Mais uma arma é introduzida ao arsenal de combate à malária, de Vitor Balbachevsky

15/11/2021
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A malária é uma doença causada por um parasita e transmitida na maioria das vezes por picadas de mosquitos. Ela é uma doença tropical que assola o planeta desde os tempos do Egito Antigo, e pelo menos desde 1955 a Organização Mundial da Saúde lança projetos para a erradicação da doença, como o Global Malaria Erradication Campaign. Os países ricos foram bem sucedidos na erradicação da doença, os EUA tendo alcançado o feito no ano de 1952, contudo o mesmo não ocorreu com países fora do norte global que continuam a sofrer com ela, principalmente países da África subsaariana, onde se encontra o parasita mais agressivo, o Plasmodium falciparum, e segundo estimativas da Bill and Melinda Gates Foundation onde se concentram 90% dos casos atualmente.

A OMS por mais de 65 anos tenta conter a doença e, ainda que com avanços consideráveis, sua erradicação não é vista num horizonte próximo. Mesmo cientes da gravidade do problema em outras partes do planeta, pouco foi feito pelos países ricos para efetivamente endereça-lo. Apesar do reconhecimento da doença como um agravo a ser combatido mundialmente, a OMS não possui a autonomia orçamentária para alocar seus recursos da maneira que julgue mais eficiente para alcançar os objetivos estabelecidos, isso ocorre por conta do grande montante de seu financiamento que já vem com uso endereçado pelo doador.

O vazio não-intencional deixado pela OMS dá margem para organizações não-governamentais de caráter global como a Bill and Melinda Gates Foundation (BMGF) estabelecerem programas próprios fora da coordenação sanitária da OMS para lidar com os mesmos problemas. As autoras Anne-Emanuelle Birn e Judith Richter argumentam em seu artigo que a criação de programas paralelos é intencional e feita por essas ONGs de forma a minar a autoridade da OMS – é importante pontuar que a BMGF é atualmente a maior financiadora da OMS – e conseguirem reformar sua imagem de grandes fortunas conseguidas em cima da exploração de outrem para benevolentes bilionários que buscam ajudar o planeta. Foi assim que a BMGF, a Aliança GAVI e a ONG Path se uniram no financiamento da pesquisa que resultou na criação da vacina RTS,S.

No começo do mês de outubro, a Organização Mundial da Saúde anunciou que recomendaria a utilização da primeira vacina de malária após a conclusão de um estudo feito em crianças na África subsaariana. Durante seu discurso, o diretor geral da organização, Tedros Adhanom fez – talvez – a ressalva mais importante de todo o evento: “using this vaccine in addition to existing tools to prevent Malaria could save tens of thousands of young lives each year”, o uso dessa vacina em conjunto com ferramentas já existentes de prevenção à malária pode salvar dezenas de milhares de vidas a cada ano. Isso porque a vacina apresenta eficácia em torno de 30%, o que não permite a possibilidade de combate à doença apenas por meio da imunização vacinal – as vacinas contra Covid-19, para comparação, precisam de uma eficácia mínima de 50% e de cobertura vacinal próxima de 90% para conterem a pandemia.

A OMS baseia sua estratégia de combate à malária em medidas não-farmacológicas. Existem remédios e tratamentos hospitalares que tratam alguns sintomas das doenças, porém entende-se que essa abordagem é cara e não consegue evitar que o problema aconteça, apenas remediar algumas de suas consequências. De maneira a atacar a causa da doença, a OMS investe na distribuição de telas protetivas e de repelentes, porque elas impedem que os mosquitos transmitam a doença aos humanos e combatem a propagação da doença de forma simples e eficaz, sem a necessidade de uma estrutura hospitalar ou farmacêutica, nem sempre disponível a todos. De forma a cristalizar a abordagem utilizada contra a doença, a organização redigiu em 2015 um documento intitulado “Global technical strategy for malária 2016-2030” em que detalhava seu plano de metas e ações para os próximos 15 anos. O primeiro pilar fala sobre a garantia do acesso universal à prevenção, diagnóstico e tratamento da malária e, dentro dele, o controle dos vetores é um dos pontos de destaque. Ressalto aqui que as medidas destacadas pelo documento para combate aos mosquitos transmissores são, primeiramente, o uso de telas com inseticidas e complementarmente, caso necessário, o uso de fumigação de inseticidas dentro das residências. Agora com mais esse avanço, a própria organização estima que a utilização das vacinas para além das duas estratégias já usadas atualmente possa resultar em até 90% das crianças sendo beneficiadas por ao menos uma das medidas preventivas.

FONTES:

BIRN, A.; RICHTER, J. Filantropo-capitalismo estadunidense e a agenda da saúde global: as fundações Rockefeller e Gates, passado e presente. Revista Ágora, UNISC. 2018.

Global Malaria Programme. World Health Organization. Disponível em: <https://www.who.int/teams/global-malaria-programme/prevention>

Malaria. Bill and Melinda Gates Foundation. Disponível em: <https://www.gatesfoundation.org/our-work/programs/global-health/malaria>

Malária. Fiocruz. Disponível em: <https://portal.fiocruz.br/taxonomia-geral-7-doencas-relacionadas/malaria>

O Assunto #555: Malária – por que a vacina é um evento histórico. Renata Lo Prete. Globo, 2021. Disponível em: <https://g1.globo.com/podcast/o-assunto/noticia/2021/10/08/o-assunto-554-malaria-por-que-a-vacina-e-um-evento-historico.ghtml>

OMS recomenda uso generalizado de primeira vacina contra a malária em crianças. Jacqueline Howard. CNN Brasil, 2021. Disponível em: <https://www.cnnbrasil.com.br/saude/oms-recomenda-uso-generalizado-de-primeira-vacina-contra-a-malaria-em-criancas/>

Opas alerta para cobertura vacinal acima de 90% para controlar Covid-19. Giulia Vidale. Veja, 2021. Disponível em: <https://veja.abril.com.br/saude/opas-alerta-para-cobertura-vacinal-acima-de-90-para-controlar-covid-19/>

Progress Fighting Malaria: A Timeline. UCSF, 2011. Disponível em: <https://www.ucsf.edu/news/2011/08/103884/progress-fighting-malaria-timeline>

Vacina contra malária surge após décadas de pesquisas. Julio Abramczyk. Folha de São Paulo, 2021. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/colunas/julioabramczyk/2021/10/vacina-contra-malaria-surge-apos-decadas-de-pesquisas.shtml>

WHO recommends groundbreaking malaria vaccine for children at risk. World Health Organization, 2021. Disponível em: <https://www.who.int/news/item/06-10-2021-who-recommends-groundbreaking-malaria-vaccine-for-children-at-risk>

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Global technical strategy for malaria 2016-2030. World Health Organization, 2015.

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