Ética e epidemias: o caso da Pfizer, de Jonelle Olivia

18 novembro 2021

Ética e epidemias: o caso da Pfizer, de Jonelle Olivia

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A empresa Pfizer é uma das  fabricantes de farmacêuticas mais populares no mundo, e se destaca entre os  líderes na produção de vacinas globais. Durante a pandemia recente houve uma série de teorias de conspiração em torno não apenas da eficácia das vacinas produzidas e distribuídas pela Pfizer, mas também da ética da empresa ao longo dos anos em que ela fabricava vacinas para várias condições de saúde em diversos cantos do mundo. O objetivo do texto é discorrer brevemente sobre a questão da ética nos estudos de vacinação pela Pfizer usando o caso popular da experiência fracassada da empresa na Nigéria, onde uma medicação experimental para meningite foi testada em crianças do país no ano de 1996.

 Os processos contra a empresa farmacêutica baseou-se no argumento que a droga trovafloxacina era usada para tratar 100 crianças, e uma dose baixa de ceftriaxona para tratar um grupo comparador de 100 crianças com meningite cujo resultado terminava em morte, surdez ou mudez ou dano cerebral de alguns (LENZER, 2007). Cinco das crianças que receberam trovafloxacina morreram, junto com seis que receberam ceftriaxona. Em sua defesa, Pfizer afirmou que o estudo clínico foi “conduzido com o pleno conhecimento do governo nigeriano de forma responsável e ética, consistente com o compromisso permanente da empresa com a segurança do paciente”. Porém, à medida que o caso se desenvolvia percebeu-se que o experimento foi realizado sem levar em consideração esses pilares, pois havia inconsistências nas informações que a empresa Pfizer divulgou ao governo nigeriano em comparação com o que foi divulgado ao governo americano que também participou dos estudos de vacinação. Além disso, a equipe da Pfizer emitiu formulários de consentimento aos pais de filhos com menor idade sendo consciente que a maioria dos adultos não foram alfabetizados e que tinham proficiência limitada da língua inglesa. 

Alguns meses após o acontecido na Nigéria, o pedido de aprovação  para o uso da trovafloxacina no tratamento de doenças infecciosas pediátricas foi negado pela Administração de Medicamentos e Alimentos  (na sigla em inglês FDA) nos Estados Unidos devido a inconsistências encontradas no relatório de vacinação em Kano, Nigéria feito alguns meses antes. Embora a Pfizer tenha alegado que o procedimento foi realizado de maneira honesta, os relatórios mostraram que nenhum exame de acompanhamento foi realizado depois. 

Além das questões de ética, a controvérsia em torno da Pfizer despertou perguntas a respeito do racismo estrutural e medical. Não tem dúvida, então, que quando a vacina Pfizer COVID-19 foi lançada, os residentes de Kano Nigéria tinham desconfiança e medo de aceitar o que pode muito bem ser mais um dos experimentos fatais da empresa farmacêutica. Violações éticas não são incomuns entre grandes grupos farmacêuticos. Segundo o ex-diretor do Centro de Bioética da Universidade da Pensilvânia, Arthur Caplan, às vezes eles [as empresas farmacêuticas) vão [para esses países de terceiro mundo ou em desenvolvimento] porque a doença está concentrada nesse lugar. Às vezes, eles vão porque é mais barato e mais fácil receber aprovação para realizar experimentos médicos desse tipo” (WILLYARD, 2007). 

No entanto, são justificativas como essas que exacerbam um problema já crescente. Deve ser proibido estudos de vacinação ilícitos em zonas onde há maior concentração de uma epidemia.  A ausência de burocracia nos estados do terceiro mundo não justifica o abuso e exploração daquela população. Presentemente, os avanços na ética médica obrigam as instituições farmacêuticas e médicas a se responsabilizar pelo processo todo de fabricação e desenvolvimento das vacinas para garantir a sua eficácia antes de serem administradas às populações vulneráveis.

REFERÊNCIAS

LENZER, JEANNE. Nigeria files criminal charges against Pfizer. BMJ, v. 334, n. 7605, p. 1181.1-1181, 2007. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1889962/>. Acesso em: 16  nov.  2021.

WILLYARD, CASSANDRA. Pfizer lawsuit spotlights ethics of developing world clinical trials. Go.gale.com. Disponível em: <https://go.gale.com/ps/i.do?id=GALE%7CA192447299&sid=googleScholar&v=2.1&it=r&linkaccess=abs&issn=10788956&p=AONE&sw=w&userGroupName=anon%7E4a8424bb>. Acesso em: 17  nov.  2021.

WISE, JACQUI. Pfizer accused of testing new drug without ethical approval. PubMed Central (PMC). Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1119465/>. Acesso em: 17  nov.  2021.

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