Os diferentes impactos culturais da pandemia nas gerações que vemos hoje, de Tomás Ruschel Saiter Mota

12/11/2021
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Em anos recentes as pessoas se re-familializaram com o conceito de gerações. A discussão da relação problemática entre o grupo dos Millennials e dos Baby Boomers começou lentamente a tomar mais espaço na internet, até o ponto em que, em 2019, o conceito tomou os verdadeiros holofotes da internet quando o bordão “OK Boomer” viralizou.

Apesar dos demarcadores de cada um desses grupos estarem relativamente bem estabelecidos no imaginário da internet, pouco se fala sobre o que realmente marcou cada um desses grupos, as muitas falhas da forma a qual o conceito de geração é apresentado e o que serão das gerações futuras dado a pandemia. De grosso modo, gerações são grupos etários que experienciaram contextos e acontecimentos políticos, econômicos ou sociais aproximadamente no mesmo período da sua vida. Frequentemente, episódios dados como históricos (como a pandemia veio a ser e como foi as guerras mundiais foram) são postos como característica fundamental das gerações que os experienciaram em sua infância e/ou adolescência. 

A pandemia de COVID-19 é frequentemente referenciada como o maior desafio enfrentado pela humanidade desde a Segunda Guerra Mundial. É interessante expandir a comparação para a reflexão do impacto da pandemia nas gerações que estão começando sua vida hoje, dado que a Segunda Guerra é posta como característica marcante de várias gerações do início do século XX. As gerações Grandiosa (pessoas nascidas entre 1901-1924) e Silenciosa (1925-1945) são ambas produtos diretos da guerra. Se a comparação entre a pandemia e a segunda guerra é verdadeira, qual será o impacto dessa crise sanitária nas gerações futuras? A Geração Z (2000-2010) e a Geração Alpha (2010 em diante) ambas passam por períodos críticos de suas formações psicológicas experienciando dois anos de distanciamento social, crise econômica, instabilidade política e outras reverberações pandemicas. Se os frutos da pandemia nesses grupos se limitassem às mais evidentes consequências, teríamos desdobramentos como uma geração de crianças que por anos ficaram sem contato social, sem aprender conceitos essenciais e básicos da interação humana (ORBAN, TOMOVA & BLAKEMORE, 2020) – talvez até mesmo a primeira geração que aprendeu a digitar antes de escrever  . 

Mas, a pandemia é um episódio histórico extremamente complexo, que permeia e possui capilaridade o suficiente para infiltrar todos os setores e comunidades da sociedade atual. Vindo acompanhado de discussões e processos como o apartheid internacional de vacinas, vigilança estatal e até mesmo genocídio como no caso brasileiro, a pandemia não pode ser tratado como um episódio histórico que acontece no vácuo. Fatores como o preconceito, desigualdade nacional, internacional, racial devem ser considerados na equação. Como então podemos analisar de forma unificada esses desdobramentos se esses mesmos são diversos e variados? Não teria um fundo classista a comum fala de que a pandemia impulsionou os nativos digitais se mais de 20% da população brasileira não possuía acesso a internet em 2019 segundo o IBGE? Como falar de forma unificada de uma geração de jovens impactadas por essas crise se, para os países ricos, essa já não é mais letal, mas para outros as mortes continuaram por anos devido a escassez de vacinas? A Classe média, assim como o Atlântico Norte, não são órfãos do coronavírus.

Não é preciso muito esforço para perceber que a delineação das diferentes gerações é facilmente problematizavel: a divisão dos grupos segue uma tendência ocidental, com a cultura e contexto nacional estadunidense de classe média como lente definidora. A pandemia vai exaltar essa falha no conceito de gerações como conhecemos. Se já é impossível falar de um impacto unificado da pandemia entre nações, regiões e até mesmo comunidades, é somente lógico que o reflexo desse episódio também seja diferente nesses grupos futuramente. A herança geracional da pandemia vai escancarar as desigualdades nacionais e internacionais que tiveram como consequência a dissemelhança de mortes e dificuldades. A única previa concreta que temos agora sobre esse impacto está na educação. 

Um dos maiores e mais rápidos impactos na organização familiar e vida cotidiana no isolamento social, foi a transição de todos os níveis de educação para a educação a distância. No cenário brasileiro, o chamado Ensino Remoto Emergencial (ERE) foi consolidado pelo Conselho Nacional de Educação pela publicação da Resolução Nº 02. O documento instituiu diretrizes nacionais sobre  as normas educacionais excepcionais por quanto vigorasse o estado de calamidade pública da pandemia. Essas diretrizes levaram à validação de atividades educacionais e práticas pedagógicas por meio de tecnologias digitais. Apesar de ser uma mudança necessária, as diretrizes foram escritas sem tomar em consideração a grande parte da população estudantil brasileira, que frequentam escolas públicas ou residem em áreas rurais. Já se vê hoje, em reflexo disso, que a geração de estudantes de escolas públicas na pandemia, será uma com os dos maiores índices de abandono educacional da história. Enquanto estudantes de classe média ou superior são apresentados a um modo de trabalho que provavelmente se assemelhará muito aquele do mercado de trabalho que um dia eles penetrarão. O ERE é a primeira de muitas pistas de que a herança geracional da pandemia será (SMITH, 2021) .

Referências

SMITH, Ruth. Pandemic and Post-Pandemic Digital Pedagogy in Hospitality Education for Generations Z, Alpha, and Beyond. Disponível em: https://journals.sagepub.com/doi/full/10.1177/10963480211000818?casa_token=y8uiCT7uZDIAAAAA%3ASFXteyD09gWUNJz63u1QOP143wjV1FiOSiXJcIkiBT1vwUgKmRVpSRrbuOBDkKbjiy2DwuAmQgotsQ

Orban A, Tomova L, Blakemore S. The effects of social deprivation on adolescent development and mental health. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2352464220301863

Conselho Nacional de Educação. RESOLUÇÃO CNE/CP Nº 2, DE 10 DE DEZEMBRO DE 2020. Disponível em: https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/resolucao-cne/cp-n-2-de-10-de-dezembro-de-2020-293526006

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Guilherme Augusto Coelho Ferreira
20 dias atrás

Ótima reflexão Tomás. Acho que ainda nos falta um certo “distanciamento”, com o perdão da palavra, tão usada pra tudo ultimamente, temporal, para nos darmos contas do quão profundo foi o impacto da pandemia na psiquê de toda uma geração, moldada por esses acontecimentos em seus anos formativos mais cruciais.
Esquisito pensar que já havia, progressivamente uma entrada cada vez mais sem saída, aos recursos digitais. Quando, de repente, o digital passou a ser um meio até de sobrevivência, mas, sobretudo de vivência dentro do contexto pandêmico, resta pensarmos como será a vida social, daqui por diante.

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