Estamos no momento certo para retomar as aulas presenciais?, de Guilherme Affonso Salles Pereira

28/09/2021
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Era sexta feira, 13 de março de 2020, quando mais de 120 mil alunos de graduação da UNESP, USP e UNICAMP receberam o comunicado oficial do Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (CRUESP) informando que, a partir da semana seguinte, as aulas presenciais seriam suspensas na tentativa da contenção da pandemia do Covid-19. Nesta data, o estado de São Paulo contabilizava 56 casos confirmados da doença.

Com o comunicado, cada unidade da Universidade de São Paulo teve certa autonomia para decidir os próximos passos. Algumas enviaram, aos seus alunos, formulários para entender a situação de cada um e a viabilidade de seguir de forma remota as aulas. Os resultados foram diferentes e específicos para cada unidade e, enquanto umas decidiram rapidamente que seguiriam de forma remota, outras optaram por paralisar completamente as aulas até que a situação fosse resolvida. Entretanto, a situação que, inicialmente, dava esperanças de ser superada em poucas semanas foi se esticando, passando meses, até que todos os cursos precisaram se adaptar -o máximo possível- e continuar as aulas de forma online. 

Hoje, 18 meses depois, a grande maioria dos cursos seguem de forma 100% à distância. Porém a situação mudou bastante se comparada ao início. Não são mais 56 casos, mas sim mais de 4,3 milhões, que resultaram em quase 150 mil vidas perdidas. Boa parte dos alunos que precisaram voltar para as casas de suas famílias não mais possuem contrato de locação na cidade em que estudam e isso dificulta a volta rápida, caso fosse necessária. 

Por outro lado, a vacinação, esperança para o retorno à vida pós-pandêmica, avançou. No estado de São Paulo, 66% da população adulta já foi vacinada com as duas doses e, com isso, a reitoria da USP divulgou, em agosto, um cronograma para a volta gradual às atividades presenciais em seus campi. 

Podemos fazer um paralelo com as universidades ao redor do mundo para analisar, comparadamente, essa situação. Em Harvard, por exemplo, foi anunciado que as aulas presenciais voltariam no início do ano letivo, em agosto e, um mês depois (momento em que esse post está sendo escrito), os EUA possuem apenas 55% de sua população totalmente vacinada. Na Rússia, as aulas nas universidades também retornaram em Setembro e os totalmente vacinados representam, hoje, menos de 30%. Outros países como Bélgica, Índia e Israel também já retornaram às atividades presenciais. 

Entretanto, por mais que o andamento da vacinação no estado de São Paulo esteja superior a maioria desses países, o retorno às aulas foi muito criticado por boa parte dos alunos da USP. Pensando nisso, o Diretório Central dos Estudantes (DCE Livre da USP “Alexandre Vannucchi Leme”) organizou uma pesquisa com os alunos da universidade para entender melhor sobre a situação de cada um, como eles se sentem em relação à segurança na volta às aulas e, por fim, se pensam ser ou não o momento ideal para isso. 

No dia 17 de setembro, foi divulgado o resultado dessa pesquisa, e a conclusão foi de que o medo da contaminação, falta de recursos e a falta de estrutura das unidades estão entre os principais motivos para que os discentes não apoiem a volta às aulas no ano de 2021. Além disso, outro resultado da pesquisa foi que a volta às aulas no momento, somado a tudo que isso acarretaria, afetaria fortemente e negativamente a saúde mental dos estudantes. 

Esse resultado é devido a alguns fatores, como ser necessário levar em consideração que milhares de alunos da universidade não moram no estado de São Paulo e que a taxa de totalmente vacinados no Brasil cai para 38,5%, sendo uma taxa longe do ideal exigido para a volta em segurança das atividades cotidianas presenciais. Além disso, muitos estudantes e suas famílias sofrem financeiramente com a pandemia, dificultando ainda mais sua manutenção em outra cidade e, muitas vezes, em outros estados.

Portanto, levando em consideração os números da vacinação no país, o resultado da pesquisa feita com os estudantes e as condições socioeconômicas dos mesmos, concluímos que ainda não é o momento ideal para a volta às aulas presenciais com segurança. 

Referências

Cruesp divulga comunicado sobre suspensão das aulas a partir de 17/03. Disponível em: https://jornal.usp.br/institucional/cruesp-divulga-comunicado-sobre-suspensao-das-aulas-nas-universidades-a-partir-de-17-03/

USP e Unesp suspendem aulas a partir de 17 de março após avanço do coronavírus. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2020/03/13/usp-e-unesp-suspendem-aulas-a-partir-de-17-de-marco-apos-avanco-do-coronavirus.ghtml

Estado de SP atinge 60 milhões de doses de vacinas contra a Covid-19 aplicadas; 66% da população adulta já tomou a 2ª dose. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2021/09/20/estado-de-sp-atinge-60-milhoes-de-doses-de-vacinas-contra-a-covid-19-aplicadas-66percent-da-populacao-adulta-ja-tomou-a-2a-dose.ghtml

Harvard retoma aulas presenciais e receberá maior turma da história. Disponível em: https://www.estudarfora.org.br/harvard-maior-turma-aulas-presenciais/

Statistics and Research Coronavirus (COVID-19) Vaccinations. Disponível em: https://ourworldindata.org/covid-vaccinations?country=USA

Escolas e universidades retomam aulas presenciais em vários países. Disponível em: https://www.dn.pt/internacional/escolas-e-universidades-retomam-aulas-presenciais-em-varios-paises-14079927.html

Portaria GR Nº7670, de 12 de agosto de 2021. Disponível em: http://www.leginf.usp.br/?portaria=portaria-gr-no-7670-de-12-de-agosto-de-2021-2

Relatório da pesquisa sobre o retorno presencial na USP. Disponível em: https://drive.google.com/drive/folders/1q3Ce3PZMRf68JoTO98fYuRub-Iym-Ont

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Gabriel Alegria dos S. Reis
25 dias atrás

Acho que há espaço para um debate interação em termos de cultura de saúde e diversidade dos impactos socioeconômicos da pandemia a partir dos países apontados. Com um índica vacinal significativo, é visível uma apreensão dos estudantes da Universidade de São Paulo – e, suporia, de muitas das universidades públicas brasileiras – em retornar aulas presenciais, mesmo que elas já tenham retornado em parte ou em totalmente em várias regiões do mundo. Existe, naturalmente, um claro elemento econômico e geográfico em jogo, na medida em que o corpo discente da USP tem um caráter profundamente desagregado, com estudantes de diversas origens ao redor do país, o que faz com que um retorno no meio de um semestre ativo seja uma experiência difícil e custosa. Mas, a nível pessoal, creio haver um relevante elemento de saúde em jogo, uma apreensão com a possibilidade de retorno neste momento. É curioso contrastar tal postura com a que podemos ver nos Estados Unidos, na Europa Ocidental, em Israel ou na Rússia, como você bem apontou. É curioso questionar se, além de profundas diferenças socioeconômicas, há também uma diversidade cultural em jogo.

Daniel Rodrigues Freire Mota
18 dias atrás

Torna-se essencial debater sobre a origem de um medo ainda persistente de volta às aulas presenciais no atual estado sanitário. Em uma sociedade no qual ocorre uma clara discrepância de rendas entre as classes sociais acompanhadas de um sistema de saúde bastante desgastado devido ao desmonte governamental atual, a preocupação de infecção, acompanhada do surgimento de variantes que representam maiores possibilidades de se contrair a doença, se torna justificada pelos cuidados diferenciados recebidos. Também torna-se notório o receio gerado ou ao menos intensificado de estabelecer relações sociais mais próximas, como se em uma dualidade de vontades que se tornam cada vez mais imprecisa como o futuro que nos aguarda. Diante de tantos receios, como sobre condições financeiras, sociais e sanitárias, a vontade primordial, antes de tudo, é sobreviver.

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