Um novo olhar sobre a maturidade, de Victor Ferreira Caruzzo

01/11/2021
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Nós nascemos, crescemos, estudamos, alguns fazem faculdade, outros já começam a trabalhar desde cedo, nos desenvolvemos e esforçamos uma vida inteira com um, entre outros objetivos finais: poder ter uma velhice tranquila, descansar, e receber os melhores cuidados possíveis quando estivermos em situação de fragilidade. Mas e aí, o que acontece quando chegamos lá e descobrimos que os cuidados não são tão acessíveis assim? Como enfrentamos um afastamento da sociedade, como se não fossemos mais pessoas como todas as outras? Somos desumanizados e entendidos como um grupo à parte, não mais cidadãos daquele local, mas pessoas que estão provisoriamente ocupando aquele espaço, apenas em uma contagem regressiva para deixá-lo?

Bem, todos esses questionamentos são parte da realidade diária dos idosos nos dias de hoje, ter de lidar com esse isolamento que não advém da pandemia, mas se intensificou com ela, e que se torna cada vez mais, além de físico, social. E é com questões deste tipo que se preocupa a Gerontologia Social, e, mais especificamente agora, a Gerontologia Crítica. Esta, tenta entender de que forma esse campo da área da saúde pode se desenvolver e quais são suas falhas, seguindo a toada dos estudos contemporâneos, que buscam entender o coletivo a partir de indivíduos e subgrupos. Estas novas formas de entender a Saúde Pública acabam por evidenciar um contraste irônico entre a forma de atuar e a forma de pensar estas áreas: a gerontologia, por mais que sirva ao indivíduo dentro da esfera do trabalho, se desenvolveu com um olhar voltado ao “geral”, o que resulta em práticas que necessitam ser repensadas para atender às necessidades do mundo de hoje, e serão discutidas aqui.

É importante lembrar, também, que o fenômeno do envelhecimento é ainda relativamente recente: o IBGE aponta que até 1980, nossa expectativa média de vida era de 61 anos. Em 2020, já atingiu o nível de 74,8 anos, número este que até caiu em relação aos anos passados devido à pandemia. Portanto, ainda estamos aprendendo, como sociedade, a como lidar com esta questão, afinal, ao aumentar o número de pessoas que chegam a este estágio da vida, também aumentam os problemas que surgem com isso, falhas na estrutura que foi preparada para uma outra realidade ficam cada vez mais evidentes, e se torna claro o quanto não possuímos conhecimento de como lidar com uma longevidade cada vez maior, tanto como pessoas agindo de fora, como quanto pessoas a atingir este ponto da vida.

A antropóloga Annette Leibing aponta para como são encaradas as pessoas idosas socialmente: elas perdem sua individualidade, tudo aquilo que as constituía como indivíduos independentes e únicos é substituído pela etiqueta de “pessoa mais velha”, passando este ser humano, com sua história e trajetória singulares, a ser colocado em um balaio junto a diferentes pessoas com diferentes necessidades, o que, claramente, não colabora com que se possa atender a este grupo de uma forma correta, já que parte-se de um ponto inicial de divisão já errôneo.

Ela, ainda, compara a situação destes a um imigrante, e em sua colocação, cria uma analogia entre o status social de um idoso em uma casa de repouso e o de alguém que possui “cidadania provisória” – ambos estariam vivendo em condições de vida provisórias, que não se encaixam necessariamente com as suas vontades, as quais não são reconhecidas, e tudo isso é visto como uma solução para “um curto período de tempo”, vê-se apenas esporádicas intervenções que verdadeiramente humanizem estes corpos e lidem com eles individualmente.

Além disso, cuidar do envelhecimento de um ser humano não deveria se prender a cuidar do ser humano só na velhice, o processo de envelhecer é complexo e envolve a captação de experiências e recursos durante todas as fases do ciclo vital. Em outras palavras, é preciso crescer bem e se desenvolver para poder viver bem a velhice, e a gerontologia pode agir neste sentido também. Algumas correntes apontam que é comum encontrar pessoas de idade avançada com recursos escassos para o autodesenvolvimento nesse estágio da vida, fazendo com que a ação desta ciência acabe por ser uma “contenção de danos”, algo que poderia ser ampliado caso ela pudesse ter ação desde as fases preliminares da criação do ser humano, podendo, inclusive, atingir uma continuidade neste desenvolvimento pessoal.

Exemplificando, o cuidado na infância com a presença constante das pessoas ao redor da criança, a orientação correta para hábitos que dialoguem com estilos de vida positivos no longo prazo, e o pleno desenvolvimento de capacidades intelectuais, garantiriam condições favoráveis para o desenvolvimento do ser humano em sua longevidade. Em seguida, durante a adolescência, a gerontologia agiria no estímulo da reflexão e da construção de conceitos éticos, além das ferramentas necessárias para dar sentido a uma vida longeva. Por fim, durante a fase adulta, seu papel estaria em lidar com o surgimento dos primeiros sinais de envelhecimento, e o auxílio a lidar com as consequências biológicas, psíquicas e sociais disto.

Pensar no cuidado com os idosos não é, portanto, algo que se resume a refletir apenas sobre problemas essencialmente biológicos, mas significa entender as demandas de todo um sistema. Garantir a acessibilidade deste cuidado, seja ele médico ou não; o bom funcionamento de casas de repouso, para serem além de espaços para onde essas pessoas vão para aguardarem os seus últimos anos; a instrução e a manutenção dos recursos e demandas de todos que trabalham no setor, como enfermeiros e cuidadores; a ampliação do cuidado com a velhice para todas as fases da vida; e, por fim, uma reformulação na forma como nós, como sociedade, enxergamos os idosos como grupo. Afinal, pensar na velhice é pensar no futuro de cada um de nós.

Referências:

LEIBING, Annette. Recognizing Older Individuals: An Essay on Critical Gerontology, Robin Hood, and the COVID-19 Crisis. University of Montreal. Disponível em: <https://www.proquest.com/openview/8b5ef4f306aff4676f7d592a3dc174bd/1?pq-origsite=gscholar&cbl=2045005>

GONÇALVES, Lúcia. O Campo da Gerontologia e Seus Desafios. Universidade Federal de Santa Catarina. Disponível em: <https://periodicos2.uesb.br/index.php/rsc/article/download/87/62>

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Isabela Leiva Rosa
29 dias atrás

Ótimo texto, Victor! 🙂
Compartilho por aqui a ideia de espaço de convivência intergeracional para fortalecimento de vínculos entre crianças e idosos. Entre muitos projetos do tipo, destaco a experiência do programa Abuelos Cuenta Cuentos (https://www.eltiempo.com/archivo/documento/CMS-16678306), entre outras iniciativas excepcionais de orquestras e centros educacionais intergeracionais.
Aproveito também pra depositar por aqui a Declaração de Quebec sobre a Solidariedade Intergeracional, que versa um pouco sobre o valor dessas experiências intergeracionais (https://www.apdh-argentina.org.ar/areas/adultos-mayores/Declaracion-de-Quebec-sobre-la-solidaridad-intergeneracional) na construção de comunidades resilientes, reconhecendo a vulnerabilidade social dos idosos e seus desafios como desafios coletivos.

Tomás Mota
22 dias atrás

É a segunda vez que eu leio seu texto, Victor! Acho que foi o primeiro texto em um bom tempo que eu li e, além de gostar pela sua reflexão, me instigar a refletir de um jeito diferente. Nessas últimas semanas fiquei refletindo sobre o amadurecimento pelo seu post e uma coisa sempre me intrigava, a parte do que você traz o argumento que nós paramos de encarar o idoso como um indivíduo. Refletindo sobre isso eu sempre me colocava no lugar da nossa inevitável morte social antes da nossa morte biológica. Essa reflexão veio crescendo em mim pelos dias passados, sobre essas diferentes mortes nas nossas vidas. Eu tenho um interesse em filosofia e tenho estudado a escola do Estoicismo recentemente. Essa escola possui a máxima de “Memento Mori”, ou “Lembre-se da Morte”, que tem como propósito fazer o indivíduo tomar a morte como inevitável enquanto em vida para que essa segunda possa ser verdadeiramente apreciada. A questão foi, com mais de uma morte, social e biológica, essa tarefa se torna muito mais complexa. Deixei esse pensamento amadurecer em mim até o ponto que estou agora, que acredito ser a conclusão dessa reflexão. Essas mortes não são um ponto imóvel nas nossas vidas, mas sim um processo contínuo que começa junto com nossa própria vida – estamos morrendo desde que começamos a viver. A vida e a morte são processo inseparáveis, mas que também acontecem simultaneamente, a vida e a morte são no fundo quase indistinguíveis por essa lente. Talvez a problemática que você põe no texto seja que nossa sociedade tão tóxica socialmente enquanto a indivíduos mais velhos que morremos em algumas dimensões antes do que outras – justamente porque enxergamos a morte como um ponto final na nossas vidas e não como esse processo que estamos todos juntos. Afastando o “ponto final da morte” prolonga-se o tempo que passamos por aqui, mas podemos morrer muito antes que isso em outros sentidos.
Enfim, queria fazer essa adição nada científica para o seu texto, ele me proporcionou essa reflexão. Parabéns pelo texto!

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