Tecnologia + Saúde = Healthtechs: as startups que vem ganhando cada vez mais notoriedade, de Bruna Doná Mourão

22/10/2021
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Como discutido ao longo do semestre e orientado pela professora Deisy Ventura, pode-se entender o conceito de saúde a partir de uma perspectiva ampla e transversal relacionando-o com diversos outros temas e áreas do conhecimento. Diante disso, busco, nesse texto, relacionar a temática da saúde com o empreendedorismo. Viso apresentar o que são as Health Techs e explicar como essas novas startups estão contribuindo para melhorar a qualidade de vida da população ao fornecer produtos e serviços inovadores. Inicialmente introduzirei a temática, em seguida analisarei essa indústria a nível global e nacional e apresentarei dois casos de sucesso brasileiros seguido de suas críticas e limitações. Por fim, concluirei o texto retomando os seus principais pontos abordados.

A área da saúde é caracterizada por diversas dores, problemas e oportunidades de melhorias. É um setor de grande interesse da sociedade e, recentemente, ganhou mais expressividade por conta da pandemia de Covid-19 que colocou em xeque a sua importância. Diante desse cenário peculiar, o setor se tornou um campo fértil para o empreendedorismo e possibilitou que as healthtechs tivessem importante atuação no combate à pandemia ao providenciarem diversos produtos e serviços inovadores. O termo “Healthtech” é originário da junção de duas palavras de origem inglesa “health” (saúde) e “tech” (tecnologia). A palavra sumariza a principal área de atuação dessas startups, ou seja, são serviços e produtos na área da saúde com intensa base tecnológica essencial para a sua operação. Ainda que elas atuem na saúde, essas soluções variam no nicho, por exemplo, consumidor final e temática, como: gestão e PEP (prontuário eletrônico do paciente); marketplace; telemedicina; serviços médicos, inteligência artificial e Big Data.

Na esfera global, segundo a OMS, gastos no setor de saúde representam cerca de 10% do PIB mundial e segundo a CB Insights, desde de 2015, o setor já recebeu mais de 46 bilhões de dólares em investimentos. Desses investimentos, uma parte significativa foi destinada às healthtechs. Hoje, existem mais de 40 healthtechs classificadas como unicórnios1  espalhadas pelo planeta e as maiores estão sediadas nos Estados Unidos e China. Esses países se destacam porque além de sediarem as maiores healthtechs globais como Samumed, Roivant (norte americanas) e WeDoctor (chinesa), eles possuem os maiores ecossistemas de inovação em saúde. Ou seja, eles contam com toda uma infraestrutura que contribui para o crescimento e desenvolvimento dessas empresas, conforme relatório da Distrito Healthtech Report. 

No âmbito nacional, de acordo com o IBGE, em 2017 as despesas na área da saúde representaram 9,2% do PIB brasileiro, equivalente a aproximadamente R$608,3 bilhões. Segundo o Healthtech submit 2021, o volume de investimentos em startups de saúde brasileiras ao longo deste ano foi duas vezes maior quando comparado aos dados de 2020. Estima-se que mais de 900 empresas receberam cerca de 235 milhões de dólares em investimentos e cerca de 25% delas são focadas em gestão e melhoria de processos. Ainda que a América Latina não possua unicórnios, a região apresenta grande potencial de crescimento e cabe destacar alguns cases de sucesso brasileiros, são eles: Dr Consulta e Memed.

O primeiro, Dr Consulta, é uma startup da categoria de marketplace que visa conectar profissionais da saúde e pessoas que precisam de atendimento, principalmente de baixa renda, oferecendo serviços com um preço mais acessível. O público alvo da empresa são pessoas que não conseguem arcar com um seguro de saúde, mas também não querem ficar 100% dependentes dos serviços públicos. Fundada em 2011, atualmente a plataforma conta com mais 1.400 profissionais, mais de 3.500 serviços disponíveis, dentre eles, exames, consultas médicas, fisioterapia, odontologia, vacina, acupuntura e cirurgias de baixa complexidade. De acordo com o site da instituição, mais 1,8 milhões de pacientes foram atendidos ao longo dos 10 anos de operação da empresa.   

O segundo case escolhido é do da Memed. A empresa atua na área de gestão e PEP e utiliza tecnologia para fornecer receitas digitais, sem haver, portanto, a necessidade de utilização de papéis e deslocamentos para se obter o papel físico. Ao entregar valor por meio de prescrição rápida, inteligente e digital, o médico consegue prescrever remédios e solicitar exames a partir de um software que possui uma base de mais de 60.000 medicamentos (e é diariamente atualizado) e que se conecta com a farmácia. Para o paciente, a solução também é inovadora porque além de prover mais comodidade, ele recebe todas as informações no seu celular e consegue comprar medicamentos com descontos, para as empresas que possuem parcerias com a startup.  

Por outro lado, ainda que a tecnologia tenha causado diversos impactos positivos para a saúde, é importante ressaltar os seus limites. De acordo com a pesquisadora Deborah Lupton, os dados gerados e armazenados nessas tecnologias possuem grande valor econômico para empresas, agências governamentais e saúde pública, o que coloca em xeque a segurança e privacidade dessas informações. Ela ressalta também as barreiras econômicas e políticas que restringem, ou não, a utilização dessas tecnologias. Idade, grau de instrução e localização geográfica, segundo a pesquisadora, são fatores que explicam tal ocorrência. Pessoas pertencentes a grupos socialmente desfavorecidos como baixo grau de instrução, menores níveis de renda e que vivem em regiões remotas tendem a ter menos acesso,  conhecimento e habilidades técnicas para a utilização dessas tecnologias. O que nos leva, portanto, a um paradoxo. Embora existam soluções focadas nas classes C, D e E, ainda há uma significativa parcela da população que fica socialmente excluída. 

Além dos pontos abordados pela autora, especialistas apontam ainda que as clínicas populares não são tão eficazes em casos graves de doenças, como aquelas que exigem internação, quimioterapia e cirurgias complexas. A sanitarista, Lígia Bahia, que é professora da UFRJ, também salienta a precarização dessas clínicas. Segundo ela, os pacientes precisam estar atentos “à estrutura, às condições dos equipamentos para exames e a eventuais indicações de procedimentos médicos não necessários”. Isso porque, visando o lucro, além da realização de procedimentos desnecessários que para as empresas seriam benéficos financeiramente, pode-se haver uma pressão para que as consultas sejam rápidas, com a finalidade de se atender o maior número de pacientes em menos tempo, o que tenderia a levar uma diminuição da qualidade do serviço prestado.

Frente ao exposto, pode-se observar que embora as healthtechs tenham trazido diversos benefícios e comodidade para a sociedade, elas não são livres de críticas. Ainda há uma grande parcela da população que encontra-se marginalizada desses recursos e também deve-se prestar atenção na qualidade dos serviços prestados pelas clínicas populares. Logo, entendo, que esse post corrobora com a perspectiva interdisciplinar da saúde global que nos foi inicialmente apresentada. Além da perspectiva crítica, a análise de objetos de estudo a partir de diversos ângulos promove uma concepção mais rica e detalhada de forma que o pesquisador tenha uma visão mais ampla sobre o assunto. 

1  Startups de capital fechado avaliadas em um bilhão de dólares ou mais.

Referências:

A CRÍTICA. Especialistas vêem desvantagens de clínicas populares. [S. l.], 13 maio 2017. Disponível em: https://www.acritica.net/editorias/geral/especialistas-veem-desvantagens-de-clinicas-populares/208842/. Acesso em: 20 out. 2021.

ALCANTARA, Tiago. As healthtechs brasileiras para ficar de olho em 2021. [S. l.], 5 fev. 2021. Disponível em: https://acestartups.com.br/healthtechs-brasileiras-tendencia-2021/. Acesso em: 12 out. 2021.

ÁVILA, Tiago. Conheça o cenário das healthtechs no Brasil e no mundo. [S. l.], 20 out. 2020. Disponível em: https://www.pixeon.com/blog/healthtechs-no-brasil/. Acesso em: 12 out. 2021.

BARROS, Alerrandre. Despesas com saúde ficam em 9,2% do PIB e somam R$ 608,3 bilhões em 2017. [S. l.], 20 dez. 2019. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/26444-despesas-com-saude-ficam-em-9-2-do-pib-e-somam-r-608-3-bilhoes-em-2017. Acesso em: 13 out. 2021.

DEL CARMEN, Gabriela. 15 healthtechs que estão revolucionando a saúde para ficar de olho em 2021: Número de startups de saúde saltou 118% em dois anos, e deve continuar crescendo em todo o mundo.. [S. l.], 30 jul. 2021. Disponível em: https://forbes.com.br/forbes-tech/2021/07/16-healthtechs-que-estao-revolucionando-a-saude-para-ficar-de-olho-em-2021/. Acesso em: 12 out. 2021.

DISTRITO Healthtech Report Brasil 2020. [S. l.], 2020. Disponível em: distrito.docsend.com/view/edmaar3wxwshxk3f. Acesso em: 11 out. 2021.

FORATO, Fidel. De olho na saúde | Conheça os 5 maiores unicórnios entre as HealthTechs. [S. l.], 2 jan. 2020. Disponível em: https://canaltech.com.br/saude/de-olho-na-saude-conheca-os-5-maiores-unicornios-em-health-tech-158155/. Acesso em: 12 out. 2021.

GIUSTI, Leonardo. Brasil já conta com 542 startups de saúde: Atualmente, o Brasil conta com 542 healthtechs, como são chamadas as startups voltadas para a solução de problemas no setor da saúde.. [S. l.], 7 out. 2020. Disponível em: https://home.kpmg/br/pt/home/insights/2020/10/brasil-542-startups-saude.html. Acesso em: 14 out. 2021.

Lupton, D. (2014). Critical perspectives on digital health technologies. Sociology compass, 8(12), 1344-1359.

NERY, CARMEN. Boom das health techs chega à América Latina e Brasil vê duas surgirem toda semana: Segundo dados da Distrito, entre 2014 e 2019, o número de startups do segmento de saúde saltou de 160 para 389 no país, hoje o ecossistema mais maduro da região. [S. l.], 16 fev. 2021. Disponível em: labsnews.com/pt-br/artigos/tecnologia/health-techs-brasil-america-latina/. Acesso em: 14 out. 2021.

SETOR de saúde concentra 542 startups e cresce no país: Dados do relatório mais recente da consultoria Distrito mostram avanço de 118% na área de healthtechs entre 2018 e 2020. [S. l.], 17 ago. 2020. Disponível em: https://noomis.febraban.org.br/noomisblog/setor-de-saude-concentra-542-startups-e-cresce-no-pais. Acesso em: 13 out. 2021.

OLIEL, Sebastián. OMS: custos com saúde já representam 10% do PIB mundial: De acordo com a OMS, os governos suportam, em média, 51% dos gastos com saúde de um país.. [S. l.], 20 fev. 2019. Disponível em: https://news.un.org/pt/story/2019/02/1660781. Acesso em: 13 out. 2021.

Healthtech Summit 2021. Disponível em: https://materiais.distrito.me/healthtech-summit-2021

DrConsulta. Quem somos. Disponível em: https://drconsulta.com/quem-somos

Memed. Disponível em: https://memed.com.br/

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Átila Teixeira
18 dias atrás

Bem legal o tema, Bruna! Sem dúvidas as HealthTechs são tendências que foram potencializadas pelo contexto atual, mas que dão sinais que vieram para ficar. Apesar disso, acho que vale mencionar que o setor de saúde, assim como todos os outros, possui um aparato regulatório que é visto pelos empreendedores e empreendedoras como principal obstáculo para o crescimento de suas startups na América Latina e no Brasil (Pesquisa da LAVCA). Tendo em vista essa pesquisa e as críticas a respeito da acessibilidade dessas soluções, acho que vale a discussão de quais são os limites da inovação neste mercado

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