Saúde mental e produtividade, de Maria Antonia Nina Iki Moraes

12/10/2021
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O dia a dia corrido, preenchido pelo trabalho e sem muito tempo de descanso é uma realidade enfrentada por muitos lares brasileiros. Diferentes realidades socioeconômicas enfrentam um problema comum: a dificuldade de gerenciar o tempo durante o dia. É claro que não é possível comparar a situação de um indivíduo que trabalha o dia inteiro para trazer alimento para sua família com a de um trabalhador de ambiente corporativo, mas esse comentário pretende levantar uma questão específica em relação ao manejo do tempo, relacionada à produtividade. 

A cultura, inserida no meio capitalista de produção, foi moldada de acordo com essa ideologia e, principalmente, sofreu forte influência da nova era tecnológica no campo do lazer. Um tempo que antes servia para descanso, para “não fazer nada”, hoje é visto como tempo gasto. Nos poucos momentos em que é possível fazer uma pausa na rotina, tendemos a encaixar outras atividades que julgamos necessárias ao invés de, de fato, descansar. 

Em um artigo publicado no jornal El País, Sergio Fanjul analisa o culto à produtividade dos dias atuais. De acordo com o autor, esse comportamento ultrapassou o ambiente de trabalho e se instalou também nos lares, no que chama de tempo livre. Vale destacar como a pandemia parece ter intensificado ainda mais esse fenômeno, dado que muitos indivíduos trabalham agora em home office – é ainda mais difícil distinguir o que é ambiente de trabalho e o que é o ambiente caseiro, além do tempo que deve ser dedicado ao trabalho e o que deveria sobrar para lazer. Mesmo os hobbies, que antes eram vistos como uma maneira proveitosa de passar o tempo, tornaram-se obrigação; não faz mais sentido fazer algo que não tenha um objetivo concreto em vista. Em uma nova corrente criada no tiktok, os usuários da rede mostram tudo que conseguiram conquistar durante a pandemia, que não deveria ser um período de intensa produtividade, dadas as mudanças fundamentais que ocorreram em todos os campos da vida e que deveriam tomar um tempo de adaptação. A produtividade tornou-se uma competição de quem faz mais e melhor em menos tempo. Como posto por Fanjul, o “objetivo geral é trabalhar mais, consumir mais, nos formar mais e vivenciar mais experiências das que é possível colocar nas redes sociais”.

Essa exploração do trabalhador, que permeia praticamente todos os âmbitos da vida em sociedade, torna-se ainda mais preocupante quando se observa a tendência de eliminação do Estado de bem-estar social, como aponta Burkeman em seu livro Four Thousand Weeks: Time Management for Mortals. Em países com infraestrutura mais precária esse problema é ainda mais grave, dado que serviços essenciais de saúde e educação não são uma garantia para a população. Do ponto de vista de saúde pública, deveria haver uma rede de amparo aos trabalhadores que se esforçam até atingir esse ponto máximo de produtividade, além de um acompanhamento voltado a desconstruir a ideia de que quanto mais se trabalha, melhor se produz e melhores serão os resultados de forma geral.

É claro que o esgotamento em termos de cansaço não se concretiza sem consequências para a saúde física e mental da população. Estresse, sono e baixa capacidade de concentração são apenas alguns dos sintomas decorrentes da produtividade exagerada, carregada por um esforço não saudável. A síndrome de burnout é um dos exemplos mais críticos do que esse culto à produtividade pode gerar para um indivíduo: caracterizada como esgotamento profissional, a síndrome é “um distúrbio psíquico caracterizado pelo estado de tensão emocional e estresse provocados por condições de trabalho desgastantes”, segundo o Dr. Drauzio Varella

Essa síndrome é comum tanto entre profissões mal remuneradas que demandam muito trabalho, como os professores, quanto para pessoas que trabalham em grandes escritórios, consultorias e bancos. A cultura desses últimos ambientes profissionais é a de viver para trabalhar, com intensa carga de trabalho e pouco respeito aos momentos de descanso. Outro problema de saúde comum entre pessoas que trabalham em uma carga horária excessiva é a ansiedade, impulsionada por essa cultura da velocidade, onde tudo deve ser feito de forma rápida e eficiente. A ansiedade e a depressão são inclusive sintomas da síndrome de burnout, juntamente com ausência no trabalho e lapsos de memória.

Essa “economia de atenção”, como caracterizada por Jenny Odell, de aproveitamento máximo do tempo, também não demonstra trazer resultados positivos de produtividade, dado que o corpo humano precisa de descanso, tanto em termos físicos quanto mentais. Dessa forma, além de gerar desgastes para a saúde da população, a cultura de trabalho excessivo não é eficiente do ponto de vista da própria produtividade – faz pouco sentido que as empresas, que deveriam querer receber os melhores resultados possíveis dos seus funcionários, forcem-os a trabalhar sob uma pressão que não os torna mais produtivos e que pode, inclusive, afugentá-los dessas organizações. Mesmo assim, parece ainda distante uma realidade em que os direitos trabalhistas serão respeitados na prática, com ênfase para a possibilidade de aproveitar o tempo de lazer de cada um.

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