Teatro da Higiene: a outra faceta do capitalismo na pandemia da COVID-19, de Júlio Adrião D’Angelo

18/11/2021
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Chegar em casa e tirar os sapatos, colocar as roupas para lavar e entrar direto no chuveiro se tornou hábito rotineiro de muitos desde o começo da pandemia. Foi ao supermercado? É quase que certo que chegando em casa, cada uma das embalagens compradas será limpa com água e sabão ou álcool. Álcool em gel se tornou item obrigatório ao sair e entrar em casa. Rotinas incessáveis diárias de limpeza do piso, das mesas, cadeiras, do corpo, do cabelo, das roupas e das compras tornaram-se um hábito a ser seguido para a proteção contra o coronavírus. E se alguém dissesse que essa rotina de limpeza neurótica é desnecessária? Ou pior, que a indústria de higiene e limpeza teve lucros exorbitantes em cima de uma narrativa de proteção através da limpeza de toda e qualquer superfície sem que os riscos demonstrassem essa necessidade? Pois bem, esse é o que foi chamado “Teatro da Higiene”, que se estabeleceu ao longo da pandemia e ainda segue com seu “espetáculo” no atual novo normal.

Veja bem, não se trata de dizer que não se deve temer o coronavírus, muito pelo contrário: é preciso conhecê-lo muito bem para saber como lidar com essa doença. Assim, é importante um retrospecto histórico de como a comunidade científica e a OMS se posicionaram com relação às formas de transmissão desse inimigo invisível. Inicialmente, para lidar com a contenção da COVID-19, os primeiros protocolos elaborados pela OMS se basearam nos estudos que já existem sobre contaminação por outros vírus respiratórios. Um exemplo bem factível é o da gripe, que tem como uma das principais vias de contágio o contato com superfícies contaminadas. Na dúvida quanto ao padrão de contágio do coronavírus, instaurou-se imediatamente um protocolo que incluía a limpeza de toda e qualquer superfície. Estava inaugurado, então, o  “Teatro da Higiene”.

Porém, em Julho de 2020, novos testes publicados no artigo “SARS-CoV-2 is transmitted via contact and via the air between ferrets” na Nature Communications, comprovou que a contaminação por coronavírus se dava principalmente por contato e por vias aéreas, através de aerossóis. Desse modo, para combater o vírus, o uso da máscara e o distanciamento social eram as principais medidas para conter a pandemia. A OMS, todavia, foi cautelosa e demorou-se em pronunciar as novas descobertas sobre essa questão da covid-19, o que só foi ocorrer em Abril de 2021. Nesse meio tempo, todos os protocolos prévios associados a limpeza e desinfecção de superfícies se mantiveram e se multiplicaram, dado o medo generalizado provocado pela catástrofe anunciada pela pandemia do coronavírus. É nesse contexto que a indústria de Higiene e Limpeza obteve altas taxas de crescimento mesmo em meio a crise econômica instaurada pela pandemia. Para visualizar a dimensão do crescimento, no começo de 2020, a perspectiva da Associação Brasileira das Indústrias de Produtos de Higiene, Limpeza e Saneantes de Uso Doméstico e de Uso Profissional (Abipla) era de um crescimento anual de 3% a 3,5%, mas, só entre janeiro e julho, registrou-se  5,9% nas vendas de produtos desse segmento.

Atualmente, já se evidencia um novo cenário com o avanço da vacinação e redução dos casos e mortes diárias decorrentes do coronavírus, além de um conhecimento mais claro sobre os riscos de contaminação a partir de superfícies, que, segundo estudos da American Chemical Society, representam um risco muito baixo de contaminação, com uma probabilidade de 1 em 10000 de contaminação quando em contato direto e contínuo com o vírus em superfícies, colocando assim o contágio por vias aéreas como o principal disseminador da doença. Embora a comunidade científica já tenha essas concepções bem definidas, o “Teatro de Higiene” permanece existindo, sendo visto ainda nas casa e também nos ambientes que aos poucos retornam a serem usados: escolas, empresas e restaurantes.

Com efeito, as custas de uma rotina estressante de limpeza de compras, roupas, corpo e ambientes segue incrustada como hábito e movimenta milhões de reais, beneficiando grandes marcas e conglomerados de higiene e limpeza. Os protocolos de proteção seguem sendo necessários e importantes para a contenção do coronavírus: uso da máscara, evitar locais fechados e aglomerações, exercer o distanciamento social e a higiene das mãos. Porém, já é hora de barrar o “Teatro da Higiene” e entender que o medo instaurado durante a pandemia foi mobilizado, provavelmente, porque poucos ganhavam às custas de muitos. Para isso, é necessário disseminar informação e entender as nuances do combate ao coronavírus, pois, diferente de como foi no início da pandemia, agora temos tais informações cientificamente provadas.”


Referências:

https://diariodocomercio.com.br/economia/setor-de-produtos-de-limpeza-estima-um-crescimento-de-3-neste-ano/

https://gualapack.com.br/blog/2021/01/24/setor-de-limpeza-cresce-na-pandemia/

https://www.cdc.gov/flu/about/disease/spread.htm

https://www.cdc.gov/coronavirus/2019-ncov/prevent-getting-sick/how-covid-spreads.html

https://www.cdc.gov/coronavirus/2019-ncov/more/science-and-research/surface-transmission.html

https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33007224/

https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34136133/

https://www.nature.com/articles/s41467-020-17367-2.pdf

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7666808/

https://pubs.acs.org/doi/10.1021/acs.estlett.0c00875

https://pubs.acs.org/doi/10.1021/acs.estlett.0c00966

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