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A tecnologia e a Saúde Global, de Mariana Piacentini Medeiros de Souza Brito

16 novembro 2021

A tecnologia e a Saúde Global, de Mariana Piacentini Medeiros de Souza Brito

Houve uma época no Brasil em que as pessoas tinham que se contentar com poucas opções de canais, que apresentavam um punhado de novelas, programas de auditório e telejornais. Esses canais saíam do ar durante a madrugada, deixando apenas chuviscos na tela, e ao encerrar a programação do dia o narrador dizia: “Faremos agora uma pequena pausa em nossa programação. Apenas o tempo necessário para você despertar para um novo dia, uma nova vida. Logo, estaremos juntos novamente.”, alertando que era o momento de priorizar o sono para seguir para uma nova manhã.

E assim foram os anos 1980 na TV brasileira, principal tecnologia para entretenimento na época. Foi nesse mesmo período que surgiu o primeiro computador pessoal, o Macintosh, e que começaram a surgir e se popularizar os jogos de videogame, e posteriormente os telefones celulares, chegando até os smartphones e tablets. De lá pra cá, a tecnologia começou a ficar cada vez mais acessível para uma grande parcela da humanidade, o que com certeza melhorou a vida de muitas pessoas. Entretanto, apesar desse acesso ter facilitado muitas vidas e trouxe uma fonte inesgotável de entretenimento, com uma rolagem de feeds de TikTok, Instagram e Youtube que nunca chega ao fim, essas formas de tecnologia têm sido grandes vilãs daquilo que é uma das funções básicas mais importantes para a saúde dos seres humanos: o sono.

Uma revisão sistemática de 36 estudos que investigou o uso de tecnologia em crianças, o uso eletrônico pode deslocar o sono, já que não há tempo de início ou fim fixo para uso eletrônico, como antes havia com as televisões que encerravam suas programações, fazendo com que muitos fiquem acordados madrugada adentro, e por consequência ou têm menos horas de sono do que o necessário ou acabam dormindo durante o dia.(Fuller et al; 2017)

Em outro estudo, onde foram analisados dados de 360 mil jovens estadunidenses, pesquisadores descobriram que, em 2015, cerca de 40% dos adolescentes dormiam menos de 7 horas por noite, quando o necessário é de cerca de 9 horas, o que representa um aumento de 59% da diminuição do sono se comparado à década anterior. Além disso, o estudo revelou que quanto maior foi o tempo de permanência on-line desses jovens, menor era a quantidade de sono registrada, já que aqueles que passaram 5 horas por dia conectados eram 50% mais propensos a não dormir o suficiente. (Twenge et al; 2017). 

 De acordo com os especialistas, a ligação entre as tecnologias e a má qualidade do sono, ou falta das horas suficientes de sono, está entre dois principais fatores. O primeiro é o aumento da excitação fisiológica, emocional e mental que os conteúdos consumidos em jogos e nas redes sociais logo antes da hora de dormir produzem nas pessoas. Já o segundo é que os comprimentos de onda de luz, em especial a radiação azul, diminuem a produção de melatonina, hormônio que controla o ciclo sono-vigília, nos deixando mais despertos justamente no momento que nosso corpo precisa relaxar.

Ao desequilibrar o horário de dormir ou diminuindo o número de horas de descanso, a tecnologia impacta diretamente o ciclo circadiano, que é o ciclo de 1 dia ao qual estamos expostos, e a partir dele, nossos processos fisiológicos são comandados para que nosso corpo consiga acordar, sentir fome, estar ativo, ficar com sono e assim por diante. Ele exerce influência em nossa pressão arterial, no nosso apetite, na temperatura corporal e nos hormônios que produzimos e liberamos na corrente sanguínea, afetando diretamente nosso metabolismo. Mais que afetar nosso humor ou nossa energia durante o dia, o ciclo circadiano pode nos predispor a situações que podem levar a doenças. A desarmonia dos hormônios que secretamos ao longo do dia, como cortisol, insulina e melatonina, se prolongada por meses ou anos, pode deixar nosso corpo vulnerável a doenças, desde infecções recorrentes, como gripes, até casos mais graves como doenças cardiovasculares e até câncer. Isso sem contar com os impactos de um sono ruim na saúde mental das pessoas, que vão desde uma menor capacidade de atenção, de memória e de aprendizagem, até transtornos como ansiedade, depressão ou transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH). Segundo muitos neurocientistas, como Eslen Delanogare, o simples fato de regular seu sono para dormir em certo horário durante a noite e ficar acordado durante o dia, pode auxiliar muito no tratamento da depressão, sendo que essa disfunção do ciclo circadiano é um dos fatores mais recorrentes entre quem sofre dessa doença.

Desta forma, a questão do impacto da tecnologia no sono, principalmente entre crianças e adolescentes, que estão mais vulneráveis a isso, é uma questão de saúde pública e global. Ao impactar o ciclo circadiano e deixar as pessoas mais vulneráveis a doenças como a obesidade, a pressão alta e problemas cardiovasculares, dentre outras, a falta de sono (e nos horários corretos) pode levar muitos no futuro aos serviços de saúde, e está levando muitos a sofrerem com depressão, ansiedade, entre outros transtornos. O poder público e os órgãos de saúde precisariam ter mais atenção com esses aparelhinhos que, apesar de terem facilitado a vida em muitos aspectos, estão implicando nas funções fisiológicas mais básicas dos seres humanos, o que pode trazer graves consequências para o sistema de saúde. 

Apesar de todos os malefícios citados anteriormente, a tecnologia trouxe também para muitos algo essencial para a Saúde Global e para humanidade: a informação. As informações sobre uma possível epidemia iniciada em uma cidade no interior da China estavam sendo transmitidas em tempo real para todo o mundo, e as informações e diretrizes dos órgãos de saúde eram rapidamente acessadas pelo celular. Quando foi necessário instaurar uma quarentena, rapidamente as pessoas estavam informadas sobre isso. Os métodos de prevenção à doença e as informações de como e quando ir vacinar foram muito diferentes de quando houve a revolta das vacinas no século XX, isso graças à informação transmitida de fácil acesso pela internet.

Entretanto, os benefícios da tecnologia na saúde global não chegam a todos. Conforme os números da TIC Domicílios 2019, 47 milhões de brasileiros permanecem desconectados, sendo que 45 milhões (95%) estão na classe C e D/E. Assim, esses benefícios da informação chegam ainda em lugares seletos, em pessoas seletas. Isso dificulta por exemplo o trabalho dos responsáveis por vacinar os brasileiros contra a Covid-19, já que os profissionais da saúde tem todo um trabalho de convencimento dessa população de que é necessário se vacinar, e também para desmistificar coisas que eles escutam de terceiros. E explica também o porquê de os estados brasileiros com maior percentual de desconectados são os que apresentam menor número de vacinados com as duas doses. Além disso, a informação que é trazida pela internet não é sempre confiável, sendo que então na mesma medida que elas podem ajudar os órgãos de saúde, uma notícia falsa pode atrapalhar, e muito.

Assim, a informação trazida pela internet é crucial para muitas ações de saúde, e fazer com que os brasileiros tenham acesso a computadores, celulares e internet é uma questão importante em muitos âmbitos. As políticas públicas têm sido direcionadas para isso nos últimos anos, porém com muito a caminhar ainda, principalmente também no sentido de diminuir as notícias falsas. Porém, sendo muito realista, não imagino o que o governo possa fazer de fato para evitar que o João, de 13 anos, fique jogando Minecraft no seu tablet até as 2 horas da manhã ou que a Luisa, de 16, fique rolando o feed infinito do TikTok até as 3 horas da manhã. Os principais responsáveis por impor esses limites para as crianças e adolescentes, e também para si próprios, são os pais, que ao começar pelo exemplo ensinam os filhos e colocam regras sobre o uso dessas tecnologias. O problema é que esses pais não foram ensinados a lidar com tanta tecnologia acessível e recente, já que na sua época de criança e adolescente a TV desligava em determinado momento da noite. A solução começaria então uma massiva conscientização dos jovens, mas principalmente dos pais e adultos, sobre o malefício de uma noite mal dormida por ficar no celular até tarde da noite.

Referências

Fuller, C., et al. Bedtime Use of Tecnology and Associated Sleep Problems in Children. 2017. Global Pediatric Health.

Hunt, E. Teenagers’ sleep quality and mental health risk over late-night mobile phone use. The Guardian, 30 may 2017.

Ciclo Circadiano: o que é, e qual a sua importância? Dglab, 15 dez 2020. Disponível em: https://dglab.com.br/blog/ciclo-circadiano/. Acesso em: 23 out 2021.

Twenge, J. M; Krizan, Z; Hisler G. Decreases in self-reported sleep duration among U.S. adolescents 2009-2015 and association with new media screen time. Sleep Medicine, Vol. 39, nov 2017.

LeBourgeois, M. K; et al. Digital Media and Sleep in Childhood and Adolescence. Pediatrics, Nov. 2017.

De Castro, T. Nos anos 1980, Globo saía do ar na madrugada e tinha cenas do próximo capítulo. Notícias da TV, UOL, Jun. 2019. Disponível em: https://noticiasdatv.uol.com.br/noticia/televisao/nos-anos-1980-globo-saia-do-ar-na-madrugada-e-tinha-cenas-do-proximo-capitulo-27198. Acesso em: 23 out 2021.

Nabuco, C. O que a tecnologia está fazendo com o seu sono? Blog Dr. Cristiano Nabuco, nov. 2017. Disponível em: https://cristianonabuco.blogosfera.uol.com.br/2017/11/07/o-que-a-tecnologia-esta-fazendo-com-o-seu-sono/. Acesso em: 23 out. 2021Agência Brasil. Pesquisa mostra desigualdade no acesso à internet entre alunos. Correio Braziliense. Disponível em: <https://www.correiobraziliense.com.br/brasil/2021/06/4931472-pesquisa-mostra-desigualdade-no-acesso-a-internet-entre-alunos.html>. Acesso em: 15 nov 2021.

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Leticia Maria de Albuquerque Stefanini
10 meses atrás

Achei muito interessante a perspectiva que você trouxe sobre o tema, Marina! O colega Pedro Priolli escreveu um post sobre o efeito das mídias sociais na imagem que acredito que complemente muito bem o seu, ainda que sobre outra perspectiva de danos psicológicos da tecnologia. É alarmante perceber o poder que essas tecnologias exercem, principalmente nos mais jovens que tem acesso a ela. Além das circunstâncias que você aborda no excesso de uso e o Pedro sobre a distorção da imagem, podemos perceber uma enorme influência em ditar comportamentos que também são muito prejudiciais a saúde, física e psicológica e afetam seu desenvolvimento. Infelizmente, a tecnologia é usada por muitos pais como distração para os filhos, e até esse excesso de distração e estímulos inibe a criatividade e estimula essa sensação de vazio que pode contribuir para uma posterior depressão.