A pandemia de COVID-19 não é um Cisne Negro, de Marina Galesso

08/11/2021
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Durante uma das leituras ao longo do curso, “Theorizing global health” (Biehl, 2016), um dos pontos que mais me chamou atenção está tanto no resumo quanto na conclusão do texto, e conversa ainda com a ideia de negligência discutida por João Nunes em “Ebola and the production of neglect in global health” (2016). O chamado (em tradução livre), é de que “o momento atual pede menos pela arrogância de quem sabe tudo dos esquemas analíticos do que por uma ciência (e política) humana da incerteza e do desconhecido”.

Este trecho em específico se conectou imediatamente para mim com uma leitura que fiz em outro momento neste ano, do livro “A Lógica do Cisne Negro”, de Nassim Nicholas Taleb, matemático de formação, mas também autor, estatístico e que se dedica a estudar a relação humana com o desconhecido. Neste livro, um dos primeiros de sua carreira, Taleb desenvolve o conceito do Cisne Negro, que segue em suas demais obras.

A nomenclatura Cisne Negro foi criada a partir do evento de descoberta da ave, que chocou os cientistas à época, já que apenas eram conhecidos cisnes brancos. Em um momento em que a palavra cisne já implicava uma ave branca, a descoberta dessa variação colocou em cheque o que os especialistas conheciam sobre a espécie e, para o autor, a anedota simboliza a fragilidade do nosso conhecimento baseado em observações e experiências, já que a existência de um único cisne negro muda a percepção construída a partir do conhecimento de milhares de cisnes brancos.

São considerados Cisnes Negros (em letras maiúsculas) fenômenos, processos e eventos que atendem às três características que o autor identifica. Primeiro, devem ser outliers; ou seja, estar fora das expectativas comuns, uma vez que nada no passado ou já conhecido possa apontar para a possibilidade de sua existência. Segundo, deve ter um impacto extremo à sua ocorrência ou descoberta. E terceiro, mesmo tendo essa imprevisibilidade, deve ser algo que, posteriormente, seja explicável e previsível pelos humanos, se encaixando em uma história. Resumindo: raridade, impacto extremo e previsibilidade retrospectiva (mas não prospectiva) (p. 16; TALEB, 2007).

Ao longo do livro, o autor descreve alguns eventos que podem ser considerados Cisnes Negros e quais tendências humanas facilitam ou dificultam nossas reações e relações com estes fenômenos. Como li durante a pandemia, me perguntei diversas vezes se o que estamos experienciando não seria um destes eventos, até que outra anedota do autor minou essa possibilidade: a do “peru de ação de graças”. Nesta, ele elabora a maneira pela qual basear nosso conhecimento da realidade em nossas experiências é limitado contando a história de um peru criado em uma fazenda nos Estados Unidos. 

Para este animal, todos os dias seres humanos o alimentam, provém abrigo e assistência, vivência pela qual é razoável que o peru deduza que os humanos sejam amigos que querem o seu bem. Qual não é a surpresa quando, no feriado de Ação de Graças, os mesmo humanos que o têm alimentado ao longo de meses o matem para comer na festa tradicional? Para o peru, é um choque, mas, para os humanos que desde o dia 1, já intencionavam engordar o animal para essa festividade, todos os eventos saíram conforme o planejado. O que diferencia a previsibilidade do evento, nesta situação, é a assimetria de informação entre os envolvidos: se o peru tivesse como saber mais sobre a realidade na qual se encontra, não teria tido a surpresa desagradável. Taleb usa essa anedota para explicar que não podemos considerar Cisnes Negros todos os eventos impactantes que não previmos, sobretudo quando poderíamos ter visibilidade de sua chegada ao entender melhor o mundo ao nosso redor através da pesquisa para além da nossa experiência, por exemplo.

A pandemia de COVID-19, argumenta o autor em uma entrevista para a Bloomberg, disponível no jornal The New Yorker, não só foi de certa forma prevista por diversas frentes, como as proporções que alcançou perfeitamente evitáveis, se as informações às quais governos e tomadores de decisão tiveram acesso tivessem sido seriamente consideradas. Essa interpretação cai em linha justamente com a ideia das negligências por inação ou incompetência elaboradas por Nunes. Não podemos afirmar que os resultados da maneira inadequada com a qual diversos países trataram a pandemia tenham sido inesperados: muito pelo contrário! Há anos já se falava sobre estarmos à beira de uma pandemia global, e sobre como não estaríamos preparados para recebê-la.

Antes de partir para o que o autor recomendaria neste tipo de situação (além da expansão do acesso popular à informação para “evitar surpresas previsíveis”), é necessário fazer uma ressalva pessoal. Taleb é um acadêmico razoavelmente liberal, que apesar de creditar à desigualdade e à assimetria de acesso a direitos e estudo muitos dos nossos problemas atuais, não parece fazer a conexão entre isto e o sistema capitalista. Em suas produções, constantemente são criticados sistemas políticos e iniciativas “mais à esquerda”, o que causa em quem lê seus livros e assiste a suas entrevistas alguma confusão quando ele se propõe a fazer recomendações que incluam, por exemplo, taxação de fortunas e descentralização do poder de corporações ao mesmo tempo em que tece elogios a Donald Trump. O próprio autor fez declarações jocosas quanto a seu posicionamento político ambíguo.

Tendo isso em mente, é importante remeter a um conceito também cunhado pelo autor: antifragilidade. Embora ele tome outro calhamaço para se aprofundar na explicação do termo e como atingi-lo, a definição já está no título: “Antifrágil – Coisas que se beneficiam com o caos”. Enquanto vimos que os Cisnes Negros são eventos impactantes e raros, as coisas, pessoas, instituições antifrágeis seriam aquelas que, ao invés de sucumbirem quando frente a estes eventos, ganhassem com eles (seja em conhecimento, experiência, força…

Pareça abstrato ou não, a recomendação do autor que perpassa pela necessidade de obtermos um sistema internacional, ou nacional, ou de saúde pública ou privada “antifrágil” muito se assemelha à discussão de não recorrermos às medidas paliativas de controle de crise, as balas mágicas. Para isso, Taleb insiste em recomendar a busca por organizações mais robustas e coerentes que, ao invés de apenas apagar incêndios (com muitas baixas e choques no caminho), sejam incentivados o aprendizado e o investimento na pesquisa para que, com cada situação adversa, para além do impacto também obtenhamos, como sociedades e sistemas, uma maior robustez para enfrentar as próximas (inevitáveis) situações.

Como aconteceria isso, na prática, para ele? Taleb se considera “cosmopolita demais” para propor que sejamos menos conectados, mesmo que isso fosse possível. O que ele sugere na entrevista, segundo a matéria do The New Yorker, seria implementar o equivalente a “disjuntores, protocolos à prova de falhas e sistemas de backup”, medidas simples e baseadas no conhecimento que temos de maneira que investimentos retornem não ganhos imediatos, mas sim protejam contra perdas catastróficas. Outra anedota que ilustra esse cenário é elaborada em A Lógica do Cisne Negro: imaginemos que, pouco antes de 11 de setembro de 2001, algum parlamentar estadunidense tivesse passado uma proposta referente a maior fiscalização em transportes aéreos. Conquanto a implementação demandasse algumas concessões e enfrentasse críticas pelas restrições, isso poderia evitar o ataque terrorista, mas ninguém saberia do que estavam se protegendo quando ele nunca ocorresse. Esse parlamentar não seria um herói porque não temos ideia das tragédias evitadas pelas medidas de segurança que barram riscos que não conhecemos.

Na esfera pública e de saúde, Taleb acredita que essa defesa e a antifragilidade seria possível se trabalhada em núcleos menores, descentralizando o poder de ação em ambientes com direção federal, mas ação local. Ainda, argumenta que investimento em segurança é investimento em saúde baseado em ciência, sendo assim muito factível que os bilhões investidos em armamento e gastos militares sejam alocados para as esferas que realmente protegem vidas, na forma destes protocolos de segurança.

A conclusão que se pode tirar da análise do autor sobre a pandemia é de que, assumido o erro de negligência com conhecimentos que tínhamos (a possibilidade e quase inevitabilidade de uma pandemia), não podemos dizer que esse evento tenha sido um Cisne Negro. Logo depois, a falha em lidar com o impacto de maneira a se preparar para outros eventos “desconhecidos conhecidos” (como este foi) ou mesmo “desconhecidos desconhecidos” (quem saberá!), exaltando a solução rápida como a medida principal necessária, e não as de longo prazo, mostra que se não formos capazes de absorver esses impactos com algum aprendizado sobre estrutura, estaremos fadados a ser frágeis. E, quando frágeis, se eventos extremos que já eram esperados nos causam tanto estrago, o que dizer daqueles Cisnes Negros que ainda nem temos a imaginação de antecipar?

REFERÊNCIAS

AVISHAI, Bernard. The Pandemic Isn’t a Black Swan but a Portent of a More Fragile Global System. The New Yorker, [S. l.], p. Daily Comment, 21 abr. 2020. Disponível em: https://www.newyorker.com/news/daily-comment/the-pandemic-isnt-a-black-swan-but-a-portent-of-a-more-fragile-global-system. Acesso em: 28 out. 2021.

BIEHL, João. Theorizing global health. Medicine Anthropology Theory, v. 3, n. 2: 127–142 (2016). Disponível em : https://spia.princeton.edu/system/files/research/documents/Biehl_TheorizingGlobalHealth_2016.pdf

NUNES, João. Ebola and the production of neglect in global health, Third World Quarterly, 37:3, 542-556 (2016). Disponível no Moodle.

TALEB, Nassim Nicholas. A lógica do cisne negro: O impacto do altamente improvável. 23. ed. Rio de Janeiro: Best Business, 2020.

TALEB, Nassim Nicholas. Antifrágil: Coisas que se beneficiam com o caos. 1. ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2020.

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