Filantrocapitalismo: o modelo de negócio do século XXI, de Camila Smaniotto Biazioli

13/11/2021
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Desde o início do século XXI, o número de atividades relacionadas à filantropia corporativa, financiadas por grandes empresas do setor privado, vem aumentando consideravelmente e alcançando um espaço de relevância cada vez maior no cenário internacional. Essa ascensão do modelo filantrocapitalista é atribuída a uma mudança profunda na relação entre Estado, mercado e sociedade civil ao longo dos últimos anos (Moran e Stone, 2016). Em uma realidade em que o Estado nem sempre é capaz de cumprir com suas obrigações e garantir os direitos de seus cidadãos, instituições paralelas – como organizações não-governamentais e companhias privadas – assumem as rédeas como atores supostamente capazes de oferecer a essas pessoas uma melhor perspectiva de vida, suprindo esse vácuo de responsabilidade social.

Entretanto, especialmente no que diz respeito ao setor privado, essa mudança profunda no relacionamento Estado-mercado-sociedade também veio acompanhada de novos modelos e propostas de negócio. No passado, a filantropia era associada, de forma equivalente, à caridade, relacionando-se simplesmente ao ato de doar dinheiro a uma causa de relevância, sem nenhum engajamento consolidado acerca do tema. Hoje, a nova geração de bilionários assume a filantropia como uma causa “prioritária”, ao mesmo tempo em que passa a encará-la como um investimento, sobre o qual é esperado um retorno financeiro para além de reputacional. Assim, a filantropia se tornou um novo modelo de negócio dentro do sistema econômico atual, sobre o qual os “investidores sociais” usam de estratégias típicas do mercado capitalista privado para direcionar recursos a determinadas agendas sociais, econômicas e ambientais, esperando que esses resultados sejam positivos, também, em termos contábeis (Bishop e Greens, 2008).

No campo da saúde, esse movimento é observado de forma especialmente delicada. São inúmeras as iniciativas promovidas pelo setor privado que buscam, por exemplo, ofertar medicamentos e promover campanhas de vacinação. Entretanto, grande parte das críticas relacionadas a esse modelo de atuação apontam que ele não investe diretamente em resolver essas crises de saúde a partir da base: ao invés de empreender esforços na solução de problemas socioeconômicos, o foco dessas corporações está em oferecer aquilo que eles acreditam, em seus termos, ser necessário para que a comunidade prospere [economicamente]. Porém, de nada adianta investir em caros equipamentos de diagnóstico de tuberculose para uma comunidade carente, se os determinantes da doença estão diretamente relacionados a pobreza e subnutrição. No caso da fundação Bill e Melinda Gates, fica evidente essa preferência por soluções tecnológicas em detrimento de sociais (Birn, 2005), o que traduz de forma clara a ideia de que, por trás do investimento e da iniciativa, está a Microsoft, grande empresa de tecnologia.

Assim, existe uma grande preocupação relacionada ao avanço do filantrocapitalismo no campo da saúde global. Primeiramente, é difícil compreender e mapear o impacto dessa elite na tomada de decisões estratégias em diversos níveis e esferas de influência. É fato que o setor privado se envolve profundamente na coordenação de políticas públicas, e isso pode apontar um conflito de interesses ainda maior. Além disso, os próprios elementos que compõem a agenda neoliberal são conflitantes com premissas básicas de atuação social: observa-se, por exemplo, o abandono das melhores práticas no campo da saúde e da nutrição em nome da modernização, além da insistência na abordagem técnica como melhor solução para as populações em situação de pobreza. (Dentico e Seitz, 2019).

Dada toda essa disputa de interesses subjetiva e intrínseca às iniciativas filantrópicas do modelo neoliberal, é difícil acreditar no papel do setor privado como o “grande salvador” do século. É claro que esses investimentos, quando bem conduzidos, possuem retornos sociais positivos. Entretanto, é tênue a linha que delimita até que momento esses retornos são positivos também para os interesses individuais das corporações, o que cria um estado de alerta constante acerca dessas iniciativas, uma vez que podem ser abandonadas ou corrompidas a qualquer sinal de mudança no ROI (retorno sobre investimento, na sigla em inglês).

Referências:

Birn, A.-E (2005). Gates’s grandest challenge: Transcending technology as public health ideology. Lancet, 366, 514–519.

Bishop, Matther e Greens, Michael (2008). Philanthrocapitalism: How the Rich Can Save the World. Publicado por: A. & C. Black.

Dentico, Nicoletta e Seitz, Karolin (2019). Philanthrocapitalism in global health and nutrition: analysis and implications. Spotlights on the SDGs 2019. Disponível em: https://www.2030spotlight.org/en/book/1883/chapter/sdg-3-philanthrocapitalism-global-health-and-nutrition-analysis-and-implications

Moran, Michael e Stone, Diane (2016). The New Philanthropy: Private Power in International Development Policy? Em J. Grugel e D. Hammett (Eds.) The Palgrave Handbook of International Development (pp. 297-314). London: Palgrave Macmillan.

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Bruna Doná Mourão
18 dias atrás

Ótimo texto, camila! Achei que ele traz importantes reflexões sobre o tema e coloca em xeque a Justiça social vs interesses particulares de organizações privadas. no meu ponto de vista, essa Discussão é extremamente Válida, pois, de fato há varias empresas que possuem produtos e modelos de Negócios baseados em filantropia. Não é raro encontrar Esses Serviços nos grandes bancos de investimentos e gestoras que buscam atrair clientes por meio de uma consultoria especializada, o que Reforça cada vez mais o paradoxo deiscutido ao longo do texto.

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