O que é que há de tão valioso na maternidade, de Isabela Leiva Rosa

01/11/2021
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A maternidade descreve experiências de vida que não são restritas à gravidez e ao parto, unindo uma mulher à qualidade de mãe; e, mesmo assim, o uso corrente do termo saúde materna na área de saúde global concentra sua atenção a um período estreito da vida de mulheres – gestação, parto e pós-parto (KNAUL et al., 2016). Tendo em vista as extraordinárias transições nas necessidades de saúde e papéis da mulher que assistimos nos últimos anos, marcadamente uma conquista da luta feminista, uma concepção tão pouco abrangente de saúde materna subestima o peso das dificuldades enfrentadas por mulheres mães, uma vez que a maioria delas vive mais que sua idade reprodutiva. Discuto aqui a convergência entre três domínios complementares na vida dessas mulheres e os seus maiores desafios: a saúde materna e reprodutiva, o envelhecimento e a ocorrência de doenças não comunicáveis. 

Preliminarmente, é necessário explicar que a vivência das mulheres é plural, e que a discussão sobre maternidade precisa caminhar no sentido de acolher as diferenças entre experiências para sempre avançar no amplo acesso à serviços de saúde, por mulheres que são mães ou não, e que compartilham de uma identidade diversa. Uma vez que discutimos saúde global, não desejamos nos inclinar para a generalização, mas entender que mesmo quando os corpos e os desejos de vida são diferentes, a saúde é mais do que a combinação de determinantes biológicos e implica em condições sociais por vezes desafiadoras. Assim, o texto é um convite ao olhar brevemente para a vivência de mulheres cis e mães, e como ela se relaciona com a qualidade que embutimos na agenda de saúde para essas pessoas. Ainda, não me dedico à qualidade do serviço de saúde garantido às crianças recém nascidas, que na maioria das vezes tratamos como completamente atrelado aos cuidados com a mãe e não o é – e tampouco desejo idealizar a experiência da maternidade como propósito do gênero, arcaísmo o qual gosto de pensar que superamos ao menos no estudo da saúde global.

Ainda, tomo o texto de Clare Wenham (2021) como fonte de intuições importantes para a compreensão de conceitos feministas especialmente relevantes no campo da saúde global, rememorando que as experiências de mulheres em suas escolhas reprodutivas são também culturais e interseccionais a outros fatores de desigualdade como raça, classe, origem e idade. E que, ao mesmo tempo, tarefas fundamentais ao desenvolvimento de uma comunidade e a manutenção de seu “cotidiano normal” recaem de forma geral sobre as mulheres, no que tange o cuidado com os lares, crianças, idosos e vizinhança. Essa compreensão se estende fundamentalmente à maternidade, uma vez que a saúde pública e global falha em incluir olhares feministas interseccionais em suas agendas, a exemplo do impacto desigual sobre mulheres durante a crise da síndrome congênita do vírus Zika, no Brasil. 

Dito isso, interpretar que o cuidado com a maternidade se estende apenas à gestação, ao parto e ao pós-parto ignora diversos aspectos da saúde materna, afetando as prioridades de saúde pública e subestimando a contribuição de mulheres para suas famílias, comunidades, sistemas de saúde e economias atravessando o período tomado como materno (BUSTREO et al., 2013). Dessa forma, entendemos que saúde materna e reprodutiva é um âmbito da vida das mulheres mães, que provavelmente continuam exercendo esse papel social entre muitos outros através do tempo, conhecendo o envelhecimento e, por vezes, sofrendo por doenças não comunicáveis – que são doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes e doenças cardíacas, que representam riscos importantes para mulheres desacompanhadas por um sistema de saúde bem preparado, mas preveníveis e tratáveis se adequadamente atendidas. Nesse sentido, a saúde global deve ser inclusiva e integrada, substituindo o foco centrado na doença por uma abordagem centrada nas mães e suas vivências reais, como pessoas que existem antes e depois da maternidade com seus desafios e demandas por acesso à saúde e não passam a ser valiosas apenas ao passarem pela experiência de tornarem-se mães.  

Em outras palavras, é possível argumentar que conquistar liberdade reprodutiva é um passo importante na luta por sociedades com igualdade de gênero, e a saúde materna faz parte dessa conquista ao garantir que todas as mulheres sejam protegidas pelos serviços de saúde, atendidas de forma exemplar e, se quiserem, dêem a luz à crianças em espaços seguros e equipados, contando com a assistência de profissionais bem treinados e éticos. E em termos de ética, é inaceitável que previnamos problemas relacionados à gestação e ao parto apenas para negligenciar seu acesso à serviços de saúde posteriormente (KNAUL et al., 2016), deixando que sofram por outra condição tratável ou prevenível, inclusive durante o envelhecimento.  Ou seja, ao mesmo tempo em que colocamos em foco da agenda de saúde a prevenção da mortalidade associada à gravidez e ao parto, é imperativo que olhemos também para as condições que ameaçam meninas e mulheres em seus ciclos de vida como crianças, adolescentes, mães, avós e participantes vitalícias fundamentais do desenvolvimento econômico, social e humano de sua comunidade (KNAUL et al., 2016) – o que inclui a produção científica e a linha de frente dos cuidados de saúde, relevantes para a matéria de saúde global sobre a qual nos debruçamos.

Assim, a agenda de saúde materna e o desenho de políticas públicas devem acompanhar o curso da vida, numa abordagem centrada nas mulheres, que terão ou não terão filhos e independente dessa escolha. O desafio aqui é continuar empurrando a discussão sobre saúde materna para além da gravidez e do parto, permitindo que mulheres exerçam suas potencialidades em todos os aspectos de suas vidas e possam ter acesso a serviços de saúde excelentes, especialmente compreendendo os cuidados que demandam como mães. É necessário pensar no que o materno é tão valioso ao tratarmos da saúde dessas mulheres mães. A saúde materna e reprodutiva são ligadas à maternidade porque as condições biológicas são essenciais para que as mulheres prosperem, mas os projetos de saúde pública devem vigiar o envelhecimento e a ocorrência de doenças não comunicáveis de mulheres uma vez que entende o protagonismo delas em múltiplas esferas da vida, especialmente quando diretamente responsáveis por outra vida, como mães. 

Referências

BUSTREO, Flavia et al. At the crossroads: transforming health systems to address women’s health across the life course. Disponível em: https://www.scielosp.org/article/bwho/2013.v91n9/622-622/ 

KNAUL, Felicia Marie et al. Rethinking maternal health. The Lancet Global Health. Disponível em: https://www.thelancet.com/journals/langlo/article/PIIS2214-109X(16)00044-9/fulltext

WENHAM, Clare. Feminist Global Health Security. Oxford Studies in Gender and International Relations, 2021.

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Marina Gallerani
23 dias atrás

Essa é uma questão muito fundamental, a redução da visão de saúde ao período reprodutivo da vida das mulheres não acontece quando tratamos apenas de saúde materna, mas também de saúde da mulher. A discussão sobre o tema não é nova. Na “Carta das Mulheres Brasileiras aos Constituintes” (1987), documento elaborado nacionalmente por mulheres no momento da elaboração da nova Constituição brasileira, o ponto número 2 do documento dizia respeito à garantia de Assistência Integral à Saúde da Mulher em todas as fases de vida, “através de programas governamentais discutidos, implementados e controlados com a participação das mulheres”, indo de encontro com uma publicação realizada pelo Ministério da Saúde em 1985 que apontou que até então o cuidado com a saúde da mulher tinha um excessivo e míope foco no período gravídico-puerperal, ou seja, no momento reprodutivo da mulher (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 1985). Em 2004, foi elaborada a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher (PNAISM), documento que objetivava consolidar os novos avanços conquistados no campo dos direitos reprodutivos e sexuais, com busca pela “melhoria da atenção obstetrícia, no planejamento familiar, na atenção ao abortamento inseguro e no combate à violência doméstica e social”, incluindo também o diagnóstico e tratamento de doenças crônicas, câncer ginecológico e HIV/aids (MINISTÉRIO DA SAÚDE, Saúde Integral da Mulher), indo portanto além do momento de gravidez e puerpério e começando a adereçar a demanda levantada pela Carta em 1987. Mas é evidente que ainda há muito espaço para evolução, especialmente quando consideramos que a escolha de não ter filhos é cada vez mais comum nas novas gerações.

MINISTÉRIO DA SAÚDE (Brasília, DF). Centro de Documentação do Ministério da Saúde, 1985. Assistência integral à saúde da mulher: Bases de ação programática, Brasília, DF, v. SérieB, n. 6 Textos básicos em saúde, p. 1-26, 1985. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/assistencia_integral_saude_mulher.pdf. Acesso em: 27 jun. 2021.

MINISTÉRIO DA SAÚDE. Governo Federal. Saúde Integral da Mulher, Brasília, DF. Disponível em: https://www.gov.br/mdh/pt-br/navegue-por-temas/politicas-para-mulheres/arquivo/assuntos/saude-integral-da-mulher. Acesso em: 27 jun. 2021.

MINISTÉRIO DA SAÚDE. FIOCRUZ. Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher (PNAISM), [S. l.]. Disponível em: https://portaldeboaspraticas.iff.fiocruz.br/biblioteca/politica-nacional-de-atencao-integral-a-saude-da-mulher-pnaism/. Acesso em: 26 jun. 2021.

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