Aquecimento Global: encarando o futuro inevitável, de Maria Antônia Nina Iki Moraes

23 agosto 2021

Aquecimento Global: encarando o futuro inevitável, de Maria Antônia Nina Iki Moraes

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As características do meio ambiente e as condições de vida dos seres humanos estão intrinsecamente relacionadas. Tanto é que a vida só pôde se desenvolver na Terra depois de mudanças específicas ocorrerem na temperatura e pressão do planeta: o resfriamento do globo permitiu que se formassem os primeiros oceanos, onde surgiu o primeiro organismo vivo. As alterações na temperatura global, no entanto, não são um traço particular de 3,5 bilhões de anos atrás. Hoje, uma das maiores crises enfrentadas pela sociedade internacional está relacionada ao aumento da temperatura terrestre, fenômeno conhecido como aquecimento global.

Nesse comentário, meu objetivo é não somente enfatizar as consequências do aquecimento global para o meio ambiente, mas, principalmente, evidenciar as maneiras como a saúde humana é impactada pelos desastres ligados ao aquecimento terrestre. Essa pauta tem sido levantada há décadas por vozes proeminentes, mas levou certo tempo para ser incorporada de maneira séria nas agendas políticas pelo mundo. Noticiar os efeitos do aumento da temperatura para os oceanos e florestas mostrou-se uma estratégia, por vezes, fraca no sentido de mobilizar a sociedade global em torno dessa questão, uma vez que essas consequências não parecem afetar diretamente a vida de cada um. Por esse motivo, considero importante apontar como a deterioração do meio ambiente atinge também os seres humanos individual e coletivamente, principalmente no que diz respeito aos sistemas de saúde e às crises humanitárias.

Em entrevista sobre o assunto, a consultora da organização Médico Sem Fronteiras fala sobre como os eventos climáticos extremos causados pelo aquecimento global têm o potencial de agravar e também criar novas situações de vulnerabilidade do ponto de vista da saúde pública. Enchentes causadas por chuvas intensas podem, por exemplo, facilitar a propagação de doenças contagiosas que são transmitidas pela água e, ao mesmo tempo, dificultar o acesso físico a hospitais e postos de saúde. A poluição do ar, causada pela concentração das mesmas substâncias que agravam o efeito estufa, também representa um facilitador para contração de doenças respiratórias e aumenta o risco do desenvolvimento de câncer de pulmão. Em situações ainda mais extremas, vemos números alarmantes de fatalidades causadas por desastres ambientais.

O aumento da temperatura terrestre também pode representar um risco à saúde humana ao afetar a produção de alimentos, facilitar a ocorrência de incêndios, quando combinado ao agravamento das secas, e, mais diretamente, levar à morte por calor.  Em junho desse ano, temperaturas inéditas na casa dos 50 graus celsius atingiram o Canadá, provocando mais de 100 mortes. Um estudo da Universidade de Berna mostrou que, de todas as mortes registradas entre os anos de 1991 e 2018 em decorrência do calor, 37% foram atribuídas ao aquecimento global.

Esses efeitos são mais expressivos em regiões do mundo onde a infraestrutura é mais precária, mas não estão limitados a elas. Recentemente, a CBS noticiou a enchente mais fatal da história da Alemanha. Na reportagem, uma mulher comenta as mais de 120 mortes dizendo que “se espera que as pessoas morram em enchentes em países pobres, mas não na Alemanha”. A insensibilidade de sua observação revela como, ironicamente, os moradores de países centrais do sistema internacional ainda se vêem distantes das consequências de um fenômeno que não se restringe aos Estados de acordo com seu contexto econômico e político. Colocando em outras palavras, os determinantes sociais da saúde não são os responsáveis exclusivos por aumentar os fatores de risco à saúde de uma população, senão agravantes, quando se leva em consideração que os desastres climáticos são globais.

Assim como o acesso universal à saúde representa uma iniciativa que exige políticas públicas globais, o esforço para frear o avanço do aquecimento global deve ser conjunto e internacional, dado que não é um problema restrito apenas a uma região geográfica. No entanto, muitos governantes optam por politizar a questão, chegando, inclusive, a negar fatos comprovados cientificamente e a contestar a veracidade do fenômeno – os ditos negacionistas. Expoente marcante desse grupo, o ex-presidente Trump, ao receber um relatório descrevendo as alterações climáticas nos Estado Unidos e seus potenciais efeitos econômicos, limitou-se a responder que não acreditava no documento. Para chegar ao objetivo de formular uma agenda global que mitigue os efeitos do aquecimento global tem de se superar não somente a dificuldade de elaborar uma solução viável para o problema, mas também encontrar uma maneira de convencer de que fatos são fatos.

Para concluir, gostaria de reforçar que o aquecimento global é um resultado direto da atividade poluidora de grandes corporações e indústrias como um todo, e que não acredito no argumento de que sua geladeira é a verdadeira responsável pelo aumento de temperatura na Terra. No entanto, é importante entender o problema e a extensão de seus efeitos, uma vez que, num futuro cada vez mais próximo, teremos de saber como lidar com suas consequências e potenciais riscos para a nossa saúde no dia a dia.

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Nina Oliveira Schettino de souza
4 meses atrás

Ótima discussão, Maria. Sobre esse assunto, acho importante também falarmos sobre o conceito de “refugiados climáticos” e como a projeção da Organização Internacional para as Migrações da ONU (OIM) é de que, até 2050, o número desses refugiados chegará em 200 milhões de deslocados. Como você disse, “Esses efeitos são mais expressivos em regiões do mundo onde a infraestrutura é mais precária (…)”, então em situações mais extremas, onde é necessário se deslocar por conta das mudanças climáticas, os países mais vulneráveis acabam sendo os primeiros a sofrer as consequências. Além disso, o Comitê de Direitos Humanos da ONU já determinou que países não podem deportar pessoas que pedem refúgio por se sentirem ameaçadas pela crise climática em seus países de origem, pois, por essa poder causar consequências extremas, “as condições de vida em um país podem se tornar incompatíveis com o direito à vida com dignidade”.

Anna Beatriz Monteiro Vieira
4 meses atrás

Muito interessante essa reflexão, Maria! Ao ler o seu post, me lembrei do caso da Noruega, que ao mesmo tempo em que defende a importância da preservação do meio ambiente, investe grandes quantias de dinheiro em atividades mineradoras na Amazônia, as quais são extremamente prejudiciais. Tal situação pode ser relacionada com o seu apontamento de que os países centrais do sistema internacional se colocam como distantes da realidade das mudanças climáticas, da exploração da natureza e suas consequências, como se as tragédias e os efeitos negativos são e devem ser exclusivos aos países periféricos.

Raíssa Cortez
3 meses atrás

Olá Maria, muito bom e informativo o seu texto!
Quando eu o li, tinha acabado de ler o texto anterior sobre “Insegurança alimentar” e fiquei pensando como o tema “Aquecimento global” é um tema, pelo menos ao meu ver, muito mais citado tanto na mídia local quanto nas mídias internacionais. Por exemplo, quando se pensa em uma figura internacional que busca mobilizar a comunidade internacional acerca do aquecimento global, já se pensa em Greta Thunberg, até quem é negacionista. Diferentemente, em relação ao tema insegurança alimentar, não existe um grande nome conhecido pelo público. Não estou diminuindo a importância do tema, claramente, mas eu fiquei reflexiva quando você escreveu sobre as enchentes na Alemanha e como o aquecimento global é algo que atinge tantos países centrais quanto países periféricos. Claro que os segundos têm uma capacidade de resposta e infraestrutura infinitamente inferior e, por isso, as tragédias geram muito mais impacto nestes países. A própria imagem escolhida pelo monitor mostra a enchente ocorrida em um bairro de classe média alta na Alemanha, denotando como o problema atinge e atingirá cada vez mais os países centrais. Fico esperançosa em pensar que essa maior mobilização acerca do tema levará a passos mais concretos em relação a soluções para o problema por parte dos atores internacionais, mas também fica a reflexão de como fazer países centrais se mobilizarem sobre temas que não os atinge tão diretamente como a insegurança alimentar.

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