Presente e futuro da Tuberculose, de Mariana Leão Soares Gomes

13/11/2021
Share on twitter
Share on linkedin
Share on facebook
Share on whatsapp

Considerada como uma das doenças infecciosas mais antigas que se tem conhecimento com registros que indicam sua presença no início da humanidade (BERTOLLI FILHO, 2001), a tísica pulmonar, doença do peito, peste branca ou tuberculose (TB), perpassa séculos de acometimentos e permanece hoje sendo uma das principais preocupações da saúde pública. 

Embora o professor universitário camaronês, Achille Mbembe, em seu ensaio “The Universal Right to Breathe”² reflita sobre os atuais tempos de brutalismo evidenciado pela ocorrência da emergência global da Covid-19, o impasse que o autor discute ao vislumbrar o futuro da humanidade condiz com as expectativas e os desafios para mitigar qualquer agravo tendo como vertente a determinação social da saúde em um mundo guiado pelo neoliberalismo. Nesse sentido a tuberculose não é diferente tendo forte correlação com as disparidades sociais.

Antes da emergência do vírus Sars-Cov-2, a bactéria Mycobacterium tuberculosis, agente etiológico da tuberculose, era a primeira causa de morte causada por um único agente infeccioso no mundo à frente do  HIV/Aids. Dados anteriores indicam sua magnitude: em 2018 a OMS anunciou que a TB afeta ⅓ da população mundial e que aproximadamente 10 milhões de pessoas desenvolvem a doença a cada ano (WHO, 2018).

No contexto de pandemia, o cenário piorou: menor número de pessoas diagnosticadas e notificadas, redução na oferta de tratamento preventivo e maior mortalidade⁴. Segundo o relatório de 2020 sobre a tuberculose, lançado em outubro deste ano, é a primeira vez desde 2005 que se aumentaram os casos de óbitos: a doença provocou a morte de cerca de 1,3 milhão de pessoas soronegativas e dentre as pessoas que vivem com HIV, 214 mil (WHO, 2021).

Em vista disso, o declínio do número de pessoas notificadas com TB, resultado da subnotificação dos casos dado o foco dos serviços em saúde à Covid-19, o maior repercussão se deu na redução em 18% de pessoas diagnosticadas e tratadas, de 7,1 milhões em 2019 para 5,8 milhões em 2020. Em resumo, especialistas apontam, que a pandemia eliminou 12 anos de progresso na luta global contra a tuberculose tornando mais distante as metas estabelecidas na agenda dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.⁶

No Brasil, o país continua entre os 30 países classificados pela OMS de alta carga para a TB e para a coinfecção TB-HIV. Sendo a primeira causa de morte das doenças infecciosas em pacientes imunodeprimidos e a 4ª causa de morte por doenças infecciosas, em 2019 registrou-se 77 mil casos nacionais e 4,5 mil mortes (BRASIL, 2019). Não obstante, o descaso e enfraquecimento de políticas de proteção social no governo Bolsonaro podem comprometer ainda mais as agendas e acordos assinados mundialmente para acabar com a epidemia de tuberculose. 

Favorece para a análise, além da atual política de austeridade e o teto de gastos (EC 95/2016) em que se promove o desfinanciamento do SUS, a insegurança social que poderá causar a incerteza do “Auxílio Brasil”, substituto do programa Bolsa Família extinto com a Medida Provisória 1.061 podem assim comprometer o bem estar de milhões de famílias.⁸

O programa que tinha completado 18 anos nos quais reduziu a pobreza, diminuiu a mortalidade infantil, e melhorou indicadores de insegurança alimentar entre os mais vulneráveis. Repercutindo também nos índices da tuberculose como demonstram diversos estudos epidemiológicos nos quais evidenciam a associação entre o programa de 2004 e a redução da incidência e mortalidade no país e a influencia positivamente no desfecho do tratamento ao agravo. ⁹ ¹º ¹¹

O programa Bolsa Família através da transferência de renda para pessoas em situação de pobreza e extrema pobreza com o intuito de melhorar condições socioeconômicas e reduzir a vulnerabilidade promove implicitamente a diminuição do risco de infecção à TB e a outros fatores de risco para seu adoecimento como: má nutrição, desemprego, condições de moradia precárias, etc. Juntamente com a Estratégia Saúde da Família baseada nas diretrizes da Atenção Primária à Saúde, que busca promover cuidado e acesso ao serviço de saúde com melhores intervenções para melhorar a qualidade de vida integrada com a realidade do território e da população durante os 6 meses de tratamento, se traduz em indicadores com maiores taxas de adesão e cura ao itinerário terapêutico daqueles que sofrem com a tuberculose.¹²

Como consequência, não somente os acordos e objetivos estão em ameaça mas milhões de vida ao redor do mundo. Ao passo que os último relatórios da OMS e do Boletim Epidemiológico ressaltam maior foco dos serviços para a questão deve-se também que no mundo pós-Covid se tome caminhos inversos dos que foram até então, contrários por exemplo aos interesses daqueles agentes globais que se aproveitam de negligenciar as obrigações concernentes  à adoção de um enfoque em direitos humanos (VIEGAS, VENTURA e SILVA, 2021).

Assim sendo, abordagens baseadas nos estudos críticos da saúde global se traduzem como novas oportunidades para garantir um futuro inspirável pois além de reconhecer as falhas e limitações dos modelos atuais também se propõe novas e diferentes interações como João Biehl indica o fortalecimento da antropologia da saúde e etnografias na reinvenção de agendas e estratégias no campo da saúde global (BIEHL, 2016).

Portanto, entre a redistribuição desigual da vulnerabilidade e a possibilidade de se ter o direito universal à respiração, a tuberculose, embora sendo um adoecimento evitável e tratável, impera-se nos dias de hoje. Afinal não se tem uma vacina para as desigualdades sociais e violências experienciadas por aqueles que não têm o privilégio de poder respirar e viver dignamente.

REFERÊNCIAS:

¹ Bertolli Filho, C. História social da tuberculose e do tuberculoso: 1900-1950 [online]. Rio de

Janeiro. Fiocruz, 2001. 13 – 42 pág. Antropologia & Saúde collection. ISBN 85-7541-006-7. Disponível em https://static.scielo.org/scielobooks/4/pdf/bertolli-8575410067.pdf. Acesso em: 5 de novembro de 2021.

² Mbembe (2021). The Universal Right to Breath. Critical Inquiry 47 . Disponível em: https://www.journals.uchicago.edu/doi/pdf/10.1086/711437. Acesso em: 5 de novembro de 2021.

³ World Health Organization. Global Tuberculosis Report 2018, França: WHO; 2018 disponível em: https://www.who.int/tb/publications/global_report/en/. Acesso em: 5 de novembro de 2021.

⁴ Pai, Madhukar. Covid-19 Wreaks Havoc With The Best Laid Plans To End Tuberculosis. Forbes, 2021. Disponível em: <https://www.forbes.com/sites/madhukarpai/2021/10/14/covid-19-wreaks-havoc-with-the-best-laid-plans-to-end-tuberculosis/>. Acesso em: 5 de outubro de 2021.

⁵ World Health Organization. Global Tuberculosis Report 2021. Geneva: WHO; 2021. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240037021. Acesso em: 5 de novembro de 2021.

⁶ Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca. Pandemia limita ações para a erradicação da tuberculose. Notícias Fiocruz, 2021. Disponível em: <https://portal.fiocruz.br/noticia/pandemia-limita-acoes-para-erradicacao-da-tuberculose>. Acesso em: 5 de outubro de 2021.

⁷ Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância das Doenças Transmissíveis. Manual de Recomendações para o Controle da Tuberculose no Brasil. Brasília: Ministério da Saúde; 2019. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_recomendacoes_controle_tuberculosebrasil_2_ed.pdf. Acesso em: 5 de novembro de 2021.

⁸ BRASIL. Medida provisória nº 1.061, de 9 de agosto de 2021. Diário Oficial da República Federativa do Brasil, Poder Executivo, Brasília, DF. 

⁹ Nery, J. S., Rodrigues, L. C., Rasella, D., Aquino, R., Barreira, D., Torrens, A. W., Boccia, D., Penna, G. O., Penna, M., Barreto, M. L., & Pereira, S. M. (2017). Effect of Brazil’s conditional cash transfer programme on tuberculosis incidence. The international journal of tuberculosis and lung disease : the official journal of the International Union against Tuberculosis and Lung Disease, 21(7), 790–796. https://doi.org/10.5588/ijtld.16.0599

¹º de Souza, R. A., Nery, J. S., Rasella, D., Guimarães Pereira, R. A., Barreto, M. L., Rodrigues, L., & Pereira, S. M. (2018). Family health and conditional cash transfer in Brazil and its effect on tuberculosis mortality. The international journal of tuberculosis and lung disease : the official journal of the International Union against Tuberculosis and Lung Disease, 22(11), 1300–1306. https://doi.org/10.5588/ijtld.17.0907

¹¹ Oliosi, J., Reis-Santos, B., Locatelli, R. L., Sales, C., da Silva Filho, W. G., da Silva, K. C., Sanchez, M. N., de Andrade, K., de Araújo, G. S., Shete, P. B., Pereira, S. M., Riley, L. W., Lienhardt, C., & Maciel, E. (2019). Effect of the Bolsa Familia Programme on the outcome of tuberculosis treatment: a prospective cohort study. The Lancet. Global health, 7(2), e219–e226. https://doi.org/10.1016/S2214-109X(18)30478-9

¹² Moreira, Adriana da Silva Rezende; KRITSKI, Afrânio Lineu; CARVALHO. Ana Cristina Calçado. Determinantes sociais da saúde e custos catastróficos associados ao diagnóstico e tratamento da tuberculose. Jornal Brasileiro de Pneumologia, v,46, n. 5, p. 1-5, 2020.

¹³ Viegas, Ventura e Silva (2021). The proposal of an international convention on response to pandemics: in defense of a human rights treaty for the field of global health. 

¹⁴ Biehl (2016) Theorizing global health. Medicine Anthropology Theory, v. 3, n. 2: 127–142. 

0 0 votes
Article Rating
0 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments
Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin