Saúde mental e o consumo de álcool durante a pandemia, de Gabriella de Oliveira Grolla

15/11/2021
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Durante uma live no Instagram, a atriz Jennifer Garner, lendária pelo seu papel no filme “De repente 30”, revelou em uma conversa com a Judy Greer, companheira de mesma profissão, sua preocupação com a quantidade de álcool consumida ao longo da pandemia. Garner disse que sua relação com o álcool mudou depois de se tornar mãe – uma taça de vinho passou a ser uma espécie de “recompensa” pela dura carga da maternidade. Na pandemia, entretanto, viu a quantidade habitual da taça de vinho aumentar e, então, seuradar apitou. A situação vivida pela atriz, entretanto, não é exceção. Durante os períodos mais severos do isolamento social, era comum encontrar no infinito universo das redes sociais fotos de pessoas tomando um drink, uma taça de vinho ou um copo de cerveja, com legendas divertidas as acompanhando geralmente. Quandobares, restaurantes e baladas se encontravam fechados, beber em casa era uma alternativa para aqueles que buscavam “relaxar”. Também se atrelava um ótimo custo- benefício, já que o gasto comum de lazer fora de casa (para uma parcela da população) estava comprometido por termo indeterminado. Diversas notícias e pesquisas científicas sobre o aumento do consumo de álcool circularam na mídia, mas será que realmente estávamos percebendo o efeito da bebida em nossas vidas durante a pandemia? Esse ensaionão visa, em nenhum momento, atribuir um julgamento moral às escolhas individuais em um dos períodos mais difíceis já enfrentados coletivamente neste último século. O intuito é refletir sobre saúde mental e o consumo de álcool ao longo da pandemia de Covid-19.

Em grandes tragédias coletivas, o álcool acaba sendo um escape para lidar com os sentimentos advindos desses eventos. Após a queda das Torres Gêmeas em Nova York, constatou-se um aumento significativo do consumo de bebidas alcóolicas pelos cidadãos novaiorquinos. Com a pandemia de Covid-19 e a gravidade dos eventos enfrentados, a situação não seria diferente. Apesar de mais controlada nesse momento, vivemos nos últimos dois anos longos períodos de extrema insegurança por não saber o que o amanhã nos reservaria. Vivemos com medo de nos infectarmos e não resistirmos. Ou adoecermos e não haver leitos em hospitais disponíveis durante alguns momentos de pico. Ou, para muitos, o pior: alguém amado se infectar e não resistir (infelizmente, esse foi o cenário para mais de 600 mil famílias no país). Além desse medo do vírus em si, o Brasil ainda enfrentava um cenário de extremo descasono âmbito político: estávamos (e ainda estamos) sob um governo federal que agia em função da difusão do vírus1. E, isso, consequentemente, contribua para mais angústia. Um estudo conduzido pela Universidade de Tromsø, na Noruega, constatou que quando a população confia no que seu governo em relação ao controle da pandemia, seu nível de bem-estar e saúde mental melhora. No Brasil, entretanto, mais da metade da população reprovava completamente o modo no qual o presidente Jair Bolsonaro agia em relação à pandemia.2 Logo, a aflição era generalizada.

É constatado como a saúde mental dos brasileiros se deteriorou ao longo da pandemia. De acordo com uma pesquisa do Instituto Ipsos, encomendada pelo Fórum Econômico Mundial e divulgada em abril deste ano, 53% dos entrevistados declararam que sua saúde mental se deteriorou desde o início da pandemia. Em uma outra pesquisa conduzida pelo mesmo Instituto em março de 2020, 41% dos respondentes relataram ter sintomas como insônia, depressão ou ansiedade em decorrência dos eventos causados pela pandemia de Covid-19. E, para algumas pessoas, o escape dessessentimentos e angústias era o consumo de álcool e outras substâncias. É o que revela algumas pesquisas, como a da Faculdade de Saúde Pública Global da Universidade de Nova York, na qual 29% dos entrevistados relataram ter aumentado a quantidade de bebidas alcoólicas na pandemia. Essa mesma pesquisa ainda revelou que pessoas com ansiedade e depressão têm uma propensão muito maior a beber quando comparado ao restante dos entrevistados. Ariadna Capasso, doutoranda na NYU e uma das autoras do estudo, diz que “esse aumento do consumo de álcool, particularmente entre pessoas com ansiedade e depressão, está de acordo com as preocupações com a possibilidade de a pandemia estar desencadeando uma epidemia de uso nocivo de álcool”.3 Em um estudo recente divulgado pela Universidade de Michigan, os registros de pacientes na fila de espera por transplantes de órgãos relacionados com a hepatite alcoólica e transplantes de fígado aumentaram. Os pesquisadores apontam evidências de causalidade entre o aumento de casos de hepatite alcóolica e o uso excessivo de álcool durante a pandemia.

André Malbergier, professor do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP, afirma em uma entrevista para a Folha de São Paulo: “Elas [as pessoas] acham que estão vivendo uma coisa anômala e que podem compensar o mal-estar com coisas que dão prazer, principalmente comida, bebidas e drogas (…) Numa tragédia enorme, é como se fosse justificável lidar com as emoções através de álcool e drogas.” Helena Moura, psiquiatra e professora da Universidade de Brasília, ressalta em uma entrevista para Agência Brasília que muitas pessoas utilizaram o álcool como uma espécie de “lazer” e que é necessário sempre estar vigilante sobre como está funcionando a relação do indivíduo com o álcool. A psiquiatra também aborda que algumas pessoas com dependência de álcool e drogas acabaram tendo recaídas ao longo da pandemia. Helena, que trabalha em uma unidade Caps (Centros de Atenção Psicossocial), publicou recentemente na revista The Lancet um estudo em parceria com pesquisadores da UFRGS, do Hospital de Clínicas de Porto Alegre e da UNB, apontando a queda do número de atendimentos nos Caps nos primeiros meses da pandemia (justificadopor alguns motivos como: medo das pessoas saírem de casa, receio de o atendimento não estar funcionando, entre outros). Nos atendimentos em grupo, especialmente importantes para pessoas com dependência de substâncias como álcool e drogas, a redução foi de quase 70%. Outro ponto importante levantado por Moura é um possível acúmulo de atendimentos – tanto por condições agravadas ao longo da pandemia quanto por quadros novos. Ela explica: “É possível que tenha sido criada uma demanda reprimida. Pessoas que já estavam em tratamento podem ter piorado, porque não puderam ter a continuidade e a manutenção. E pessoas que não tinham problema, passaram a ter razão em toda essa circunstância.”.

Vivemos agora um momento de estabilidade e melhora no cenário da pandemia, mas, como diz Caetano Veloso, “é preciso estar atento e forte”. A “pandemia paralela”, de questões de saúde mental, aparenta estar uma onda que não passará tão cedo. Vivemos em  uma sociedade onde o álcool é extremamente banalizado, e, em algumas situações, romantizado. Que estejamos sempre atentos à nossa relação com a bebida. E, por fim, para quem estiver lendo esse artigo: saúde mental importa! Busque ajuda sempre que necessário.

Notas:

1 https://brasil.elpais.com/brasil/2021-01-21/pesquisa-revela-que-bolsonaro-executou-uma-estrategia- institucional-de-propagacao-do-virus.html
2 https://www1.folha.uol.com.br/poder/2021/09/datafolha-54-reprovam-gestao-de-bolsonaro-contra-a-pandemia-da-covid.shtml
3 Tradução livre. Trecho original: “This increase in drinking, particularly among people with anxiety and depression, is consistent with concerns that the pandemic may be triggering an epidemic of problematic alcohol use”.

Referências

FOLHA DE SÃO PAULO. Abuso de álcool e drogas tem alta na pandemia. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2020/05/abuso-de-alcool-e-drogas-tem-alta-na- pandemia.shtml

REVISTA MONET. Jennifer Garner revela preocupação sobre quantidade de álcool que passou a consumir na pandemia. Disponível em: https://revistamonet.globo.com/Celebridades/noticia/2021/11/jennifer-garner-revela- preocupacao-sobre-quantidade-de-alcool-que-passou-consumir-na-pandemia.html

REVISTA GALILEU. Governos que sabem lidar com a pandemia fazem bem para a saúde mental. Disponível em: https://revistagalileu.globo.com/Sociedade/noticia/2020/09/governos-que- sabem-lidar-com-pandemia-fazem-bem-para-saude-mental.html

BBC BRASIL. Covid: saúde mental piorou para 53% dos brasileiros sob pandemia, aponta pesquisa. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/geral-56726583

EUREKALERT! Drinking during COVID-19 up among people with anxiety and depression. Disponível em: https://www.eurekalert.org/news-releases/901744

UOL. 40% dos brasileiros sentiram tristeza ou depressão na pandemia, diz estudo. Disponível em: https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2020/11/01/40-dos-brasileiros- sentiram-tristeza-ou-depressao-na-pandemia-diz-estudo.htm

UNB NOTÍCIAS. Estudo prevê sobrecarga de atendimentos de saúde mental acumulados pela covid-19 no Brasil. Disponível em: https://noticias.unb.br/117-pesquisa/5294-estudo-preve- sobrecarga-de-atendimentos-de-saude-mental-acumulados-pela-covid-19-no-brasil

G1. Estudo aponta aumento de pacientes na fila e dos transplantes de fígado durante a pandemia nos EUA. Disponível em: https://g1.globo.com/saude/noticia/2021/10/26/estudo- aponta-aumento-de-pacientes-na-fila-e-dos-transplantes-de-figado-durante-a-pandemia-nos- eua.ghtml

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