Crise silenciosa: A persistência dos casos de Malária na região Amazônica, de Bianca de Oliveira

17 novembro 2021

Crise silenciosa: A persistência dos casos de Malária na região Amazônica, de Bianca de Oliveira

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A malária é uma doença não contagiosa, transmitida pelo mosquito Anopheles. A enfermidade possui relativa facilidade de cura. Seu tratamento é feito por regime ambulatório, com a prescrição de comprimidos. Um diagnóstico tardio em estágios avançados da doença, contudo, poderá levar a graves sequelas ou óbito. Apesar do já estabelecido conhecimento da doença, a malária continua a vitimizar milhares de pessoas todos os anos. Apenas em 2019, houve 419 mil mortes pela doença no mundo. Sua disseminação concentra-se em regiões tropicais de baixos índices de desenvolvimento social. No Brasil, a área mais afetada é a região Amazônica (99,9%), em especial as zonas rurais e aldeias indígenas (86% dos casos).

A malária pertence à um grupo de enfermidades denominadas de “doenças negligenciadas”; ou seja, doenças com controle tangível, mas que continuam persistentes em regiões pobres devido às más condições de saneamento básico, difícil acesso a saúde e descaso dos governos quanto a medidas profiláticas. Nos estados brasileiros com maior transmissão, Acre, Amazonas, Amapá, Pará, Rondônia e Roraima, 15% dos municípios prioritários no “Brasil sem miséria”, classificação feita a partir do o IDH, são também prioritários no combate a infecção por malária. (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2020). Segundo o médico parasitologista Marcelo Urbano Ferreira, em entrevista para a BBC, o combate à doença na Amazônia é de maior dificuldade por conta da abundância de mosquitos vetores e da dispersão da população.

Ferreira ainda aponta razões que extrapolam as características geográficas. Uma análise histórica da doença no país revela que, na década de 40, a Malária era presente em todo o território brasileiro, “segundo publicações de Barros Barreto, a estimativa era em torno de 6 milhões de casos de malária”, (TAUIL, 1985). Em 1960, a porcentagem de casos da doença em territórios extra-amazônicos no país variava entre 50,8% e 64,0%. A situação inverteu-se a partir da Campanha de Erradicação da Malária (CEM), com excelentes resultados na área externa à Amazônia. Em um movimento contrário, houve o aumento de casos no norte do país, sobretudo com o processo de rápida ocupação da região na década de 70, incentivados por programas governamentais como SUDAM (Superintendência para o Desenvolvimento da Amazônia) e a SUFRAMA (Superintendência da Zona Franca de Manaus). Uma das principais razões para esse aumento foi o desconhecimento da população migrante sobre a doença, que continuava com contaminação suscetível na região.

A partir de 2006, houve uma considerável diminuição dos casos após a utilização de tratamentos derivados de artemisinina. Esse declínio, contudo, continua aquém de um controle efetivo da doença, sofrendo, ainda diversas oscilações. Em 2017 a doença voltou a crescer, em uma taxa de 48% superior a 2016. A principal causa, segundo reportagem da BBC, é a fragilidade do programa de combate à Malária. Para o médico epidemiologista Pedro Tauil, o afrouxamento do controle da doença antes de sua erradicação leva ao aumento dos casos. Ainda, André Siqueira, médico do Fiocruz, em entrevista para Mongabay Brasil, reforça que a prevenção é essencial para o controle da enfermidade, “O que ocorre hoje é que normalmente são criados postos de testagens nas comunidades ribeirinhas ou regiões com surto, mas logo após a diminuição dos casos estas unidades são fechadas. O ideal seria manter os sistemas funcionando”.

Contribuindo também para o crescimento dos casos, está a pouca visibilidade das comunidades vítimas da doença. Grande parte da população afetada reside em zonas rurais e em comunidades indígenas afastadas, com pouco poder de reinvindicação política. Com isso, o controle da malária muitas vezes é colocado em segundo plano pela agenda de saúde pública, que prioriza problemáticas urbanas. Em 2016, por exemplo, o surto de dengue, Zika e Chikungunya, com grande apelo midiático, foi priorizado na política pública, contribuindo para o aumento dos casos de Malária no ano seguinte (ROSSI, 2018). Outro fator a ser considerado é o garimpo ilegal em regiões endêmicas, sobretudo próximas a terras indígenas. Após o término do uso de poços para a extração de ouro, a infraestrutura abandonada serve como local ideal para a reprodução do mosquito. A atividade ilegal foi apontada como a principal causa para o grande surto de malária em Jacareacanga, Pará, entre 2019 e 2020. Somente entre janeiro e abril de 2020, o desmatamento em virtude da mineração em unidades de conservação amazônica quase dobrou em comparação ao mesmo período do ano anterior (ANDRADE; BISPO; POTTER, 2020).

Sendo assim, a endemia de malária na região amazônica, muito além de causas geográficas, persiste por conta da precariedade de seu programa de combate que, não só é preterido na agenda de políticas públicas, é centralizado no tratamento da doença em detrimento de sua prevenção. Ainda, a pouca visibilidade das comunidades afetas e sua vulnerabilidade ao garimpo ilegal contribui para o quadro de uma crise silenciosa que, fora dos alarmes midiáticos e da pressão política, vitimiza milhares de brasileiros.

Referências

ANDRADE, Eduardo; BISPO, Fábio; POTTER, Hyuri. Mineração ilegal contribui para surto de malária em terras indígenas no Pará. Mongabay, [S. l.], p. única, 25 nov. 2020. Disponível em: https://brasil.mongabay.com/2020/11/mineracao-ilegal-contribui-para-surto-de-malaria-em-terras-indigenas-no-para/. Acesso em: 10 nov. 2021.

CLIMA INFO. Garimpo provoca surto de malária entre indígenas na Amazônia. Clima info, [S. l.], p. única, 17 ago. 2020. Disponível em: https://climainfo.org.br/2020/08/17/garimpo-provoca-surto-de-malaria-entre-indigenas-na-amazonia/. Acesso em: 10 nov. 2021.

HINRICHSEN, Sylvia. Como é feito o tratamento da Malária. Tua Saúde, [S. l.], p. única, 1 out. 2021. Disponível em: https://www.tuasaude.com/tratamento-da-malaria/. Acesso em: 10 nov. 2021.

MINISTÉRIO DA SAÚDE. Malária. Governo federal, [S. l.], p. única, 16 nov. 2020. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/m/malaria. Acesso em: 10 nov. 2021.

ROSSI, Amanda. Por que os casos de malária cresceram 50% no Brasil após 6 anos de queda. BBC News Brasil, [S. l.], p. única, 4 maio 2018. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-43998843. Acesso em: 10 nov. 2021.

SANTELLI, Ana; DAMASCENO, Camila; PETERKA, Cassio; MARCHESINI, Paola. Plano de eliminação de malária no Brasil. Saúde.gov.br, [S. l.], p. única, 28 abr. 2021. Disponível em: https://portalarquivos2.saude.gov.br. Acesso em: 10 nov. 2021.

SANTOS, Maria. O panorama da malária no Brasil e no mundo: Organização Mundial da Saúde aponta avanços e desafios no combate à malária. Trazemos a situação geral e o que fazer para reduzir a transmissão e mortes. Veja Saúde, [S. l.], p. única, 28 abr. 2021. Disponível em: https://saude.abril.com.br/medicina/o-panorama-da-malaria-no-brasil-e-no-mundo/. Acesso em: 10 nov. 2021.

SILVA, Júlio César Lázaro da. “História Econômica da Região Norte: do Século XX aos Dias Atuais”; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/brasil/historia-economica-regiao-norte-seculo-xx-aos-dias-atuais.htm. Acesso em 15 de novembro de 2021.

Tauil, Pedro et al. A malária no Brasil. Cadernos de Saúde Pública [online]. 1985, v. 1, n. 1 [Acessado 15 Novembro 2021] , pp. 71-111. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/S0102-311X1985000100009>. Epub 19 Abr 2006. ISSN 1678-4464. https://doi.org/10.1590/S0102-311X1985000100009.

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