Rojava – um laboratório de outras formas de existência em saúde, de Larissa Capovilla

18/11/2021
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A concepção deste texto começou com uma indagação simples: como nós, enquanto sociedade, definimos o que é ou não saúde. Mais especificamente, quais as implicações da nossa cosmovisão para a forma como elegemos critérios para o que é ser – ou estar- saudável, os hierarquizamos e descartamos outros? 

Não se trata, é verdade, de um questionamento muito diferente daqueles expostos em outras contribuições muito pertinentes feitas a este blog. É uma pergunta pertencente ao mesmo léxico das críticas que colocam contra a parede a concepção de saúde feminina restrita a seu papel reprodutivo, a relação entre a medicamentalização da vida, o boom das doenças sócio-psiquiátricas e os interesses da big farma ou os critérios segundo os quais julgamos substâncias psicoativas lícitas ou ilícitas. 

Em comum, o critério eleito para encapsular saúde, em todos esses casos, é: estar apto a funcionar. E funcionar, em um mundo enformado pelo capitalismo e pelo neoliberalismo, significa (re)produzir. A saúde, então, é medida pela capacidade de produzir, produzir tanto quanto possível e pelo maior tempo possível. Por isso, está normalmente associada à ausência de doença. Não à toa, as manchetes que acompanham a evolução da pandemia de COVID-19 no mundo exibem lado a lado os números de mortos e contaminados, as perdas financeiras e econômicas e os gastos realizados em saúde, como engrenagens de uma mesma peça – e de igual valor. 

A pandemia consistiu em um ambiente de introspecção em que a sociedade ocidental precisou confrontar sua própria relação com a saúde, e pode ver nela rachaduras – do abalo na saúde mental provocada pelo isolamento, a interação excessiva com as redes e a obrigação de continuar funcionando apesar de todo o contexto, à dificuldade de acesso a tratamento adequado e aos meios para adotar as recomendações de prevenção – que demandam maior reflexão. Na academia, não são poucos os estudiosos que se debruçam sobre as limitações que o neoliberalismo impõe sobre o campo da saúde, tais como Mbembe, Birn, Biehl e Nunes. Com isso em mente, identificar outras possibilidades de concepção de saúde, desenvolvidas no bojo de outras formas de organização de existência e vida humanas, torna-se um exercício fundamental para compreender quais alicerces da sociedade ocidental sustentam tais limitações. Para isso, Rojava talvez possa constituir um estudo de caso no mínimo intrigante. 

Rojava, ou o Curdistão Sírio, é a região que corresponde ao norte-nordeste da Síria que foi capaz de proclamar autonomia em 2012 frente a Damasco no contexto da Guerra da Síria. A correlação de forças e a história de Rojava – que trava, simultaneamente, uma guerra contra o governo Sírio, a Turquia e o Estado Islâmico – e do movimento curdo são recheadas de complexidades, ambiguidades e nuances que este artiga não possui pretensão de abarcar. Tampouco objetiva especular sobre a longevidade e sustentabilidade a longo prazo desse verdadeiro experimento social. O que é imperativo abordar sobre Rojava, nesse momento, é o projeto de sociedade que tem se pretendido implementar na região, e quais têm sido as implicações para a acepção de saúde na região, como isso impactou a estratégia de combate ao coronavírus e como podemos abstrair importantes lições desse “laboratório” de um novo projeto de sociedade. 

O modo de organização adotado pela sociedade em Rojava baseou-se na leitura realizada por Abdullah Öcalan – líder do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), na Turquia – das ideias de Murray Bookchin, pensador anarquista estadunidense relativamente pouco conhecido. Trata-se de um modelo de produção essencialmente democrático e comunal que visa abolir hierarquias – entre etnias, gênero, funções políticas e, talvez principalmente, entre o ser humano e o meio ambiente.  Essa cosmovisão, entitulada ecologia social, compreende o ser humano como parte da natureza e defende que aquele se relacione com esta de  forma horizontal, vivendo uma relação de simbiose para que haja, de fato, possibilidade para produção e desenvolvimento sustentáveis. 

Assim, a noção de saúde, em Rojava, inicia-se antes da correção de um estado de doença. Saúde começa pela relação do ser humano para consigo mesmo (em que a saúde mental interpreta um papel fundamental), para com seu meio e para com a comunidade.  “Quando falamos sobre medicina partimos do princípio de que a medicina farmacêutica não é a solução.É sobre tudo que vem antes da medicina farmacêutica, nossa forma de viver, mas também utilizando pesquisa para encontrar soluções para doenças sérias ou a necessidade de cirurgias sérias”, diz Jiyan, internacionalista alemã que atua na linha de frente da saúde em Rojava desde 2015. 

A percepção da necessidade de se endereçar o meio ambiente em sua relação com a saúde não está distante da realidade do resto do mundo. Mesmo quando falamos de pandemias e outras emergências de saúde pública de importância internacional, tais como o próprio coronavírus ou mesmo o Ebola, a interação inadequada com o meio ambiente esteve no cerne da questão. 

Outro aspecto fundamental da acepção de saúde em Rojava está em sua própria estrutura comunitária. Novamente sob a ègide do exemplo da pandemia de COVID-19, por exemplo, ainda que as medidas de prevenção tenham tomado a mesma forma que no restante do mundo, um aspecto fundamental difere Rojava: o acesso gratuíto à água, eletricidade, comida, produtos de subsistência básica e serviços médicos. Não se tratam de medidas exclusivas à organização de Rojava; o que o diferencia é que o acesso a esses elementos está integralmente incluso na concepção de saúde e do que é ser saudável. Saúde, portanto, é fornecer as condições para que as pessoas mantenham-se saudáveis, para além de uma resposta imediata a uma ameaça. 

Não se trata de idealizar o sistema de organização social proposto e colocado à prova por Rojava. Trata-se de refletir sobre como o projeto civilizatório em que vivemos é capaz de conformar ontologicamente nossa concepção de saúde, a que nos acostumamos a apreender em termos exclusivamente técnicos, sem nos darmos conta de que tais termos são escolhidos a priori dentre vários outros possíveis. É nesse sentido que Rojava, um verdadeiro laboratório para outros modelos de sociedade, pode nos ajudar a compreender onde estamos falhando e a entrever outras possibilidades de existência e experiência em saúde. 

Referências: 

COURT, M.; HOND, C D. O futuro suspenso de Rojava. Le Monde Diplomatique Brasil, edição 151. 31 de janeiro de 2020. Disponível em: https://diplomatique.org.br/o-futuro-suspenso-de-rojava/

FRANK, Mei. Ecologia de Guerra. Revista Periferias, edição 5. Saúde pública, ambiental e democrática. Disponível em: https://revistaperiferias.org/materia/ecologia-de-gerra/

JIYAN. Entrevista com uma profissional da saúde internacionalista em Rojava. Buen Camino, compartilhada por Kurdistan América Latina, 09 de julho de 2020. Disponível em: https://www.kurdistanamericalatina.org/entrevista-com-uma-profissional-da-saude-internacionalista-em-rojava/

LEEZENBERG, M. The ambiguities of democratic autonomy: the Kurdish movement in Turkey and Rojava. Southeast European and Black Sea Studies, n. 16, v. 4, 2016. 

MBEMBE, A. The Universal Right to Breathe. Critical Inquiry, n. 47, 2021. 

Birn; Richter. Filantropo-capitalismo estadunidense e a agenda da saúde global: as fundações Rockefeller e Gates, passado e presente. Agora, [S.l.], v. 20, n. 2, p. 27-39, 2018. 
Nunes, J. A pandemia de COVID-19: securitização, crise neoliberal e a vulnerabilização global. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 36, n. 5, 2020.

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