Antibióticos: Uso indiscriminado na indústria da carne e seus riscos, de Leticia Maria de Albuquerque Stefanini

16 novembro 2021

Antibióticos: Uso indiscriminado na indústria da carne e seus riscos, de Leticia Maria de Albuquerque Stefanini

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O uso de antibióticos é um dos mais controlados pela indústria farmacêutica, e não sem razão. Seu uso indevido, sem necessidade ou por tempo incorreto pode comprometer seriamente sua efetividade e criar uma bactéria mais capaz de resistir aos efeitos do medicamento. Por conta disso, sua aplicação é realizada com máxima responsabilidade, e seu acompanhamento é feito com grande interesse global. Em humanos, pelo menos. Ainda assim, com o passar das décadas, têm-se observado consideráveis aumentos na resistência de bactérias, crescimento que não é acompanhado pela produção de novos antibióticos. Um dado preocupante por si só, mas que se agrava com dados do uso excessivo que é feito, cada vez mais, em animais criados para abate.

Animais que servem para alimentação são criados em espaços reduzidos e aglomerados e, por conta disso, recebem doses de antibióticos regulares, não apenas para tratar infecções (como no caso humano) mas também para preveni-las, uma vez que infecções poderiam ser frequentes nesses ambientes. Além disso, os antibióticos também servem para aumentar o crescimento do animal e sua produtividade, sendo um instrumento poderoso para produzir mais carne de forma mais barata. Devido aos seus riscos, muitos países já baniram o uso de suas produções, mas ainda cerca de 60% de todo antibiótico já produzido é usado para este fim, sendo em sua maioria utilizada por países em desenvolvimento exportadores de commodities. No Brasil, não existem dados sobre a quantidade de antibióticos comercializada para uso veterinário, mas países que apresentam dados variam de 3 a 11 milhões de kg de antibióticos para este uso por ano.

Além do risco dos antibióticos agindo no sistema desses animais, outro problema é a contaminação ambiental que acontece a partir de suas excreções, alterando o ecossistema terrestre e aquático, e o descarte inadequado dos antibióticos não utilizados ou fora de validade. Atingindo o solo, ele pode ser contaminado e chegar até os cursos d’água — já são frequentemente encontrados pequenos resíduos de antibióticos no solo e em esgotos. Alemanha, Reino Unido e Coreia do Sul já estabeleceram políticas de prioridade no monitoramento desses fármacos devido a sua alta potencialidade de intoxicação ao meio ambiente.

Ainda não se conhece a fundo os efeitos da eco contaminação, já que isso dependeria do tipo de antibiótico, dose, e ambiente atingido, mas os efeitos prováveis seriam morte das espécies vegetais ou animais presentes ou absorção. Além disso, também não se pode ignorar o risco de novas bactérias resistentes, que já se tem evidências cada vez mais frequentes em ambientes naturais.

Faltam ainda muitas pesquisas independentes sobre o tema até que se possa compreender as condições reais dessa utilização, mas os riscos que se apresentam até o momento são suficientes como um alerta da necessidade de se repensar o comportamento humano com animais e o meio ambiente. Compreender sua dependência do meio ambiente e de outras espécies, assim como se entender como parte integrante dele, e não acima, será determinante para a sobrevivência da espécie humana nas próximas décadas.

Referências

Fair, R. J., & Tor, Y. (2014). Antibiotics and Bacterial Resistance in the 21st Century. Perspectives in Medicinal Chemistry, 6, PMC.S14459.

Regitano, J. B., & Leal, R. M. P. (2010). Comportamento e impacto ambiental de antibióticos usados na produção animal brasileira. Revista Brasileira de Ciência Do Solo, 34(3), 601–616.

Thapa, B. (2013). Antimicrobial resistance: a global threat. International Journal of Infection and Microbiology, 1(2), 41–42.

Van den Bogaard, A. (2000). Epidemiology of resistance to antibiotics Links between animals and humans. International Journal of Antimicrobial Agents, 14(4), 327–335.

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