica do acesso a tratamentos medicamentosos como um dos princípios centrais do ativismo global de saúde, vindo a fornecer eventualmente, recursos de saúde pública que os estados e mercados não poderiam realizar firmam-se como agentes que trabalham em prol da saúde humana. 

Ao invés de se articularem a luta para que todos tenham acesso à infraestrutura básica de vida, como condições de saneamento básico, água encanada, alimentação natural, moradia digna e educação que são determinantes sociais de saúde que impactam muito mais positivamente a vida de populações empobrecidas do que apenas entregar uma bala mágica ultrapassada, essas empresas mantêm populações dependentes de sua “ajuda” que atende de modo superficial e paliativa as necessidades de saúde e de modo perverso se perpetua no nível da assistência se aproveitando da reincidência dos agravos de saúde, e impedindo que a geração de reais oportunidades para a melhoria das condições de vida e saúde daquelas populações se concretize.

Deixar de se autodefinir como indústria farmacêutica e passar a se colocar como uma empresa de saúde global é um artifício linguístico que possibilita que empresas atuem indiscriminadamente se aproveitando de populações em situação de vulnerabilidade social, pois escamoteia suas reais intenções. Somente a partir de uma análise aprofundada dos seus modos de atuação em tais territórios é que se torna possível a identificação de como este é um método de manutenção das desigualdades locais.

A mudança do nome do rio Legbala para Ebola (Nunes, 2016) na República Democrática do Congo por africanistas belgas é mais um exemplo da manipulação da linguagem como expressão do colonialismo e seus agenciamentos, atuando no enfraquecimento e apagamento cultural, comprometendo a identidade e a capacidade de autodeterminação de um povo. Num primeiro momento pode parecer ser algo irrelevante e até inofensivo mas a partir de uma alteração como essa, nomes que antes possuíam riqueza de significado e representação para a população de determinado território, tornam-se esvaziados de seus significados originais e acabam por submeter aquele grupo a uma lógica de aceitação da dominação que começa de modo “suave” através de determinados vocábulos de sua linguagem, abrindo assim precedentes para a dominação de seus corpos e modos de vida.

George Orwell já nos alertava em “1984” quando em sua novela distópica utilizou da invenção do novilíngua na trama, que se propunha enquanto “lingua” de modo a limitar o vocabulário do povo para dentre outras finalidades restringir a sua capacidade de expressão de ideias e promover a eliminação dos significados afetivos dos vocábulos enquanto representações da realidade. Nos dois casos apresentados, tanto no das indústrias farmacêuticas que se renomearam como companhias de saúde global, quanto no dos africanistas belgas que mudaram o nome do Rio Legbala para Ebola, fica perceptível o quanto essas alterações no melhor (ou pior) estilo novilíngua, nos colocam diante de um método de manipulação da verdade e de esvaziamento de significado de um termo e de um vocábulo com a finalidade de enganar, enfraquecer, manipular e dominar seus interlocutores.

Referências:

Biehl (2016) Theorizing global health. Medicine Anthropology Theory, v. 3, n. 2: 127–142.

Nunes (2016). Ebola and the production of neglect in global health, Third World Quarterly, 37:3, 542-556.

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Isabela leiva rosa
1 mês atrás

Muito obrigada pelo seu texto, Jenifer! Em contrapartida à manipulação da linguagem como expressão do “colonialismo e seus agenciamentos”, compartilho um material desenvolvido pela ACNUR, disponível em: https://www.acnur.org/portugues/wp-content/uploads/2021/02/Guia-Jornalismo-Web-V3.pdf
É um guia para profissionais e estudantes de comunicação para a cobertura jornalística humanitária, que reconhece a importância da linguagem nas relações internacionais e caminha em direção ao combate dos principais estereótipos de gênero, raça e etnia na prática humanitária com pessoas refugiadas. Para nós, que estudamos saúde global, é importante descobrir que as estruturas linguísticas são instrumentos de dominação também nessa área, e acompanhar as boas práticas que surgem no combate a esse efeito.

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