Instrumentalização sionista do Coronavírus: a propagação da pandemia como instrumento de limpeza étnica, de Aimée Ibrahim

18/08/2021
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“e tanto sangue foi derramado que traçar o sangue, o nosso sangue, tornou-se o motivo que conforta nossos inimigos, tementes ao que nos fizeram, não ao que possamos fazer. nós, que não temos (como) ser na ‘Terra Prometida’, tornamo-nos o fantasma do assassino que nos assombrava noite e dia, nos interstícios, tribulando-os, deprimindo-os. o insone grita: eles não morreram ainda? não, porque o fantasma desmama, cresce, resiste, retorna.” (Mahmud Darwich, “Da presença da ausência”, p.76)


Abimbola et al. (2021), ao abordarem a recente pandemia, apresentam o surto de Covid-19 como intensificador de discussões, jogando luz a realidades “difíceis, mas importantes” que “revelam sérias assimetrias de poder e privilégio que permeiam todos os aspectos da saúde global”. Os autores encerram seu trabalho com uma visão um tanto quanto otimista, pela qual “o COVID-19 tornou imperativo que a humanidade construa um mundo mais justo e igual.” Como o interlocutor deve já ter interpretado, este artigo diverge de Abimbola et al., ao passo que não é otimista. Entretanto, sinto-me no dever de justificar meu não-otimismo: sou palestina; e há um nível a partir do qual, pessoalmente, me tornei incapaz de nutrir a esperança que corajosamente carregam muitos dos meus conterrâneos. 


Se os autores supracitados interpretam a pandemia como tornando imperativa a construção de uma realidade mais igualitária, eu a interpreto como uma prova mais de quão altos são os níveis globais de tolerância ao sórdido. Assim, fica cada vez mais claro de que, independente de quantas casas sejam destruídas, quantos palestinos sejam torturados, quantos poetas da morte e do exílio (como Darwich) cantem seus versos, a comunidade internacional assistirá, petrificada, à sedimentação de camada após camada de violações de direitos humanos por parte de Israel.


Não se trata aqui de apresentar o extenso panorama histórico de genocídio e expulsão dos palestinos – a quem interessar, deixo a recomendação de leitura de Edward Said em “A Questão da Palestina”, que explica séculos de história com uma proficiência à qual eu jamais me equipararia. Entretanto, antes de afunilar ao tema que dá nome a esse artigo, sugiro a observação de duas informações importantes: (1) Desde 1987 (Primeira Intifada), das 13.969 mortes computadas, 87% foram palestinas (dados da B’Tselem apresentados no The Economist). Não entrarei no mérito dos exilados e palestinos sob tortura;(2) Observe a evolução (no caso, extinção) do mapa palestino ao longo do tempo; a geografia atual nos dá uma boa ideia da extensão na qual as cidades palestinas foram destruídas e apagadas, e seus moradores controlados, mortos ou expulsos (se estiver com tempo livre, tente também pesquisar minha cidade originária, Qaryoui, no seu Google Maps – são altas as probabilidades de o interlocutor não encontrar resquícios de que ela algum dia existiu).


Caso o exposto até então não seja suficiente para nos fazer questionar a efetividade real de qualquer discurso humanitário advindo de instituições e governos que tacitamente aceitam ou diretamente financiam o genocídio palestino, a pandemia deixou claro quão fácil é para Israel passar desapercebido pelo Ocidente ao utilizar da pandemia como instrumento de limpeza étnica. Nesse ponto, faz-se essencial apresentar dados e fatos que ancoram tal percepção. 


Israel se firmou como uma das primeiras vitrines de vacinação do mundo. Se o leitor teve algum contato com as redes sociais no último ano, deve haver se deparado com os vídeos da reabertura israelense após controle “invejável” da pandemia – mesmo que a alguns metros dos colonos sem máscara e se divertindo houvesse uma população palestina inteira em situação de vulnerabilidade. Ao fim de março de 2021, metade da população total israelense de 9.2 milhões de pessoas já havia sido completamente imunizada (duas doses da vacina). No mesmo período, os palestinos vivendo em território ocupado haviam recebido apenas 120 mil vacinas para uma população de 4.68 milhões de pessoas¹, em um aproximado de apenas 2,6% de palestinos havendo recebido uma primeira dose.²


O discurso por parte das autoridades israelenses seguiu no sentido de que embora colonizar o território seja uma prerrogativa dos sionistas, vacinar os palestinos sob seu jugo seria, isso sim, responsabilidade das autoridades árabes. Apenas em 18 de junho, após avanço considerável da pandemia, Israel aceitou “trocar” parte excedente do seu carregamento de vacinas com a Autoridade Palestina, desde que parte das vacinas a receber pelos árabes fossem transferidas a Israel. O acordo foi cancelado pela Autoridade Palestina, uma vez que as doses não estavam de acordo com os termos negociados – o carregamento aproximava sua data de validade, inviabilizando a vacinação. Houve, ainda, o bloqueio ativo de vacinas a caminho dos árabes. O carregamento de Sputnik V destinado a imunizar os médicos da linha de frente palestina foi bloqueado pela autoridade israelense – período que, segundo Israel, foi necessário para avaliar a decisão política de permitir ou não a passagem dessas doses para a população em Gaza. Frente a esses fatos é que aponto a instrumentalização sionista da pandemia para fins de limpeza étnica, e uma vez mais a ausência de medidas efetivas da comunidade internacional para evitar essa realidade.


É por isso, caro leitor, que passo longe dos otimistas quanto ao que espero de Israel. Não tenho ilusões de vislumbrar uma “descolonização em saúde global” por parte dos próprios colonizadores. Contudo, se ao meu ver a pandemia intensificou nossa complacência com o sórdido e se não acredito na mudança de conduta do genocida, acredito profundamente no meu povo. É no povo palestino e em sua força que reside a minha esperança. Força como a do meu avô, a edificar a casa de nossa família carregando pedra por pedra nas costas pelo deserto; como a do meu pai, ao insistir em tentar voltar para Qaryoui mesmo correndo risco de desaparecer (terminando por ser barrado na fronteira); como a minha e de meus irmãos, ao não desistir de contar nossa história, mesmo que já no Brasil e isolados de nossa terra por gerações. 


“tu e não eu é quem teme pelo que a cela vem me fazendo. tu que vigias meu sono, sonho, meu delírio minado de sinais. tenho visões e tens torres, chaves pesadas, armas a postos contra fantasmas. tenho sono, com toque sedoso por natureza, e tens de fazer por mim vigílias para não te tomar o sono a arma da mão em um piscar de olhos. sonhar é a minha profissão e a tua é, em vão, fazer escutas a conversas nada amistosas entre mim mesmo e a minha liberdade.” (Mahmud Darwich, “Da presença da ausência”, p.68)


Minha esperança reside nas palavras de Darwich. 

NOTAS DA AUTORA
¹População de 2019 segundo o Banco Mundial (West Bank e Gaza);
² Os demais dados referenciados no parágrafo estão disponíveis na bibliografia advinda da AlJazeera.

BIBLIOGRAFIA
DARWICH, Mahmoud. Da presença da ausência.Tradutor: Marco Calil. 1. ed. Rio de Janeiro: Tabla, 2020.WORLD BANK. West Bank and Gaza total population (2019). Disponível em: https://data.worldbank.org/country/west-bank-and-gaza 
ABIMBOLA et al. (2021) Addressing power asymmetries in global health: Imperatives in the wake of the COVID-19 pandemic. PLoS Med.18(4):e1003604. Epub 2021/04/23. https://journals.plos.org/plosmedicine/article?id=10.1371/journal.pmed.1003604
THE ECONOMIST. The Israel-Palestine conflict has claimed 14,000 lives since 1987. Disponível em: https://www.economist.com/graphic-detail/2021/05/18/the-israel-palestine-conflict-has-claimed-14000-lives-since-1987 
ALJAZEERA. Half of Israelis fully vaccinated as Palestinians lag. Disponível em: https://www.aljazeera.com/news/2021/3/25/half-of-israelis-fully-vaccinated-palestinians-lagALJAZEERA. Palestinian Authority calls off vaccine exchange with Israel. Disponível em: https://www.aljazeera.com/news/2021/6/18/palestinians-to-get-1-million-covid-vaccine-doses-in-israel-swap
ALJAZEERA. Israel blocks shipment of Russian Sputnik V vaccine to Gaza. https://www.aljazeera.com/news/2021/2/16/palestinians-say-israel-blocking-shipment-of-vaccines-to-gaza
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Edilene Bastos
29 dias atrás

Aimée, compartilho seu sentimento de descrença com relação à ideia de a Covid-19 ser uma impulsionadora da construção de um mundo mais justo e com mais igualdade. Apesar de ao longo desse tempo de pandemia vi muitas manifestações de solidariedade, imagens realmente tocantes de pessoas tocando instrumentos em suas varandas para seus vizinhos, que se sentiriam um pouco menos sozinhos na quarentena. Mesmo que muitas imagens como essa viralizem, não posso deixar de pensar nas imagens que ninguém quer ver, como a das covas comuns, por exemplo. Então, pode até ser que em algumas vizinhanças do interior da Itália tenha surgido um sentimento mais forte de comunidade, mas minha impressão é de que em muitas outras o que se viu foi um fim do mundo praquelas pessoas sem que se desse a atenção apropriada. Como se algumas mortes fossem mais tristes que outras, mais choráveis.

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