Pandemia na Era da Desinformação: Como o papel e a reputação da mídia foram diretamente afetados durante a pandemia no Brasil, de Camila Smaniotto Biazioli

26/10/2021
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Dentre os países mais afetados pela pandemia do Coronavírus, o Brasil tem enfrentado a maior crise do século ao mesmo tempo em que padece sob uma administração de extrema-direita que, desde muito antes, se mostrou ser mais uma inimiga da saúde pública. Desde março de 2020, a mobilização midiática a favor ou contrária ao posicionamento adotado pelo governo federal tem causado uma enorme polarização no país. Em um momento em que o acesso à informação científica de qualidade é essencial para evitar a escalada dessa que se mostrou uma enorme tragédia, a manipulação de dados e a proclamação de opiniões infundadas e criminosas pela maior autoridade do poder executivo do país colocam em risco a vida de milhões de brasileiros. 


Nesse contexto, os veículos de mídia mais influentes do país, que se propuseram – não sempre, mas em grande parte das vezes – a veicular fatos e criticar as falácias proferidas pela administração, foram carregados pela onda de polarização política que assola o país. Um levantamento do Reuters Institute¹ apontou que, apesar da tendência da mídia tradicional em adotar uma postura mais científica e próxima das recomendações e dados oferecidos pela Organização Mundial de Saúde, canais de televisão aberta, geralmente mais propensos a adotar uma perspectiva positiva em relação às proclamações do presidente, vêm sendo considerados os “mais confiáveis” pelos brasileiros de forma geral. Conforme o gráfico abaixo, os veículos votados como de maior confiança na veiculação de informações durante a pandemia foram: Jornal do SBT, Record News e Band News; dentre os com menor nível de confiança, foram elencados: Globo News, O Globo, Revista Veja e a Folha de S. Paulo.

Reprodução: Reuters Institute, 2021 Digital News Report: Brazil

Fica evidente, portanto, a manipulação da mídia mais acessível à população brasileira (essencialmente, a TV aberta e gratuita) como ferramenta para a propagação de uma ideologia neoliberal e negacionista. No artigo “De líder a paria de la salud global: Brasil como laboratorio del ‘neoliberalismo epidemiológico’ ante la Covid-19”,² Ventura e  Bueno apontam que essa estratégia institucional favorável à propagação e prolongamento da pandemia da Covid-19 expressa radicalmente essa vertente do neoliberalismo, recorrendo a medidas cientificamente questionáveis para o suposto “enfrentamento da pandemia” e disseminando desinformação a respeito do vírus.


A mídia – acompanhada das redes sociais, como apontado no levantamento da Reuters – teve um papel central em toda essa orquestra: ao mesmo tempo em que os veículos tradicionais foram altamente descredibilizados, meios que demonstravam claro apoio às políticas do governo federal passaram a ganhar ainda mais espaço na casa e mente dos brasileiros, gerando uma onda de radicalização. Em 2020, foram registrados 428 ataques verbais e físicos a jornalistas, por conta da publicação de conteúdos que criticavam as medidas e posicionamentos adotados pelo governo durante a pandemia. Destes, 175 teriam sido proferidos pelo próprio presidente³.


Além de afetar imensamente a resposta brasileira à pandemia, visto que milhões de pessoas foram imersas na concepção de que o vírus era somente uma “gripezinha”, esse movimento abalou as bases da transparência e busca pela veracidade tão necessárias ao jornalismo, especialmente em um momento como esse. Enquanto deveríamos estar observando uma mobilização eficiente e à altura da situação para o combate a pandemia, vemos o neoliberalismo epidemiológico fazendo uso de todos os meios possíveis para alcançar sua agenda.


Encerro com uma fala que me marcou recentemente, algo na linha de: “queria saber mais sobre a situação do Brasil na pandemia, mas não consegui me convencer de que o site e os materiais divulgados pelo Ministério da Saúde fossem confiáveis o suficiente”. Fica, portanto o questionamento: fora do meio acadêmico, qual perspectiva possui o brasileiro na busca por informação?

Referências

¹ Reuters Institute for the Study of Journalism, University of Oxford. 2021 Digital News Report: Brazil. Disponível em: https://reutersinstitute.politics.ox.ac.uk/digital-news-report/2021/brazil
² Ventura, Deisy de Freitas Lima, & Bueno, Flávia Thedim Costa. (2021). De líder a paria de la salud global: Brasil como laboratorio del “neoliberalismo epidemiológico” ante la Covid-19. Foro internacional, 61(2), 427-467. https://doi.org/10.24201/fi.v61i2.2835
³ LatAm Journalism Review. Attacks on journalists explode in Brazil in 2020 and most of them come from President Bolsonaro. Disponível em: https://latamjournalismreview.org/articles/attacks-journalists-brazil-2020-bolsonaro/

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Luiza Caixeta Piazza
18 dias atrás

Post muito interessante, Camila!

Em primeiro lugar, há um ponto que chama muito a atenção nos dados da pesquisa que você apresentou. Colocados em quarto lugar como veículos de maior confiança, estão jornais locais ou regionais. Não tenho certeza sobre quais jornais se refere a pesquisa, mas me lembrou de uma reportagem recente do Nexo Jornal (link abaixo), que relata como as rádios locais e alguns apresentadores dessas emissoras bem colocadas nessa pesquisa (como Ratinho e Datena) têm sido usados pelo atual presidente para se aproximar de novos públicos, fora da sua “bolha digital”. Nesse caso, considero preocupante que as pessoas confiem nesses meios de comunicação, pois, conforme já sabemos (e também foi documentado na reportagem citada), a maior parte do discurso do atual presidente é marcada por informações falsas ou distorcidas, frequentemente contrariado recomendações científicas de combate à pandemia.

Além disso, levanto um outro ponto. A pergunta que você deixou no final me lembrou de uma pesquisa que saiu recentemente, a Global Youth Vaccine Trust Report, um survey realizado ao longo de 2021 por iniciativa da UNESCO, agência da ONU para educação, ciência e cultura. Eles entrevistaram jovens (18-30 anos) a respeito da confiança na vacina contra a Covid-19 e nos meios de comunicação. A pesquisa mostrou que, dentre os jovens brasileiros, as principais fontes buscadas para obter informações são a Organização Mundial da Saúde (OMS), o UNICEF (Fundo das Nações Unidas para Infância) e outras organizações não governamentais. Fica evidente que os jovens não consideram tão confiáveis as fontes oficiais, como o Ministério da Saúde, o que inclusive vai na contramão da maioria dos países pesquisados neste survey. É muito bom que possamos contar com o trabalho dessas organizações internacionais, que, junto com academia, mídia, governos locais e divulgadores científicos, têm feito projetos importantes de disseminação de informações confiáveis durante a atual pandemia.

Também é animador ver que a juventude reconhece os problemas com as informações transmitidas pelo atual governo e busca alternativas confiáveis. Porém, ao mesmo tempo, é preocupante pensar nos efeitos que isso pode ter para o futuro, pois, sobretudo em casos de emergência de saúde pública, é fundamental que a relação entre as autoridades e a população seja pautada na confiança, para que as pessoas possam confiar nas diretrizes oficiais de como se comportar para proteger suas comunidades. Nesse sentido, esperemos que o nível de desconfiança que o atual governo está gerando – tanto em relação às autoridades públicas, quanto em relação à ciência-, não afete trabalhos importantes que os futuros governos eventualmente precisem desempenhar.

Referências

Global Youth Vaccine Trust Report. 2021. Disponível em: <https://covidyouthsurvey.com/&gt;. Acesso em: 16 nov. 2021.

NEXO Jornal. Por que Bolsonaro dá prioridade a entrevistas de rádio. 16 ago. 2021. Disponível em: <https://www.nexojornal.com.br/expresso/2021/08/16/Por-que-Bolsonaro-d%C3%A1-prioridade-a-entrevistas-de-r%C3%A1dio&gt;. Acesso em: 16 nov. 2021.

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