A importância do acompanhamento e tratamento de sintomas no Pós-Covid-19, de Luisa Kimy Correa

10/11/2021
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Um dos efeitos colaterais mais comuns após contrair a COVID-19 durante o diagnóstico e mesmo com a recuperação é a insuficiência pulmonar. Algumas das sequelas já mapeadas pela OMS, denominadas como post-Covid-19 conditions, contam com a intensa resposta inflamatória, o acúmulo de fluido nos alvéolos e a presença de trombos na microcirculação pulmonar que geram diferentes graus de desconforto respiratório. A dificuldade respiratória tem sido um desafio para pacientes, dado que, mesmo com quadros leve ou médios, o comprometimento pulmonar pode girar em torno de 25% e nos casos em que a internação nas Unidade de Terapia Intensiva (UTI) se faz necessária, o comprometimento pode chegar até 100% durante tratamento e intervenções médicas para reversão do quadro. 

Além da insuficiência pulmonar, casos que envolvem a internação e incubação prolongada de pacientes podem levar ao desenvolvimento de fraqueza muscular e, consequentemente, a dificuldade de recuperação física e limitações funcionais. Para pessoas com mais idade, sobretudo, os danos podem ser maiores podendo limitar atividades diárias e dificultar as interações sociais. Não limitado a isso, a doença pode agravar cenários e condições pré-existentes nessa população como a fibrose pulmonar, que se caracteriza pelo surgimento de cicatrizes no pulmão. Muitas vezes o paciente não é diagnosticado no momento correto devido aos sintomas serem associados ao envelhecimento (tosse seca, cansaço e falta de ar) e não terem causas claras. 

Por outra perspectiva, é relevante mencionar que ao se tratar da infecção por coronavírus, as condições físicas, da mesma forma, podem impactar e agravar os cenários econômicos e sociais. As populações de baixa renda e as minorias são mais vulneráveis ao desenvolvimento de um quadro grave quando infectadas pelo vírus e, além disso, no quadro pós-Covid as desvantagens estruturais também são evidenciadas. Ao prejudicar as atividades do dia a dia, a mobilidade e a empregabilidade, por exemplo, são afetadas negativamente, dado que a insuficiência pulmonar requer cuidados, tratamento e fortalecimento de longo prazo, bem como o acompanhamento médico. Além disso, o acesso à serviços públicos, saneamento básico e água também agravam a situação de desigualdade social apresentada: a própria propagação de doenças poderia ter maior sucesso em ser evitada com a melhoria de abastecimento de água e do saneamento. O acesso à serviços como assistência médica após a doença também deve ser um tema prioritário, visto que ela tende a deixar condições físicas e psicológicas ainda inexploradas em toda sua amplitude. 

Durante a recuperação da doença, uma opção sendo trabalhada é a fisioterapia pulmonar ou respiratória. Em casos ideais, o paciente participa e é recomendado que ocorram sessões de fisioterapia enquanto ainda está no leito do hospital, como uma abordagem precoce e, após a alta médica, ter acompanhamento adequado por meio de visitas de profissionais ou, se possível, idas à estabelecimentos públicos ou particulares para auxiliar a vida cotidiana após a doença. No entanto, tendo em vista o aumento exponencial no número de internações com a pandemia e a limitação do número de leitos, a fisioterapia para os pacientes e a disseminação da informação sobre a modalidade não foram prioritários, sobretudo para a população socialmente vulnerável. Tal circunstância pode ser remetida às equivocadas decisões políticas tomadas durante o período, que sobrepuseram a qualidade do sistema nacional de saúde (SUS) mesmo este tendo sido preparado para emergências sanitárias por décadas. 

Sendo assim, é possível compreender que mesmo havendo opções para a recuperação do estado físico dentro das condições do pós-Covid, é necessário que as necessidades das populações de baixa renda e que sofrem de processos de vulnerabilização sejam trabalhadas seriamente. As melhorias na qualidade de vida, envolvendo o acesso aos serviços públicos de assistência, à água/saneamento e mobilidade de qualidade, são essenciais para que a disseminação de doenças seja reduzida; e, mesmo com a doença, a abordagem de procedimentos médicos como a fisioterapia regular ajudará a recuperação física-funcional de pacientes. No entanto, tais melhorias só poderão acontecer ao passo que as políticas sanitárias do país sejam prioritárias na agenda do governo. 

Bibliografia

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