Uma Breve História do DIU, de Isabela Vicare

13/10/2021
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“A liberdade vem de dentro”, lê-se em um post patrocinado que apareceu repetidas vezes no meu feed das redes sociais nas últimas semanas. A frase é acompanhada de uma fotografia de uma mulher branca cisgênero usando um terninho millennial pink e segurando um objeto estranho. À primeira vista, o anúncio parece ser apenas mais uma empresa genérica de maquiagem ou chá para emagrecer, mas ao olhar com mais atenção o objeto nas mãos da influencer, vemos uma pequena haste de plástico branca em formato de Y – um Dispositivo Intrauterino, ou DIU.

Com seu primeiro protótipo criado em 1909, a história deste contraceptivo é repleta de dúvidas, controvérsias e efeitos colaterais. O funcionamento básico de todas as versões do dispositivo envolve estimular o sistema imunológico feminino a produzir um excesso de hormônios, o que previne a fertilização do óvulo. Por ser um método contraceptivo altamente eficaz (o DIU moderno de cobre possui 99,2% de eficácia [JOHNSON, 2015]), facilmente aplicável, reversível e de longa duração, o DIU tornou-se o 3º método mais utilizado ao redor do mundo, de acordo com um relatório das Nações Unidas.

Todavia, a popularidade do DIU, juntamente com suas peculiaridades, faz com que diversos grupos e atores, nacionais e transnacionais, estejam envolvidos economicamente e politicamente na escolha (ou imposição) de métodos contraceptivos de milhões de mulheres ao redor do mundo. Este ensaio, portanto, tem como objetivo analisar o DIU através de uma perspectiva feminista, ressaltando a importância de múltiplas perspectivas na saúde global.

Embora a imagem do dispositivo como uma opção de contraceptivo empoderada e libertadora seja bastante prevalente na mídia, ela é recente e contrasta com a retórica de grupos feministas de segunda onda, principalmente do Norte Global. Juntamente com o crescimento do movimento feminista nos anos 1960, também houve aumento do burburinho sobre o DIU no ramo médico, tanto como uma importante ferramenta de controle populacional para populações mais pobres (vale lembrar do aumento das taxas de gravidez na adolescência nos EUA na época), tanto como uma oportunidade comercial para atingir esse novo público de mulheres recém-inseridas no mercado de trabalho. Após a primeira conferência internacional sobre o DIU em 1962, novos modelos e tecnologias apareceram no mercado em um ritmo de produção acelerado e em larga escala, com 70 modelos diferentes disponíveis ao fim desta década (TAKESHITA, 2012).

Dentre os novos modelos no mercado norteamericano, estava aquele que mancharia a reputação dos dispositivos intrauterinos por décadas: o Dalkon Shield. O dispositivo em formato de escudo foi criado em 1968 pela Family Planning Clinic da Universidade Johns Hopkins, sendo colocado no mercado em 1971, apenas três anos após o primeiro protótipo. Após alguns anos à venda, a mídia reportou dezenas de pacientes que sofreram efeitos colaterais sérios, com dores intensas, sangramentos e infecções graves. Em junho de 1974, o Dalkon Shield estava associado a quatro óbitos e inúmeros abortos espontâneos de mulheres nos EUA, Canadá e Europa. Mais de 4,5 milhões de unidades já haviam sido vendidas internacionalmente (GRANT, 1992).

A irresponsabilidade médica dos envolvidos na comercialização do Dalkon Shield levou a um recall a nível global e a um dos casos mais graves de violação de responsabilidade civil da história da legislação estadunidense, com mais de 300 mil vítimas. A A.H. Robins Company, fabricante do produto, foi à falência após pagar milhões de dólares em indenizações. Até hoje, é incerto quantas mulheres foram afetadas pelos efeitos colaterais não-previstos do Dalkon Shield fora dos EUA (BAKER, 2001).

A resposta do movimento feminista de segunda onda à crise da A.H. Robins foi alta e clara: a rejeição do DIU e sua estigmatização como um contraceptivo perigoso e problemático, como ilustrado na literatura da época. A nova reputação negativa não limitou-se aos círculos feministas, pois a cobertura extensa do caso pela mídia contribuiu fortemente para levantar as suspeitas da população em geral e diminuir a procura pelo contraceptivo nos EUA e Europa nas décadas de 80 e 90 (BAKER, 2001).

Concomitantemente a esse movimento negativo no mundo ocidental, o DIU era adotado por milhões de mulheres nos países emergentes. Quer seja por meio de iniciativas diretas de controle populacional financiadas pelo governo, quer seja pelas campanhas agressivas de controle de natalidade, o contraceptivo espalhou-se ao redor do mundo em desenvolvimento. A criação do modelo de cobre, em 1988, de baixíssimo custo, impulsionou o método para o ranking dos contraceptivos mais utilizados no mundo (ONU, 2019).

Tão diversas quanto as culturas dos países emergentes com mais prevalência do DIU são as experiências das adeptas desse contraceptivo. O dispositivo foi utilizado como política de estado para o controle da natalidade em alguns países a ponto de tornar-se um passo esperado na vida reprodutiva das mulheres, mas em outros, ofereceu às adeptas maior liberdade reprodutiva, econômica e social. Dois casos que merecem destaque por suas experiências contrastantes são o da China e o do Uzbequistão.

Em um artigo da antropóloga Susan Greenhalgh, ela reúne os relatos de mulheres chinesas que foram submetidas, muitas vezes contra suas vontades, à inserção de DIUs após a adoção da política do filho único a nível nacional. Os dispositivos chineses, por décadas, tinham formato de anel e nenhuma haste protuberante – dificultando sua remoção, que era frequentemente realizada de maneira clandestina. Até hoje, há relatos do uso de DIUs como ferramenta de esterilização forçada da população uigur pelo governo chinês (GREENHALGH, 1996).

Já no Uzbequistão, Maxine Krengel discorre sobre a parceria entre parteiras locais e a população feminina. As parteiras, em teoria responsáveis por observar que as políticas reprodutivas pró-natais do Estado sejam cumpridas, acabaram por formar relações de apoio com as mulheres, pressionadas por suas famílias a terem mais filhos do que gostariam. Assim, elas realizavam o procedimento de inserção do DIU após o parto em segredo, respeitando a autonomia reprodutiva de muitas mulheres uzbeques (KRENGEL, 2000).

Juntamente com o caso Dalkon Shield, os exemplos ilustram o quanto um simples método contraceptivo pode, ao mesmo tempo, representar interesses sociais, políticos e financeiros tão diversos. Ao mesmo tempo que o DIU é visto como um instrumento de controle e subjugação na situação de parte das mulheres, para outras, ele representa um ato de autodeterminação. São múltiplos os agentes interessados na saúde reprodutiva feminina, projetando seus interesses em um objeto aparentemente neutro.

E é por isso que qualquer iniciativa de saúde global feminina deve ser, simultaneamente, feminista e decolonial. É fácil subjugar a multiplicidade infinita de experiências de mulheres com sua vida reprodutiva. Visões simplistas colocando o DIU ou qualquer outro método contraceptivo como única solução ou condenando-o completamente deixam de lado as inúmeras forças tentando controlar e influenciar nossos corpos todos os dias e as consequências desses processos, que vêm afetando e continuam a afetar milhões de mulheres ao redor do mundo.

Referências

BAKER, L. Control and the Dalkon Shield. Violence Against Women, v. 7, n. 11, p. 1303-1317, 2001.

GRANT, N.The Selling of Contraception: The Dalkon Shield Case, Sexuality, and Women’s Autonomy, 1992.

GREENHALGH, S. Controlling Births and Bodies in Village China. American Ethnologist, v. 21, n.1, 1996.

JOHNSON, C. The Johns Hopkins manual of gynecology and obstetrics. 4. ed. Philadelphia: Wolters Kluwer, 2015. p. 232

KRENGEL, M.; Greifeld, K. Uzbekistan in Transition – Changing Concepts in Family Planning and Reproductive Health, 2000. pp. 199–220. https://doi.org/10.4324/9781003103219-13

ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Contraceptive use by method: data booklet. Department of Economic and Social Affairs. Population Division, 2019. Disponível em: .

TAKESHITA, C. The Global Biopolitics of the IUD: How Science Constructs Contraceptive Users and Women’s Bodies. The MIT Press, 2012. http://www.jstor.org/stable/j.ctt5hhd4v.

THE ASSOCIATED PRESS. China cuts Uighur births with IUDs, abortion, sterilization. The Associated Press, New York, 29 jun. 2020. Disponível em: . Acesso em: 5 out. 2021.

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Beatriz Ballestero
9 dias atrás

Oi, Isa, incrível seu post! Além de expor de maneira muito simples a história do DIU, explicita como os corpos das mulheres são instrumentalizados para controle social e político, principalmente na perspectiva de países marginalizados. O pensamento sobre esse controle da saúde sexual e reprodutiva feminina não se afasta muito do que podemos observar sobre outras desigualdades na saúde pública que afetam sistematicamente diversas minorias.

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