Um Guia Alimentar bem-feito incomoda muita gente, de Saulo Ribeiro Cavalcante Liobino Silva

18/11/2021
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Parece contraditório pensar que a obesidade e o diabetes vêm aumentando em países em desenvolvimento, onde parcelas significativas da população ainda se encontram em situação de risco alimentar. Normalmente, essas são doenças de países ricos e desenvolvidos com uma oferta abundante de alimentos e calorias. No entanto, o que não é tão espantoso é que a indústria alimentícia tem conseguido alinhar baixo custo de produção, baixa qualidade nutricional a alta quantidade calórica, fornecendo produtos ultra processados e baratos para um mercado consumidor gigante e crescente. Na verdade, a maioria da população dos países em desenvolvimento nunca conseguiu fugir totalmente da desnutrição. Se no passado, o déficit nutricional era produto da baixa ingestão de nutrientes atrelada à escassez de alimentos, nas últimas décadas, ele é causado pela ingestão de grande quantidade de alimentos com baixo valor nutricional ou com composição nutricional desbalanceada. Se antes, doenças como inanição, anemia e raquitismo eram resultado da falta de alimentação, atualmente, foram substituídas pela hipertensão, obesidade e diabetes – doenças causadas pela má alimentação. Evidentemente, o que mudou não foi somente a oferta, mas a qualidade da alimentação.

Como um de seus princípios, o Guia Alimentar para a População Brasileira, publicado pelo Ministério da Saúde em 2014, a alimentação é mais que ingestão de nutrientes, pois alimentação diz respeito não só à ingestão de nutrientes, mas também aos alimentos que contêm e fornecem os nutrientes. Além disso, o guia foi elaborado com base em outros quatro princípios: Recomendações sobre alimentação devem estar em sintonia com seu tempo; Alimentação adequada e saudável deriva de sistema alimentar socialmente e ambientalmente sustentável; Diferentes saberes geram o conhecimento para a formulação de guias alimentares; Guias alimentares ampliam a autonomia nas escolhas alimentares. É justamente com base no segundo princípio que é prevista a emergência da discussão sobre a mudança da qualidade da alimentação contemporânea, pois esse princípio vai orientar para que as recomendações feitas por guias alimentares levem em conta o cenário da evolução da alimentação e das condições de saúde da população.

Essa abordagem é inovadora e após a sua publicação o Guia se mostrou como uma quebra de paradigma uma vez que as regras são simples. Normalmente, por conta das pressões econômicas, esse tipo de documento é de linguagem complicada e evasiva. O guia foi tido como o melhor do mundo por Marion Nestle, professora emérita da Universidade de Nova York e referência na área de nutrição, além de ter sido amplamente elogiado por Michael Pollan, jornalista que se notabilizou na cobertura de temas alimentares. É notável que entre as mudanças fundamentais está o fato de se dirigir à população, e não aos profissionais de saúde, como fazia a versão anterior, de 2006. A abordagem é também inédita ao não se ater a nutrientes e ao estender a discussão aos modos de produção, com uma recomendação clara de que se dê prioridade à compra de pequenos agricultores, além de abordar a maneira como se consome e as preparações culinárias.

O Capítulo 2 do Guia, vai se debruçar sobre recomendações gerais que orientam a escolha dos alimentos, categorizando os alimentos em quatro tipos. A primeira categoria reúne alimentos in natura (como folhas e frutos ou ovos e leite) ou minimamente processados e adquiridos para consumo sem que tenham sofrido qualquer alteração após deixarem a natureza. A segunda categoria corresponde a produtos extraídos de alimentos in natura ou diretamente da natureza e usados pelas pessoas para temperar e cozinhar alimentos e criar preparações culinárias (óleos, gorduras, açúcar e sal). A terceira categoria corresponde a produtos fabricados essencialmente com a adição de sal ou açúcar a um alimento in natura ou minimamente processado, como legumes em conserva, frutas em calda, queijos e pães. Já a quarta categoria, corresponde a produtos cuja fabricação envolve diversas etapas e técnicas de processamento e vários ingredientes, muitos deles de uso exclusivamente industrial. exemplos incluem refrigerantes, biscoitos recheados, “salgadinhos de pacote” e “macarrão instantâneo”.

Haja vista as proposições do Guia, em especial do segundo capítulo, o lobby da indústria alimentícia não tinha o menor interesse de que o documento fosse publicado. Em sua tese de doutorado, Camila Maranha, que participou da elaboração do Guia de 2014, vai relatar como a indústria de alimentos tentou impedir o lançamento do documento.  À época da publicação, o então presidente da Abia (Associação Brasileira da Indústria de Alimentos) Edmundo Klotz, chegou a dizer ao Ministro da Saúde da época, Arthur Chioro que “havia três pontos-chave, três questões das quais a indústria não abria mão. Uma delas era que não se publicasse em hipótese alguma o Guia Alimentar.” Em 2020, o combate ao guia ganhou proporções internacionais ao ser colocado na lista de problemas da Coca-Cola dos EUA. Segundo o Intercept, o documento de 155 páginas aponta o Brasil como um dos maiores riscos para a empresa em termos de políticas públicas. Ao todo, são apresentados seis “mapas de calor” que dividem os países entre os que não têm qualquer perspectiva de regulação do setor, os que têm “potencial” e os que têm uma chance “alta-severa”. O Brasil aparece como ameaça à Coca-Cola em cinco dos mapas – o mapa indica “diretrizes dietéticas negativas” e explica que a empresa considera o Guia Alimentar como “punitivo” a seus produtos.

Foi justamente a abordagem equilibrada e independente do Guia que o colocou em rota de colisão com os interesses das grandes corporações do agronegócio e da indústria de alimentos. No momento, esse tipo de política é ameaçador para esses setores, uma vez que além de uma classificação alimentar simples e de fácil compreensão, adiciona dimensões subjetivas que levam em consideração o ambiente e a companhia em que se come. Ultrapassando a tecnicidade, o Guia conseguiu dar sentido cultural e sentimental a alimentação ao orientar comer sempre em locais limpos, confortáveis e tranquilos e onde não haja estímulos para o consumo de quantidades ilimitadas de alimentos, além de promover a comensalidade ao aconselhar comer em companhia, com familiares, amigos ou colegas de trabalho ou escola. Ao “extrapolar” o seu papel nutricional e técnico o Guia de 2014 acabou incomodando muita gente.

Bibliografia

CARVALHO, Camila Maranha Paes de. Processo de construção do novo Guia Alimentar para a População Brasileira de 2014: consensos e conflitos.. 2017. 208 f. Tese (Doutorado em Ciências Humanas e Saúde; Epidemiologia; Política, Planejamento e Administração em Saúde; Administra) – Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2017.

PERES, J.; POMAR, M. H. Documento da coca-cola nos eua lista guia alimentar para a população brasileira como ameaça. The Intercept Brasil. 1 de set. de 2021. Disponível em: https://theintercept.com/2021/09/01/coca-cola-documento-lista-guia-alimentar-como-ameaca/

PERES, J. Associação bancada por Nestlé e Coca-Cola tentou engavetar Guia Alimentar do Ministério da Saúde. O joio e o trigo. 31 de out. de 2019. Disponível em: https://ojoioeotrigo.com.br/2019/10/associacao-bancada-por-nestle-e-coca-cola-tentou-engavetar-guia-alimentar-do-ministerio-da-saude/

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