A explosão do FOMO na pandemia: o impacto crescente das redes sociais na saúde mental, dos atletas aos meros mortais, de Guilherme Augusto Coelho Ferreira

25/10/2021
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Ainda no início do mês de outubro, Neymar Jr. (29 anos), há pelo menos uma década o jogador de futebol brasileiro mais importante em atividade, multicampeão por clubes e pela Seleção Brasileira, ídolo de boa parte da juventude, milionário (tanto em patrimônio e em seguidores de redes sociais, somando mais de 217,9 milhões no Instagram e Twitter), fenômeno de mídia e publicidade, declarou em entrevista à DAZN, que a Copa do Mundo do Catar, em 2022 provavelmente será sua última, pois não sabe se terá “condições, de cabeça, de aguentar mais futebol”. É mais um, entre os atletas de alto desempenho a declarar um cansaço psicológico como trava para a sua continuidade naquilo que os elevou à fama.

Simone Biles (24 anos), uma das maiores ginastas da história, desistiu da disputa das finais olímpicas do individual geral e da final por equipes. Naomi Osaka (24 anos), segunda melhor tenista do mundo, desistiu de duas das competições mais importantes (Wimbledon e Roland Garros). Biles foi vítima de abuso sexual e Osaka sofre em sua relação com a imprensa e questões raciais, o que por si só já confere bagagem suficiente para suas histórias de superação e força, bem como para reforçar e expor a pressão por sobre as mulheres dentro de uma sociedade extremamente machista e misógina. Mas a questão da desistência da competição de alto nível encontra pontos comuns pelo desejo em cuidar de sua saúde mental.

Alguns pontos que chamam atenção no caso de Neymar são justamente o fato de ele ter ganhado fama de levar uma vida de “ousadia e alegria”, nas palavras do mesmo, ter o mundo a seus pés e remunerações estratosféricas. Em suma, nada é impossível para ele, então, por que está infeliz? Como isso é possível?

A questão da saúde mental dos atletas de alto rendimento por si só já suscita diversas discussões. Há um período curto de seu ápice físico, e, portanto, seu tempo é extremamente precioso, o que os permite pouquíssimas interações fora de seu ambiente competitivo, algo que as redes sociais parecem ter preenchido parcialmente. Mas há uma exposição extra à uma negatividade e pressão dentro das mesmas, e hoje em dia a questão tem sido catapultada a novos patamares graças ao impulsionamento do seu uso por conta dos efeitos da pandemia e do isolamento social.

O fato de atletas renomados e bem sucedidos terem demonstrado publicamente o quanto foram afetados por sua exposição midiática e cobranças só nos mostram que de fato todos nós podemos passar por crises. A pandemia trouxe não só um imenso grau de insegurança, como também ampliou nosso tempo diante de telas e redes. A internet passou a ser um dos únicos meios de comunicação possíveis, por onde trabalhamos e nos relacionamos. Mas já de antes ela vinha sendo exposta como grande responsável por afetar a saúde mental das pessoas de maneira muito negativa e predatória.

Um estudo da Royal Society for Public Health no Reino Unido apresentou resultados de questionamentos feitos a mais de mil pessoas, com idade entre 14 e 24 anos em como o Facebook, Instagram, YouTube, Twitter os faziam se sentir, se experimentam sentimento de ansiedade, depressão e solidão enquanto usavam os apps. Embora o Instagram tenha sido o “campeão”, todas as redes apresentaram sinais de impacto negativo na forma como esses jovens enxergavam seus corpos, redução de sua qualidade de sono e o contato com bullying e o ódio tão disseminados hoje em dia, a tudo que foge minimamente dos padrões. O estudo também buscou medir a síndrome do FOMO (“Fear of Missing Out”, algo como “medo de estar perdendo algo”), sensação de que estão vivendo algo bom em algum lugar e você foi “deixado de fora”, ou seja, o impacto viciante das redes, em fazer com que as pessoas sintam necessidade de constantemente estarem atualizando, postando, ou mesmo conferindo o que os outros estão fazendo.

“In just the five years between 2010 and 2015, the number of U.S. teens who felt useless and joyless – classic symptoms of depression – surged 33 percent in large national surveys. Teen suicide attempts increased 23 percent. Even more troubling, the number of 13- to 18-year-olds who committed suicide jumped 31 percent.” 

Jean Twenge, professora de Psicologia na San Diego State University

Há outros estudos que buscam fazer a ponte entre o crescimento da depressão e do aumento das tentativas de suicídio em jovens ao aumento das horas despendidas nas redes. Há um sentimento constante de que há sempre alguém mais em forma, mais feliz, viajando, com um emprego melhor. Mas não só os jovens, que em primeira instância são os mais adaptados às novas tecnologias, os efeitos negativos da internet hoje já ultrapassaram esses nichos específicos.

Não precisamos ir muito longe para investigar o efeito da exposição: no dia quatro de Outubro de 2021 houve uma pane generalizada nas empresas de Mark Zuckerberg, o que fez com que Facebook, WhatsApp e Instagram ficassem fora do ar durante quase todo o dia (estima-se que mais de 2,7 bilhões de pessoas utilizem as plataformas). Muito se discutiu a respeito dos prejuízos comerciais daqueles que usam as redes como meio de trabalho, mas o que mais chamou atenção foi a consciência tomada a respeito da dependência do uso dos aplicativos. Guilherme Massara, psicanalista e professor do Departamento de Psicologia da UFMG em comentário ao portal O Tempo, afirmou que “o fato de muita gente ‘ter surtado’ durante a queda desses serviços é a evidência de uma demanda e dependência emocional aguda produzida pelos modos de vinculação aos dispositivos online”.

Fica claro que para além de todos os inimigos da saúde global, um dos mais traiçoeiros pode ser aquele que se encontra em nossos bolsos, em nossos ouvidos, nos minutinhos vagos entre um café e um momento de distração. O uso consciente dos aplicativos que tantas facilidades nos trouxeram é crucial para buscar recuperar um mínimo de sanidade e equilíbrio nesses tempos tão conturbados. E a experiência mostra que os adolescentes estão extremamente expostos a esses padrões impostos pelos influencers e pela publicidade, e nem mesmo atletas acostumados às maiores pressões de competições internacionais conseguiram resistir.

Referências:

FOX, Allison. Instagram Is The Most Harmful App For Mental Health.

<https://www.huffpost.com/entry/instagram-worst-mental-health_n_59245f86e4b034684b104a54>

DANIELS, Nicole. How Does Social Media Affect Your Mental Health?

<https://www.nytimes.com/2021/10/01/learning/how-does-social-media-affect-your-mental-health.html#:~:text=Opposition%20to%20Facebook’s%20plans%20gained,worse%20about%20their%20bodies%20and>

HEID, Markham. Depression and Suicide Rates Are Rising Sharply in Young Americans, New Report Says. This May Be One Reason Why.

<https://time.com/collection/davos-2020-mental-health/5550803/depression-suicide-rates-youth/>

TWENGE, Jean. With teen mental health deteriorating over five years, there is a likely culprit.

<https://theconversation.com/with-teen-mental-health-deteriorating-over-five-years-theres-a-likely-culprit-86996>

PADILHA, Alexandre. Precisamos falar da saúde mental dos atletas e de todos nós.

<https://www.redebrasilatual.com.br/blogs/blog-na-rede/2021/08/precisamos-falar-da-saude-mental-dos-atletas-e-de-todos-nos/>

CATRACA LIVRE. Desabafo de Neymar mostra a importância da saúde mental para atletas.

<https://catracalivre.com.br/entretenimento/neymar-saude-mental/>

ZOLIN, Beatriz. Jogos Olímpicos chamam atenção para saúde mental dos atletas.

<https://drauziovarella.uol.com.br/psiquiatria/jogos-olimpicos-chamam-atencao-para-saude-mental-dos-atletas/>

RAMIREZ, Gonzalo. FOMO (fear of missing out): o que é, sintomas, causas e como evitar.

<https://www.tuasaude.com/fomo/>

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Júlio Adrião D'Angelo
18 dias atrás

Artigo muito bem escrito, Guilherme.
Acompanhei de perto os casos de Simone Biles e Naomi Osaka e, de fato, as críticas da mídia tradicional foram duríssimas, somadas à pressão dos internautas nas redes sociais. Por outro lado, penso que foram passos importantes tratando da carreira de esportistas: quando antes alguém que era considerado o melhor no mundo em algum desporto havia parado por questões emocionais/mentais? Até onde sei, publicamente, isso não havia acontecido. Nesse sentido, penso que a coragem de Biles e Osaka permitiu que essa discussão surgisse com maior força na mídia tradicional, que apesar de tender a criticar a atitude das atletas, não tem interesse nenhum em perder seus maiores astros para problemas de saúde mental. Então, creio que, apesar de casos delicados e complexos, esses podem ser o início de uma nova maneira de enxergar o esporte de alto rendimento, considerando muito mais o estado mental do atleta e não apenas resultados.
No que tange a citada FOMO, outro ponto que gostaria de suscitar o debate é com relação ao retorno à vida normal, pós-pandemia. Muito se fala da FOMO para esses momentos de ressocialização e, por isso, devemos ser muito cautelosos na maneira como levamos. Temos de saber respeitar nossas emoções e sentimentos e também o de nossos amigos e colegas, pois cada um terá um ritmo de retorno a socialização presencial. Pessoas mais tímidas ou que estão muito inseguras por consequência da pandemia podem estar sofrendo com a FOMO nesse momento e é importante que todos nós sejamos sinceros com nós mesmos, afinal, depois de tanto tempo enclausurado, não há por que se desesperar para sairmos de casa…
Obrigado pela sua publicação! Me trouxe várias reflexões!

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