Kyrie Irving e o papel da raça no acesso à vacinação nos EUA, de Pedro Cavalcanti Costa Marques

27/10/2021
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A última terça-feira, (19/10) foi marcada pelo início da temporada regular da NBA, maior campeonato de basquete profissional do mundo. O jogo de abertura para a 75ª temporada da Liga não poderia ser outro, uma revanche entre os dois melhores times da Conferência Oeste: Brooklyn Nets e Milwaukee Bucks. Repetindo o que havia acontecido na última temporada, o Milwaukee Bucks levou a melhor sobre o time de Nova York. Houve, entretanto, um assunto que permeou toda a partida: a ausência de Kyrie Irving, armador e superstar do Brooklyn Neets. O motivo para sua ausência? O jogador optou por não se vacinar contra a COVID-19.

A posição de Irving contra a vacinação fez com que os coordenadores de sua equipe, bem como a administração da liga, tomassem decisões fortes. O atleta treina isolado de seus companheiros de equipe – os quais já estão vacinados – assim como também não pode participar de eventos esportivos onde a legislação local demanda a apresentação da vacinação completa, como é o caso de Milwaukee, cidade onde ocorreu o último jogo. O caso de Kyrie, e sua repercussão na mídia, nos ajuda a entender como a raça ainda é uma variável importante quando analisamos o acesso a vacinação nos Estados Unidos.

Em suas redes sociais, o atleta justifica a escolha de não se vacinar a partir de sua liberdade pessoal, emitindo declarações como “Estou fazendo o que é melhor para mim” e “Não é sobre política, nem sobre um assunto específico… é sobre a liberdade de fazer o que quero”. Ao repercutir a decisão do atleta, a mídia citou, inúmeras vezes, o infame Estudo da Sífilis Não Tratada de Tuskegee, associando a decisão de Irving a uma suposta propensão da comunidade negra americana a não se vacinar. Essa propensão seria derivada da desconfiança das instituições de saúde pública dos EUA. Entre 1932 e 1972, o Serviço Público de Saúde dos Estados Unidos (SPS) realizou um estudo médico sobre os efeitos da sífilis e, por suas inúmeras más condutas, é visto como exemplo da falta de ética no campo da pesquisa médica. Aproximadamente 600 homens negros foram utilizados como cobaias em diferentes estudos. Aqueles que estavam doentes e participaram do estudo não foram informados sobre seu diagnóstico e jamais deram seu consentimento para participar da experiência. Eles foram informados de que era portadores de bad blood – termo utilizado para designar uma doença genérica – e que, caso aceitassem participar da pesquisa, teriam todos os custos cobertos, bem como alguns benefícios, como as despesas funerárias. Ao final do estudo, apenas 74 pacientes estavam vivos e diversos familiares das cobaias haviam contraído a doença.

O caso de Tunkegee foi utilizado como pretexto para justificar uma suposta inclinação da população afro-americana a hesitação em receber a vacina contra a COVID-19, ilustrada, aqui, pelo caso de Kerye Irving. De fato, segundo a abc News, pesquisas feitas no início do período de vacinação mostravam uma hesitação maior da população negra ao compará-las com a população branca, mas, conforme o processo de vacinação avançava nos EUA, essa percepção foi alterada. Ainda há, entretanto, uma diferença entre o número de vacinados quando abordamos a estatística através da raça. Segundo o serviço de notícias Vox, no início de julho, a taxa de vacinação entre afro-americanos era 15% menor do que a taxa verificada na população branca. Ainda segundo a Vox, apesar dos afro-americanos serem 12% da população dos EUA, eles representam apenas 9% dos vacinados.

Ao abordar a questão em entrevista a abc News, Jorge Caballero, Instrutor Clínico na Universidade de Stanford e cofundador do grupo Coders Against COVID, afirma que, mais do que posicionamentos pessoais e políticos, a vulnerabilidade socioeconômica é a principal responsável pela hesitação em relação a vacinação contra a COVID-19. Segundo Caballero, entre as principais razões para não receber a vacina, o medo de faltar ao trabalho em função de efeitos colaterais, bem como dificuldade de acessar os pontos de vacinação, são as mais citadas. Ainda segundo o pesquisador, se os formuladores de políticas públicas não identificarem as reais barreiras para o avanço da vacinação entre minorias, esses problemas não poderão ser resolvidos.

O posicionamento de Kyrie Irving contra a vacinação abriu um debate nos EUA sobre a confiança da população negra nas instituições de saúde pública no país. Apesar de inúmeras violações cometidas contra a ética médica, a maioria da população negra dos EUA parece estar disposta a receber ambas as doses contra a COVID-19. O principal obstáculo, portanto, não são posicionamentos pessoais e políticos como o de Irving, mas a vulnerabilidade socioeconômica enfrentada por essa parcela da população.

Referências

SCHUMAKER, E. Vaccination rates lag in communities of color, but it’s not only due to hesitancy, experts say. ABC News. 08 mai. 2021. Disponível em <https://abcnews.go.com/Health/vaccination-rates-lag-communities-color-due-hesitancy-experts/story?id=77272753>.

DOTTLE, Rachael; TARTAR, Andre; KESSLER, Aaron. NYC Sees Big Gains With Black, Hispanic Vaccinations as U.S. Rates Slow: Covid-19 Tracker. 15 out. 2021. Disponível em <https://www.bloomberg.com/graphics/covid-vaccine-tracker-global-distribution/us-vaccine-demographics.html>.

IRFAN, Umair. The 4 main fault lines that divide the vaccinated and the unvaccinated. 29 jul. 2021. Disponível em <https://www.vox.com/22587443/covid-19-vaccine-refusal-hesitancy-variant-delta-cases-rate>.

GARCIA, Maria. Cobaias humanas: 400 negros sofreram até a morte para estudo de sífilis. Disponível em <https://observatorio3setor.org.br/noticias/cobaias-humanas-400-negros-sofreram-ate-a-morte-para-estudo-de-sifilis/>.

BUNN, Curtis. Why Kyrie Irving’s stance on the vaccine is not likely to sway fans. NBC News. 15 out. 2021. Disponível em < https://www.nbcnews.com/news/nbcblk/kyrie-irvings-stance-vaccine-not-likely-sway-fans-rcna3102>.

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Júlio Adrião D'Angelo
18 dias atrás

Muito interessante a perspectiva que você traz sobre o debate que foi suscitado devido a opção por não se vacinar do Kyrie Irving, Pedro. Acompanhando a mídia tradicional de esportes, em realidade, Kyrie sempre é alvo de críticas e é quase sempre levado como uma piada, exatamente por suas posições políticas e pessoas controversas. Porém, no seu texto, você usa esse posicionamento pra um outro lado da discussão, que na mídia tradicional é pouquíssimo explorado: por quê a população negra opta por essa decisão de não vacinar-se? E mais do que isso, você traz respostas, colocando a questão socioeconômica como aquela mais determinante para a vacinação – o que responde muito sobre por que um recorte de raças apresenta números tão divergentes.
No mais, fiquei impressionado com o relato do estudo de Sífilis Não Tratada de Tuskegee. Não conhecia esse caso, porém considerando o que você traz em seu texto e suas referências, vemos também como a mídia tradicional novamente consegue cooperar para a formação de opiniões discriminatórias.
Obrigado pela publicação, pertinente e informativa!

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