A longa e sinuosa estrada do movimento anti-vacina: os Estados Unidos como um caso de fracasso na contenção da pandemia do Coronavírus, de Maria Carolina Amorim Oliveira

23/09/2021
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Em oposição ao tom romântico dado pela canção do grupo inglês The Beatles, essas palavras assumem outro significado quando utilizadas para descrever o movimento anti-vacina. “Longa”, porque está presente desde o século XX. “Sinuosa”, porque esse comportamento é genocida e, somente durante a pandemia do Covid-19, já causou milhares ─ ou até milhões, dependendo da compreensão da sua extensão ─ de mortes.

Em julho de 2021, os Estados Unidos da América atingiram, como reflexo da campanha de vacinação nos meses anteriores, a menor média móvel de mortes decorrentes do Coronavírus desde março de 2020, início da pandemia: 188, considerando os últimos 7 dias. Meses depois, em setembro, com o impacto da variante delta, responsável por 99% dos casos atuais do país, esse valor foi multiplicado: já enfrentam uma média móvel de 2.087 mortos diários, com tendência a aumentar nas próximas semanas.

Mortes são mortes e todas são perdas lastimáveis, mas o perfil delas é diferente entre as do começo da pandemia e aquelas de agora nos Estados Unidos: os primeiros faleceram pela inexistência ou falta de acesso à vacina, e os outros por escolherem não tomá-la. Esse ponto é facilmente compreendido quando observamos o dado de que, segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), em maio de 2021, 99% das mortes decorrentes do Coronavírus foram de pessoas que não iniciaram sua imunização. Como consequência, essa fase já é chamada de “pandemia dos não vacinados” no país já que existe disponibilidade suficiente para a ampla vacinação, e o que a impede é a própria população.

Infelizmente, a compreensão da gravidade da doença e da importância da vacina chega àqueles que a negam em situações de desespero ou quando já se é tarde demais, como relata em suas redes sociais a médica Brytney Cobia, do Grandview Medical Center, em Birmingham, Alabama: “Estou recebendo pessoas jovens e saudáveis no hospital com infecções muito graves por Covid. Uma das últimas coisas que fazem antes da intubação é implorar pela vacina. Eu seguro suas mãos e digo que sinto muito, mas que é tarde demais.” (1)

Ou seja, essa alta de casos e óbitos tem culpados bem definidos ─ os 93 milhões de adultos que, segundo o New York Times, não desejam se vacinar ─ e com um comportamento predominante ─ o negacionismo dos anti-vaxxers, que não confiam na segurança das vacinas produzidas. Tamanha é a ameaça que esse grupo gera, não só aos Estados Unidos, mas ao globo como um todo, que na lista das dez maiores ameaças à saúde global, feita pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2019, a “hesitação em se vacinar” está presente. 

Embora o movimento anti-vacina já esteja presente no país desde a associação, hoje desmentida, da imunização com casos de autismo (WAKEFIELD, 1998), ele ficou amplamente conhecido e discutido recentemente por seu forte vínculo ao governo de Donald Trump (2016-2020), porque nele encontraram respaldo para os posicionamentos anti-ciências. Essa correlação fica evidente ao percebermos que o mapa de vacinação contra o Coronavírus no território é muito semelhante ao da última eleição presidencial, quando Biden consolidou seu cargo: dos 30 estados com o  menor percentual do público alvo totalmente imunizado (2 doses ou dose única), 25 deles são aqueles em que o republicano, em 2020, foi vitorioso.

Entretanto, embora tenha uma ligação com o trumpismo, o movimento negacionista contra a vacinação já mostrou que ultrapassa as barreiras do apoio ao político. O episódio mais recente foi em 21 de agosto de 2021, situação em que Trump foi vaiado durante o comício “Salve a América”, em Cullman, Alabama, quando informou que havia recebido a vacina contra o vírus e recomendou que os presentes fizessem o mesmo. 

Portanto, o observado nos Estados Unidos me permitiu perceber que o controle da pandemia não é um caminho que depende somente da obtenção rápida e suficiente de doses, mas também da aceitação da própria população. Assim, o negacionismo, além de ameaçar a segurança e a saúde do país, gera uma perda ─ humana, intelectual, financeira, entre outras esferas ─ para todo e qualquer local a ele interligado. Ou seja, o movimento anti-vacina é uma grave ameaça à saúde global, sendo capaz de reduzir grandes avanços da medicina alcançados pelo desenvolvimento de imunizantes. E, tão longo e sinuoso quanto foi o caminho para esse retrocesso, será desafiador e delicado o retorno, com a revalorização da ciência.

REFERÊNCIAS

CNN BRASIL. Nos Estados Unidos, 99% das mortes por Covid-19 são de não vacinados. https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/nos-estados-unidos-99-das-mortes-por-covid-19-sao-de-nao-vacinados/

G1. Trump é vaiado em comício ao defender vacinação contra Covid; veja vídeo. https://g1.globo.com/mundo/noticia/2021/08/23/trump-e-vaiado-em-comicio-ao-defender-vacinacao-contra-covid-veja-video.ghtml

NPR. U.S. COVID Deaths Are Rising Again. Experts Call It A ‘Pandemic Of The Unvaccinated’. https://www.npr.org/2021/07/16/1017002907/u-s-covid-deaths-are-rising-again-experts-call-it-a-pandemic-of-the-unvaccinated

O GLOBO. Variante Delta é responsável por mais de 99% dos casos nos EUA pela 3ª semana seguida. https://oglobo.globo.com/saude/medicina/variante-delta-responsavel-por-mais-de-99-dos-casos-nos-eua-pela-3-semana-seguida-25204028

SCHÄFER, M. G. et al. Discussão acerca da origem do movimento antivacinação e seu impacto negativo na sociedade atual. In: SEMINÁRIO INTERINSTITUCIONAL DE ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO – CIÊNCIA E DIVERSIDADE, 23., 2018, Cruz Alta. Anais… [S.l.]: [s.n.], 2018. Disponível em: https://home.unicruz.edu.br/seminario/anais/anais-2018/XXIII%20SEMINARIO%20INTERINSTITUCIONAL/Ciencias%20Biologicas%20e%20da%20Saude/Mostra%20de%20Iniciacao%20Cientifica%20-%20RESUMO%20EXPANDIDO/DISCUSSÃO%20ACERCA%20DA%20ORIGEM%20DO%20MOVIMENTO%20ANTI-VACINAÇÃO%20E%20SEU%20IMPACTO%20NEGATIVO%20NA%20SOCIEDADE%20ATUAL%20(7394).pdf

THE GUARDIAN. US election results 2020: Joe Biden’s defeat of Donald Trump. https://www.theguardian.com/us-news/ng-interactive/2020/dec/08/us-election-results-2020-joe-biden-defeats-donald-trump-to-win-presidency

THE NEW YORK TIMES. Covid-19 Vaccinations: County and State Tracker. https://www.nytimes.com/interactive/2020/us/covid-19-vaccine-doses.html

THE NEW YORK TIMES. The Delta variant is detected in 99% of U.S. cases, according to C.D.C. https://www.nytimes.com/2021/09/18/health/delta-covid-us-cases-cdc.html

THE NEW YORK TIMES. Who Are the Unvaccinated in America? There’s No One Answer. https://www.nytimes.com/2021/07/31/us/virus-unvaccinated-americans.html

UOL.  Nos EUA, novas mortes por covid se concentram entre não vacinados. https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2021/08/09/eua-nao-vacinados-covid-aumento-casos.htm

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Ten threats to global health in 2019. https://www.who.int/news-room/spotlight/ten-threats-to-global-health-in-2019

(1) https://www.facebook.com/brytneysnowcobia/posts/10200951240955876

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Maria Antônia Nina Iki Moraes
25 dias atrás

Texto muito interessante e importante no contexto atual! A força das fake news provou-se fatal durante essa pandemia, com o crescimento do movimento anti-vacina, pautado em falsas suposições e afirmações sem fundamento científico. Li alguns profissionais de saúde relatarem que muitas das pessoas que escolheram não se vacinar acabam implorando pelo imunizante quando a doença já está em um estado muito avançado – e irreversível. Muito triste observar a maneira como as falsas crenças afetam milhares de famílias de forma real. A matéria do link fala um pouco sobre esse assunto também, vale a leitura: https://www.cnnbrasil.com.br/saude/eua-pacientes-com-covid-pedem-vacina-no-hospital-dizem-profissionais-de-saude/

Nina Oliveira Schettino de souza
24 dias atrás

Achei o seu texto muito interessante! Uma parte que me chamou atenção foi quando você citou como o movimento anti-vacina acaba ultrapassando as barreiras do apoio político aos seus próprios “entusiastas”, como na situação em que Trump foi vaiado por dizer que se vacinou. Também me lembrei da recente conversa entre Bolsonaro e Boris Johnson, em que o presidente brasileiro afirmou não ter se imunizado (e toda a vergonhosa situação relacionada a esse fato na viagem a NY). O trabalho de fazer a população confiar numa vacina acaba sendo mais custoso quando o próprio presidente de um país não demonstra apoio ao processo de imunização.

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