A Centralidade dos alimentos ultraprocessados na sindemia de obesidade, desnutrição e mudanças climáticas, de Karla Maria Ribeiro Vialta

19/10/2021
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O termo sindemia foi cunhado pelo médico e antropólogo americano Merrill Singer nos anos 90, e se refere à interação de pelo menos duas doenças com condições ambientais, sociais, biológicas, econômicas, que podem potencializar os efeitos nocivos desses problemas para os seres humanos. A associação entre mudanças climáticas e o desenvolvimento de obesidade e desnutrição, problemas agravados pela indústria alimentícia e pela agricultura insustentável ameaçam a segurança alimentar e saúde das pessoas, caracterizando uma sindemia. E os alimentos ultraprocessados são um dos pontos focais para entendê-la e combatê-la.

 Alimentos ultraprocessados são aqueles que passam por um processo intenso na indústria estando repletos de conservantes, emulsificantes, e aromatizantes, para garantir um sabor forte e maior durabilidade (isso, aliado a seu baixo custo de produção, os torna extremamente lucrativos). São produtos com uma longa lista de ingredientes, os quais em sua esmagadora maioria são já processados. Muito pouco de sua constituição é propriamente comida. Assim, proteínas e fibras não são ingeridas em quantidades suficientes enquanto açúcar, sódio e gorduras são ingeridos em quantidades superiores às ideais. São os chocolates, refrigerantes, salgadinhos, misturas em pó para sucos e sopas, biscoitos e cereais matinais. Seu consumo desenfreado eleva as chances de doenças crônicas como diabetes, obesidade e hipertensão e de alguns transtornos menos “óbvios” como asma e depressão.

No Brasil, pesquisa encomendada pelo Instituto Brasileiro do Consumidor apontou que o consumo de ultraprocessados entre pessoas de 45-55 anos aumentou de 9% para 16% em 2020.  Nos EUA, eles já compõem 2/3 das calorias ingeridas por pessoas com idade entre 2 e 19 anos. Com exceção da América do Norte, todos os continentes viram o consumo em kg de ultraprocessados per capita crescer entre 2000 e 2013. O mercado desses alimentos cresceu 43,7% mundialmente no mesmo período. Pesquisadores da Wuhan University analisaram estudos empíricos e constataram uma relação positiva entre o consumo de ultraprocessados e o desenvolvimento de enfermidades como doenças cardiovasculares; respiratórias, como a asma (principalmente em adolescentes do sexo masculino que não consomem frutas e verduras regularmente); gastrointestinais; problemas de saúde mental; obesidade; entre outras. Enquanto alimentos ultraprocessados são mais saborosos por conta de seus componentes, a pobreza de nutrientes essenciais em sua composição prejudica a saúde e facilita o desenvolvimento de doenças, especialmente quando se tornam a principal fonte de alimentação consumida e/ou quando compõem a dieta por um período mais longo (alguns dos estudos revisitados pelos pesquisadores de Wuhan foram conduzidos por um período de cinco anos).  

Além das questões de saúde, a indústria de ultraprocessados favorece a monocultura em detrimento da biodiversidade, da agricultura familiar e de produtos orgânicos, acelerando processos como perda de bioma e desertificação. O sistema de produção de alimentos atual é a principal força motriz por trás da diminuição da biodiversidade no planeta, já que transforma ecossistemas naturais em solo agrícola esgotado por monoculturas e prejudica espécies nativas com sua necessidade de fertilizantes, pesticidas e grande gasto de energia e água. Grande parcela desse gasto vem de ingredientes de origem animal, que são amplamente utilizados nos ultraprocessados, ao lado de monoculturas como soja, milho e cana de açúcar.

A luz desses processos intensificados pela indústria de alimentos ultraprocessados, profissionais da área de saúde e nutrição submeteram à ONU o documento “The need to reshape global food processing: a call to the United Nations Food Systems Summit”, por ocasião da Cúpula sobre Sistemas Alimentares sediada pela ONU. Os sistemas alimentares, que englobam formas de produção e hábitos alimentares são peça chave para entender a dimensão da sindemia e para combatê-la. Nesse documento, os especialistas reforçam o impacto dos ultraprocessados na saúde, além de abordar o papel das grandes empresas na questão, que “usam seu poder para formular, manufaturar, distribuir e fazer propagandas agressivas de seus produtos mundialmente”. Além disso, elas conduzem pesquisas para defender os produtos e se utilizam de lobby para dissuadir Estados de regularem melhor seus sistemas alimentares.

A Cúpula da ONU tem sido constantemente criticada por supostamente favorecer corporações, principalmente depois de anunciar uma parceria com o Fórum Econômico Mundial, que representa empresas multinacionais. Organizações da sociedade civil denunciaram também a falta de especialistas da área e de representantes do Sul Global. O documento “The need to reshape global food processing” então, é um importante chamado já que o fórum seria o espaço ideal e com a magnitude necessária para uma discussão sobre ultraprocessados e suas regulamentações, além da elaboração de guias alimentares, exemplos de políticas públicas que ajudariam a combater os problemas trazidos por essa classe de alimentos.

Infelizmente, enquanto os interesses corporativos superarem a preocupação com a saúde e o meio ambiente (coisa que vem acontecendo muito, não apenas com questões de alimentação, mas na própria epidemia do COVID-19), as chances de combater a sindemia são mínimas. A redução no consumo de ultraprocessados pode preservar a saúde das pessoas e a consequente redução na produção ajuda a assegurar uma agricultura sustentável. Tornando imprescindível que fóruns de grande magnitude deem o espaço necessário para discussões sobre o assunto e atuem para mitigar a tragédia anunciada da sindemia de obesidade, desnutrição e mudanças climáticas.

 Referências

[1] What is a Syndemic? Universidade de Leiden: Population Health: Syndemics. Coursera. Disponível em: https://www.coursera.org/lecture/syndemics/what-is-a-syndemic-jydSn

[2]  A Classificação NOVA. Nupens | USP. Disponível em: https://www.fsp.usp.br/ nupens/a-classificacao-nova/

[3] Pandemia: aumento de consumo de ultraprocessados pelo Brasil. Idec. Disponível em: https://idec.org.br/noticia/pandemia-aumento-de-consumo-de-ultraprocessados-pelo-brasil

[4] US Kids Are Eating More Ultra-Processed Food Than Ever Before, Startling Data Reveals. Science Alert. Disponível: https://www.sciencealert.com/ultra-processed-foods-make-up-two-thirds-of-calories-for-young-people-in-the-us

[5] Pan American Health Organization. Ultra-processed food and drink products in Latin America: Trends, impact on obesity, policy implications. Washington, DC : PAHO, 2015. Disponível em: https://iris.paho.org/bitstream/handle/10665.2/7699/9789275118641_eng.pdf

[6] Chen, X., Zhang, Z., Yang, H. et al. Consumption of ultra-processed foods and health outcomes: a systematic review of epidemiological studies. Nutr J 19, 86, 2020. Disponível em: https://doi.org/10.1186/s12937-020-00604-1

[7] Benton, Tim G., Bieg, C. et al. Food system impacts on biodiversity loss: Three levers for food system transformation in support of nature. Chatham House. Disponível em: https://www.chathamhouse.org/sites/default/files/2021-02/2021-02-03-food-system-biodiversity-loss-benton-et-al_0.pdf

[8] e [10] Cúpula da ONU sobre alimentação fecha os olhos para os impactos dos ultraprocessados. Carta Capital. 2021. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/mundo/cupula-da-onu-sobre-alimentacao-fecha-os-olhos-para-os-impactos-dos-ultraprocessados/

[9] Monteiro CA, Lawrence M, Millett C, et al. The need to reshape global food processing: a call to the United Nations Food Systems Summit. BMJ Global Health 2021; 6:e006885. doi:10.1136/ bmjgh-2021-006885. Disponível em: https://gh.bmj.com/content/bmjgh/6/7/e006885.full.pdf

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Lúcia Puglia
18 dias atrás

Karla, muito obrigada por trazer essa temática! Especialmente no Brasil, esse debate se faz ainda mais alarmante. Pensarmos na nossa magnitude e possibilidade de plantações, mas que são minadas pela monocultura e concentração de terra em latifundiários, derivando em fome de mais de 19 milhões de brasileiros, é uma tristeza ainda maior. É urgente que apoiemos e divulguemos iniciativas que relacionem tanto a questão alimentar quanto a de saúde.
A notícia de que apenas 26% das crianças em 2021 consomem as 3 refeições principais me alarma (https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2021/11/15/fome-apenas-26-das-criancas-no-brasil-tem-cafe-almoco-e-jantar-diarios.htm) e me faz questionar o quanto das refeições brasileiras não estão repletas de ultraprocessados, por seu preço mais acessível, e o que enfrentaremos em termos de subnutrição. A situação de fome também é evidenciada também em povos originários, como os Yanomami – https://apublica.org/2021/09/sob-bolsonaro-yanomami-tem-o-maior-indice-de-mortes-por-desnutricao-infantil-do-pais/. Como se desenvolverá a saúde desta geração?
Quando nos debruçamos sobre esse tema, acabamos abrindo muito mais questões, como a soberania alimentar, a economia circular, o fortalecimento da agricultura familiar e orgânica e regulamentação pesada sob a indústria alimentícia. É preciso continuar insistindo que tais questões são responsabilidade de todos e influenciam (e muito) na sustentabilidade e bem-estar social aos brasileiros.

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