Covid-19 e a cegueira da atualidade, de Ammanda Costa

06/09/2021
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Este texto contém spoilers.

Em 1995, José Saramago publicou a obra “Ensaio sobre a cegueira”, contando a história de uma epidemia de “mal branco”, que cegava todos aqueles que fossem infectados. Vivendo em meio à pandemia do Covid-19, 26 anos depois da publicação do livro, é praticamente impossível ter contato com a obra sem relacioná-la à realidade atual: muitas das críticas feitas por Saramago à condução da epidemia podem ser aplicadas à situação em que vivemos hoje. Entre os pontos levantados pela obra, acredito que exista uma constante, que planejo destacar nesse breve texto: a priorização do bem-estar pessoal ao bem-estar coletivo.

No início da obra, quando o número de pessoas infectadas com o mal branco ainda era bastante reduzido, é notável a falta de empatia e cuidado da sociedade para com elas. Os infectados eram reunidos e colocados em um espaço isolado – um manicômio vazio – sem contato com o mundo exterior nem suporte algum de autoridades ou outras organizações da sociedade. Durante a pandemia atual, o descaso com os doentes foi muito comum em alguns países – no Brasil, não se pode esquecer que o presidente se referiu à pandemia como “uma gripezinha” e chegou a ironizar o número de mortes, com frases como “eu não sou coveiro” e “a gente lamenta todos os mortos, mas é o destino de todo mundo”. Mais que afirmações polêmicas, o desinteresse em medidas como a adoção de lockdowns e a compra de vacinas foram medidas representativas dessa falta de cuidado com a população, que ativamente levaram a inúmeras infecções e mortes que poderiam ter sido evitadas.

No decorrer do livro, é possível ver como, mesmo vivendo a adversidade que assola toda a sociedade naquele momento, ainda existem aqueles que preferem tentar explorar outros em vez de contribuir para uma organização mais igualitária e benéfica à comunidade. No manicômio, alguns dos cegos se organizam para roubar os outros e controlar toda a comida que era recebida, além de abusar das mulheres que lá estavam. Em nossa realidade atual, acredito que essa exploração não seja tão escancaradamente agressiva, mas ela está, sem dúvidas, presente. Um exemplo é o fato de que a crise econômica em que o mundo como um todo se inseriu serviu como instrumento para o aumento da concentração de riquezas em poucas mãos: enquanto mais de 200 milhões de pessoas em todo o mundo entraram na pobreza durante a pandemia, até julho deste ano, os bilionários aumentaram sua riqueza em mais de 5.5 trilhões de dólares. Vemos, aqui, o princípio de impedir que recursos sejam melhor distribuídos a favor de beneficiar uma parcela específica da população.

Mais adiante na obra, é notável o estado de caos generalizado em que a sociedade se encontra com a evolução da doença. Felizmente, a pandemia do Covid-19 não nos trouxe a uma situação tão apocalíptica quanto a mostrada no Ensaio; mas ainda é interessante ver como a obra apresenta os esforços empreendidos pelas pessoas em manter sua sobrevivência, mesmo em um mundo tão desordenado. Aqui, num mundo onde todos estão doentes, o egoísmo continua presente: a vizinha de uma das personagens, por exemplo, cria galinhas e não as divide com o grupo, quando ele a encontra. No entanto, surge uma reflexão: essas ações são, sim, uma priorização do individual ao coletivo, mas há algo mais que pudesse ser feito pela comunidade? Se todas as galinhas acabassem, o que os personagens poderiam fazer para encontrar comida depois? Se todas as vacinas excedentes em países ricos fossem doadas, o risco de faltar não continuaria existindo? É justo priorizar a si mesmo quando não é possível garantir que as necessidades de todos serão satisfeitas?

Acredito que em situações tão adversas quanto a que vivemos atualmente é possível ver certa solidariedade: hoje, existem diversas iniciativas coletivas para lidar com a pandemia, como a organização comunitária feita em Paraisópolis (que acabou sendo prejudicada pela falta de recursos), ou até mesmo as ações de conscientização de indivíduos nas redes sociais, como o PFF para Todos. Mas os interesses individuais quase sempre ficam em primeiro plano na lista de prioridades, seja em escala pessoal ou nacional, e isso não me dá muita esperança para um futuro colaborativo, em que a cooperação seja a regra. Na obra de Saramago, a epidemia de cegueira chega ao final da mesma forma em que teve seu início: sem aviso prévio, cada um dos personagens do livro vai ganhando sua visão de volta. A alegria em ter de volta a parte da vida que tanto fazia falta é contagiante, mas a mulher do médico nota que isso não significa que a humanidade tenha sido transformada – sua última fala é “Penso que não cegamos, penso que estamos cegos; cegos que, vendo, não vêem”. Infelizmente, acredito que esse também seja nosso caso na pandemia atual.

Referências:
BECHARA, Victoria. Além da covid-19, moradores de Paraisópolis convivem com fome e desemprego. https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2021/03/18/alem-da-covid-19-m
oradores-de-paraisopolis-convivem-com-fome-e-desemprego.htm>

COLLINS, CHUCK. Global Billionaires See $5.5 Trillion Pandemic Wealth Surge. https://ips-dc.org/global-billionaires-see-5-5-trillion-pandemic-wealth-surge/
FOLHA DE SÃO PAULO. Relembre o que Bolsonaro já disse sobre a pandemia, de gripezinha e país de maricas a frescura e mimimi. https://www1.folha.uol.com.br/poder/2021/03/relembre-o-que-bolsonaro-ja-disse-sobr e-a-pandemia-de-gripezinha-e-pais-de-maricas-a-frescura-e-mimimi.shtml>
GIRO LATINO. Coronavírus na América Latina: levantamento semanal (28/8/21-3/9/21). https://girolatino.substack.com/p/coronavirus-na-america-latina-levantamento-24d
PANCINI, Laura. Site “PFF Para Todos” mostra que máscara que protege também é acessível.

SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira. 19a . ed. São Paulo: Cia. das Letras, 2001.
STRAUSS, Daniel. Get the vax, win a shotgun: US states get creative to encourage vaccination.

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Elizeth Lopes Pinheiro
15 dias atrás

Excelente texto Ammanda, os pontos que você abordou também me lembram muito sobre o dilema do prisioneiro e o efeito carona que é apresentado tanto em ciência política quanto economia, o que já demonstra um pouco do caráter do tema. A cooperação e a solidariedade trazem ganhos para todos, mas o egoismo e a individualidade trazem ganhos maiores para alguns e piores para outros. Acredito que esta é uma posição que existe principalmente no sistema capitalista em que vivemos, mas para além disso, exemplos como o que você trouxe (Paraisópolis) demonstram que essa atitude individualista não é natural e inata, então há esperança de que a cegueira dá para ser combatida.

Beatriz Lalli
13 dias atrás

Ammanda, achei sua comparação muito precisa e pertinente. José Saramago, não só em “Ensaio sobre a cegueira”, mas também em “Intermitências da morte” (que são livros, pra mim, muito parecidos) denunciam a engrenagem do estado em se abastecer, até certo ponto, da morte e da doença, que afinal de contas, são coisas da vida humana para as quais a sociedade se adapta. Mas quando sujeitas a uma situação como você coloca, de caos apocalíptico, ou de extremo terror, os limites da humanidade, do egoísmo, da capacidade estatal são todos colocados à prova. Acho interessante como você dialoga com a banalização da morte e da doença por parte de Bolsonaro e como isso fica em evidência no livro que você discute. Conscientemente, essa cegueira, é causa e consequência da desigualdade e da concentração de renda que aumenta.

Last edited 13 dias atrás by Beatriz Lalli
Guilherme Affonso Salles Pereira
10 dias atrás

Infelizmente, Ammanda, concordo com sua visão. Mas acredito que o problema do individualismo venha de bem antes da pandemia. Desde muito tempo atrás (pra não dizer sempre), milhares de pessoas morrem por dia por não ter o que comer, enquanto toneladas de alimentos são jogados fora por pessoas e países que tem alimento de sobra. Acho que a pandemia de COVID-19 é só mais um exemplo de que um mundo realmente cooperativo, que busque o bem de todos é, ainda, bastante utópico.

Renata Quadros
9 dias atrás

Ótima reflexão! Achei a comparação muito pertinente e gostei muito da forma que abordou sobre o tema da indiferença de alguns frente a pandemia. É muito claro muitas pessoas fora do grupo de risco da doença não se sentem na responsabilidade de conter e prevenir o vírus e entendem que os direitos e deveres, em um momento como esse, não se aplicam igualitariamente para todos os grupos. No entanto, a gente sabe que esse tipo de pensamento é prejudicial para saúde publica e coletiva.
Por outro lado, milhões de pessoas se dedicam diariamente para a segurar melhores condições para aqueles acometidos pelo vírus. Não apenas profissionais, que trabalham diretamente com os doentes, mas também engenheiros que trabalham para elaboração de hospitais e máquinas respiratórias, cientistas que trabalham por uma cura, garis que trabalham para a cidade possa continuar funcionando.
Essa discrepância na atitude se dá porque o valor da pessoa humana é percebido de formas diferentes.

Deisy Ventura
9 dias atrás

Boa ideia, Ammanda, de pensar a Covid-19 a partir de uma obra literária, focando em um recorte específico. O ensaio sobre a cegueira, e outras obras notáveis como A Peste de Camus, foram e ainda são muito lembradas neste período de pandemia. Assim, creio que o post ganharia muito se a especificidade do comentário, que é o individualismo, fosse aprofundada em relação ao contexto vivido hoje que pretendes explorar por meio da alusão à obra de Saramago. Um dos caminhos para isto, por exemplo, seria questionar o fato de que nós conhecemos as circunstâncias da infecção e como evitá-la, o que não era o caso da obra. O que isto muda na análise da perspectiva individualista? Outro caminho seria pensar que, no caso da pandemia atual, o individualismo, além de tudo o mais, nos torna ainda mais vulneráveis, pois esta doença só pode ser controlada coletivamente.

Juan Perroni
9 dias atrás

Ammanda, gostei muito do uso dessa obra de Saramago, um livro que não conhecia, mas que pretendo ler. Creio que ações voluntárias não são suficientes para conter o agregado – precisamos da política para coordenar ações determinantes. Inclusive por ela podemos calibrar nosso espírito, se mais solidário ou individualista, problema do qual o Brasil sofre miseravelmente. Mesmo assim, é de emocionar ver casos de organização e solidariedade que floresceram na pandemia, como as cozinhas populares do MTST, por exemplo, que estão tendo uma cobertura cada vez maior pelos territórios.

Natan Zanini Falconi
9 dias atrás

Muito interessante o seu texto, Ammanda! É realmente impossível ler Ensaio sobre a Cegueira e não associá-lo à pandemia de Covid-19. Eu acredito que uma reflexão muito importante que o livro nos traz e que se aplica muito bem à situação atual é o fato de que tanto a “treva branca” quanto a Covid-19 não trazem nada de novo, apenas revelam e escancaram os enormes problemas da nossa sociedade e, por que não dizer, da forma como lidamos com a Saúde Global historicamente. Muito se fala sobre o vírus, hospitais e vacinas, mas pouco se fala sobre saneamento básico, condições de trabalho e desigualdade social, elementos estes que, se recebessem o devido investimento e atenção, poderiam ter poupado a vida de tantas pessoas em várias partes do mundo. Acredito também que, assim como no livro, um dos nossos maiores desafios será como reorganizar politicamente uma sociedade em que todos ficaram cegos – literalmente ou não.

Maria Antônia Nina Iki Moraes
9 dias atrás

Ammanda, ótimo texto, não conhecia a obra de Saramago mas fiquei curiosa para ler. A parte em que abordou a desigualdade – tanto econômica quanto sanitária – me lembrou de uma matéria que li semana passada, sobre o ritmo de vacinação em países pobres. O texto apontava que somente 2% da população dos 27 de mais baixa renda foi imunizada com uma dose da vacina. Além disso, 80% dos imunizantes foram destinados a países de média e alta renda, evidenciando mais uma vez a distribuição desigual da vacina, um instrumento muito importante para combater a pandemia, que afetou praticamente todo o mundo e que só pode ser controlada de uma maneira também global. Esse ponto é inclusive levantado pelo diretor da OMS, dado que o atraso na vacinação potencialmente atrasa o fim da crise.

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