Há 40 anos uma outra pandemia surgia: a pandemia da Aids, de Gabriella Grolla

18/11/2021
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Vivemos assolados por uma das piores pandemias das últimas décadas: a do novo Covid-19. No Brasil, mais de 600 mil pessoas foram vítimas do vírus Sars-Cov-2, que apesar de parecer só uma brisa passageira no começo, se mostrou extremamente cruel em poucos meses. No mundo todo já são mais de 5 milhões de vítimas fatais. Hoje, com o país se reerguendo dessa tragédia, relembro uma outra pandemia, também negligenciada no seu início: a pandemia da Aids (síndrome de imunodeficiência adquirida). Desde o seu início, há cerca de 40 anos, mais de 33 milhões de pessoas já perderem suas vidas ao redor do mundo. 1

Algumas produções audiovisuais abordam de maneira sensível e impactante o surgimento do HIV e o seu efeito especialmente na população LGBTQIA+, um dos principais grupos atingido ainda hoje (especificamente homens gays/bissexuais e pessoas transgêneros2). Pose, uma série estadunidense criada por Ryan Murphy, Brad Falchuk e Steven Canals, e disponibilizada em 2018, acompanha um grupo de pessoas e suas infinitas complexidades durante as décadas de 80/90 – personagens que, em sua maioria, eram negros, latinos, pobres e LGBTQIA+. Entre diversos temas, é apresentado o começo do vírus da aids e o seu impacto. It’s a Sin, série inglesa de 2021 escrita pelo produtor Rusell T. Davies, conhecido também pela majestosa Years and Years, se concentra principalmente na chegada do vírus na Inglaterra, na década de 80, pela lente de um grupo de cinco amigos.

Esses amigos se encontram na cosmopolita Londres dos anos 80, decididos a encontrar um novo futuro após saírem da casa dos pais, ao mesmo tempo em que se deparavam com novas situações como a independência, conflitos, liberdade sexual e novos vínculos afetivos. Essa excitação inicial vai se transformando em angústia e medo no decorrer dos episódios, quando um novo vírus passa a ser conhecido pela sociedade. Esse vírus, hoje conhecido como HIV, vai se aproximando cada vez mais desses personagens. Enquanto alguns negligenciam o vírus e o seu efeito, o mesmo acontece a nível político e na sociedade no geral, situação que se assemelha ao início da pandemia de Covid-19. Nesse caso, entretanto, temos um agravante: um dos principais grupos atingidos nesse primeiro momento é invisível aos olhos do governo e da sociedade: a população LGBTQIA+.

Dado esse começo avassalador, onde pouquíssimo se sabia e muito se julgava, poucos se tratavam e muitos morriam, o que se seguiu nos anos seguintes? E hoje, onde estamos? Apesar de uma doença extremamente conhecida, ainda há muito a se informar sobre a Aids.

É importante começar abordando alguns aspectos ocorridos no passado. O principal deles é a atuação ímpar do Brasil no combate ao HIV nas últimas décadas. Apesar de oferecer tratamentos gratuitos para soropositivos desde 1991, alguns anos após os primeiros casos confirmados no país, em 1996 uma lei foi sancionada registrando o oferecimento do tratamento gratuito e universal para pessoas vivendo com HIV, como parte de um dos programas mais eficientes do mundo. Na época isso foi considerado uma grande virada de ponteiros, já que os medicamentos antivirais tinham acabado de surgir e ainda havia muito estigma.

Outro grande momento do país na luta contra a Aids foi no início dos anos 2000, quando o Brasil se colocava enfaticamente a favor da quebra de patentes de remédios do coquetel antirretroviral, em uma batalha direta contra o lobby e os interessantes da indústria farmacêutica. Em 2013, outra grande conquista: o SUS (Sistema Único de Saúde) passou a oferecer tratamentos para soropositivos logo quando eram diagnosticados com a doença – antes o início se dava a partir do momento que as células de defesa (CD4) caíam para abaixo do patamar de 500 células por milímetro cúbico de sangue. 3 O Brasil foi o 1º país em desenvolvimento a oferecer tratamentos para pessoas com HIV em qualquer estágioda doença.

Em 2018, o SUS passoua disponibilizar o PrEP (profilaxia pré-exposição), que atua como uma barreira para a multiplicação desenfreada do vírus no corpo de uma pessoa caso ela seja infectada, fazendo com que as células de defesa sejam capazes de combater os poucos vírus que restarem. A Profilaxia Pós-Exposição (PEP) atua com o mesmo princípio – mas no caso o medicamento só garante sua eficácia até no máximo 72h após a exposição. Rico Vasconcelos, infectologista pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, explica: “A PrEP seria a situação em que uma pessoa já está tomando o medicamento e tem o remédio no sangue para proteger contra o HIV no momento em que tem uma relação sexual de risco. E a PEP seria aquela situação em que você coloca o remédio no sangue de forma emergencial, até três dias depois da relação sexual, para bloquear a instalação dessa infecção.“. Além desses métodos de prevenção, o SUS ainda oferece preservativos, testes, exames de rotina, campanhas de prevençãoe exames de carga viral, de maneira gratuita e universal.

Acerca do momento exato para começar o uso de medicamentos antivirais em pessoas detectadas com o HIV, Adauto Castelo ressalta que “o objetivo do tratamento é estancar a multiplicação do vírus e a queda das células de defesa. Quando o número dessas células está acima de 350, não há preocupação. Entre 200 e 350, é preciso estar atento. Abaixo de 200, ninguém discute que chegou a hora de iniciar o tratamento”. Ele adiciona que em alguns casos com a contagem de CD4 acima de 200, é possível entender caso a caso a possibilidade do uso e o tempo no qual a pessoa soropositiva irá tomar os remédios. No tratamento contra a AIDS a meta é fazer com que a carga viral seja indetectável pois dessa forma o vírus se torna intransmissível. Essaé a chamada “regra” do I = I, ou seja, indetectável = intransmissível. A carga viral para se considerar indetectável é abaixo de 1000 cópias/ml. Como Drauzio Varella afirma, a imagem que tínhamos da primeira geração de infectados não é a que devemos ter na atualidade. Ao contrário, hoje em dia pessoas que vivem com HIV e com a carga viral controlada podem viver por muitos anos, de maneira leve e segura.

Apesar desses inúmeros avanços, o Brasil falha na prevenção, especialmente com as gerações mais jovens. De acordo com uma pesquisa do Ministério da Saúde realizada em 2016, 46% dos entrevistados relataram não terem utilizado camisinha em nenhuma relação no ano anterior. Em 2019, mais de 40 mil novos casos foram registrados no país. Gisele Cristina Gosuen, infectologista responsável pelo ambulatório de HIV da Universidade Federal de São Paulo, ressalta alguns possíveis motivos para esse aumento: “Isso se dá pela banalização da doença frente ao tratamento bem sucedido, pela facilidade em se ter novos parceiros graças à tecnologia, pela falta de conhecimento sobre a doença e sua gravidade, falta de campanhas que estimulem o uso de preservativos e também para a prevenção de outras infecções sexualmente transmissíveis que facilitem a infecção pelo HIV”.

O desafio hoje ainda é grande. Apesar de tratamentos muito mais eficazes e menos estigmas contra a população LGBTQIA+ em especial, o caminho ainda é longo quando se trata do entendimento da sociedade acerca de temas principais, como os métodos de transmissão, viver sendo soropositivo e quais tratamentos disponíveis. Essa caminhada pela desmistificação encontra diversos desafios, alguns menores e outros maiores. Em setembro deste ano, o líder do Poder Executivo falsamente associou vacinas contra Covid-19 com a disseminação do HIV. Jair Bolsonaro, durante uma live em uma rede social, leu uma notícia falsa que mentia sobre um relatório produzido pelo Departamento de Saúde do Reino Unido, ao associar o desenvolvimento de Aids por vacinados contra a Covid-19. As redes sociais da empresa Meta, antigo Facebook, derrubaram a live do Presidente da República – fato inusitado pois, apesar de Bolsonaro incessantemente reafirmar posições contra a ciência e em favor do vírus da Covid-19 ao longo da pandemia, o Facebook só tinha derrubado anteriormente uma outra live, em março de 2020.

Hoje em dia a única vacina em fase 3 para prevenção do HIV, intitulada de Moisaco e realizada pelo HIV Vaccine Trials Network (HVTN) e financiada pela farmacêutica Janssene pelo National Institutes of Health (NIH), estásendo estudada também no Brasil. Estão sendo testados dois imunizantes, “uma vacina é de vetor viral contendo um vetor que é o adenovírus, em que são inseridos os componentes imunogênicos do HIV, e uma vacina de proteína – de sequências proteicas do HIV”. 4 Ao todo estão sendo recrutados 3800 voluntários – homens gays ou bissexuais e pessoas transgêneros entre 18 e 60 anos, que participarão dos estudos por cerca de 3 anos.

Para Rico Vasconcelos, “é preciso que os jovens tenham educação sexual e que a sociedade combata o estigma de populações mais vulneráveis à infecção pelo HIV, como homossexuais, homens que fazem sexo com homens, trabalhadores e trabalhadoras sexuais e transexuais. ‘Sempre que uma população é estigmatizada, ela se torna automaticamente mais vulnerável ao HIV’”. E como arma contra toda ignorância, a informação é a saída.

Notas
1 https://www.paho.org/pt/topicos/hivaids
2 https://drauziovarella.uol.com.br/videos/coluna/nova-onda-do-hiv-coluna-106/
3 https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2013/11/131104_unaids_dg
4 Jorge Andrade Pinto, Professor da Faculdade de Medicina da UFMG e coordenador do Grupo de Pesquisa em HIV/Aids em Crianças, Adolescentes e Gestantes e responsávelpelostestes em Minas Gerais.

Referências

NEXO JORNAL. Redes sociais derrubam live em que Bolsonaro associa AIDS a vacina. Disponível em: https://www.nexojornal.com.br/extra/2021/10/25/Redes-sociais-derrubam-live-em-que- Bolsonaro-associa-aids-a-vacina

GOV BR. “O Brasil tem um dos melhores programas de HIV/Aids do mundo”, diz Drauzio Varella. Disponível em: http://www.aids.gov.br/pt-br/noticias/o-brasil-tem-um-dos-melhores- programas-de-hivaids-do-mundo-diz-drauzio-varella

BBC. ONU elogia novo passo do Brasil no tratamento da Aids . Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2013/11/131104_unaids_dg

PORTAL DRAUZIO VARELLA. DrauzioCast #156 | Tratamento de prevenção e de pós-exposição ao HIV. Disponível em: https://drauziovarella.uol.com.br/podcasts/drauziocast/tratamento- de-prevencao-e-de-pos-exposicao-ao-hiv/

PORTAL DRAUZIO VARELLA. Os avanços e o futuro do programa de HIV/Aids no Brasil | Coluna. Disponível em: https://drauziovarella.uol.com.br/coluna-2/os-avancos-e-o-futuro-do- programa-de-hiv-aids-no-brasil-coluna/

PORTAL DRAUZIO VARELLA. Esquemas de tratamento da aids | Entrevista. Disponível em: https://drauziovarella.uol.com.br/entrevistas-2/esquemas-de-tratamento-da-aids-entrevista/

PESQUISA MOISACO. Disponível em: https://www.pesquisamosaico.com.br/

DW. Como vai o combate à aids no Brasil? Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/como- vai-o-combate-%C3%A0-aids-no-brasil/a-55781881

AGÊNCIA BRASIL. Vacina contra HIV será testada no Brasil. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2021-02/vacina-contra-hiv-sera-testada-no- brasil

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