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A epidemia de dismorfia corporal catalisada pela convivência no mundo digital, de Pedro Soares Priolli

16 novembro 2021

A epidemia de dismorfia corporal catalisada pela convivência no mundo digital, de Pedro Soares Priolli

Não é novidade que a forma como enxergamos a imagem de nós mesmos influencie diretamente na maneira como estabelecemos nossas relações com os outros, no mesmo sentido, é comum em nossa sociedade que moldemos a maneira como nos apresentamos de acordo com tendências ou influências culturais massivas, buscando assim a aceitação do próprio “eu” dentro da comunidade. Nesse contexto, é notável o impacto que o mundo digital tem em como as relações interpessoais são formadas, não apenas pela funcionalidade de aproximar pessoas fisicamente distantes uma das outras por meio de chats, áudios ou vídeos, mas também pela possibilidade de moldar nossa própria imagem por meio de filtros, animações e edições. Tal processo pode ser divertido ou até mesmo fantástico – vis-à-vis os filtros que te dão aparência de animais, aliens ou até personagens de desenhos – o problema, pelas palavras da psicóloga Natasha Bazhuni, “é quando passamos a tomar essa imagem como verdade e como referência da nossa personalidade. Pior, quando acreditamos que essa deveria ser a imagem real, no lugar daquela que vemos no espelho” (1), processo este que da abertura para sérios problemas de autoestima, depressão e, ponto central desse texto, à dismorfia corporal.

Esse assunto também não é nada novo, sendo difícil determinar uma data exata para quando fomos inseridos nessa epidemia de dismorfia corporal e dos demais transtornos correlacionados, catalisada principalmente pela utilização excessiva de redes sociais e a popularização de suas ferramentas de alteração da aparência. Para tal, podemos traçar raízes desde os tempos em que revistas e outros tipos de mídia, por exemplo, utilizavam do Photoshop para “corrigir” o que seriam imperfeições nos corpos de celebridades e outras figuras importantes, fomentando dessa forma a espetacularização de padrões de beleza irreais e inatingíveis. Nesse cenário, podemos evidenciar a perpetuação dessa prática por meio de aplicativos como o Snapchat e Instagram que ganharam ainda mais notoriedade com a introdução dos filtros de imagem em meados de 2016, funcionalidade esta que intensificou os casos de dismorfia corporal, principalmente em grupos mais vulneráveis como adolescentes e jovens adultos.

Para exemplificar, podemos citar um estudo publicado pela Academia Americana de Plástica Facial e Cirurgia Reconstrutiva (AAFPRS), no jornal Jama Network, que revela que a principal motivação de 55% dos pacientes que realizaram rinoplastia, em 2017, seria para “tirar melhores selfies” (2). No caso brasileiro, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) evidenciou o país como o líder mundial no ranking de cirurgias plásticas em jovens, explicitando que entre “1,5 milhão de procedimentos estéticos feitos em 2016, 97 mil (6,6%) foram realizados em pessoas com até 18 anos de idade” (3) sob a justificativa de insatisfação com a própria imagem. Agregado a isso, a mesma organização indica aumento de 141% no número de procedimentos entre jovens de até 18 anos nos últimos 10 anos, tendo como principais operações o implante de silicone, a lipoaspiração e a rinoplastia.

Na realidade de pandemia, o presidente regional da SBCP-SP, Dr. Felipe Coutinho, ainda que sem dados oficiais, indicou a existência de uma percepção de aumento em procedimentos desta natureza, tendo como reflexo a maior incorporação do mundo digital no período (4). Esta visão não é exclusiva deste doutor apenas, em uma publicação de resultados de pesquisa de membros (5), realizada em 2020, a AAFPRS analisa o impacto da pandemia de COVID-19 no contexto de cirurgias plásticas, indicando que “Um total de 70 por cento dos cirurgiões AAFPRS relatam um aumento nas reservas e tratamentos durante o curso da pandemia COVID-19, com 9 em 10 cirurgiões plásticos faciais indicando um aumento de mais de 10 por cento”. Na mesma pesquisa, indica-se que um dos motivos potenciais pelo aumento de atendimentos seria em conta da recuperação mais ágil de tratamentos anteriores, possibilitada pelo distanciamento social e o trabalho em casa, agregada a esse fator temos o “efeito zoom” que seria um fenômeno onde a constante visualização da sua imagem em tempo real – seja por zoom, google meets, skype e etc – potencializa uma mudança de autopercepção pautada na aparência física que, em muitos casos, aparenta cansada e distante dos padrões de beleza fictícios popularizados por meio das redes sociais citadas.

Não obstante, é possível evidenciar movimentos no próprio contexto digital que reivindicam a aceitação e orgulho da naturalidade da aparência de cada indivíduo frente esse antro digital de superexposição e hipervisibilidade. Tal é o caso do movimento denominado body positivity, que conta com diversas ramificações como o skin positivity, que buscam normalizar aspectos vistos no mundo digital como imperfeições de aparência, mas, na realidade, são características comuns e pouco significantes para a real beleza de um indivíduo – como é o caso da acne, doença de pele muito comum em jovens e que, excluindo em graus maiores, manifesta-se por meio de pequenos cravos ou espinhas. Em contrataste de tais fatores, as redes sociais Facebook e Instagram passaram a restringir publicações sobre mudanças milagrosas de aparência, principalmente voltadas ao público jovem, em setembro de 2019, além de derrubarem os filtros relacionados a cirurgias plásticas e proibirem o lançamento de novos filtros do tipo, possibilitando também que os usuários denunciem quaisquer edições que proporcionem uma pressão estética que afete o bem-estar das pessoas.

Dado isso, por mais que esforços e movimentos venham ascendendo na sociedade para com a validação da beleza natural das pessoas, estamos longe de uma solução definitiva para um problema tão complexo e enraizado na cultura digital. As redes sociais fazem parte de nossas vidas, os filtros e edições de aparência que fomentam esses padrões estéticos fictícios continuam existindo e continuarão a existir, com esse fato, devemos contemplar essa problemática com seriedade, compreender quais são as raízes que estruturam o cenário de dismorfia corporal e prestar o devido suporte para as vítimas dessa epidemia, ainda mais com a renovação dessa questão frente à pandemia de COVID-19. O esforço deve ser conjunto, tanto pela parte das empresas que controlam a realidade virtual, que devem seguir implementando medidas pelo bem-estar de seus usuários, quanto pelos próprios usuários que constituem esse meio virtual, que devem prezar por práticas saudáveis frente à estética própria e a de outros indivíduos.

(1)    https://blog.creamy.com.br/filtros-do-instagram-impacto-saude-mental-das-mulheres/

(2)    https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/Saude/noticia/2018/02/sair-bem-em-selfies-e-motivo-para-55-das-plasticas-faciais.html

(3)    https://jornal.usp.br/ciencias/cresceu-mais-de-140-o-numero-de-procedimentos-esteticos-em-jovens-nos-ultimos-dez-anos/

(4)    https://tecnoblog.net/392313/dismorfia-corporal-como-os-apps-moldaram-nossos-rostos/

(5)    https://www.aafprs.org/Media/Press_Releases/New%20Stats%20AAFPRS%20Annual%20Survey.aspx?WebsiteKey=5d3e122f-6cba-47ca-a903-c75cb1c94f61

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Anna Luiza Silva
10 meses atrás

Texto muito interessante!
É a primeira vez que leio sobre o assunto e achei curiosa a relação da pandemia de COVID-19 com o aumento da procura por tratamentos estéticos. Considerando o tempo que utilizamos as redes sociais no período de isolamento, a constatação faz muito sentido.
Pesquisei sobre o assunto e encontrei diversos artigos que corroboram a ideia de que as redes sociais favorecem o surgimento de patologias de distorção de imagem, sobretudo em meninas jovens, que estão em processo de formação da autoimagem.
Outro ponto importante e muito bem explorado no texto é a responsabilidade das empresas que controlam as mídias sociais, que cada vez mais são questionadas pelas consequências do uso de suas ferramentas.

Vitor Balbachevsky
10 meses atrás

Muito pertinente a discussão desse tema, Pedro! Acho extremamente complexo o tema que afeta tão diretamente a saúde e que consegue fazê-lo de forma tão abrangente, fazendo poucas distinções e com poucas exceções existentes. Creio que ideias como as da Noruega, que passou uma lei obrigando posts em redes sociais a identificarem na legenda quando houve o uso de ferramentas de correção de imagem muito proveitosas, pois trazem transparência sobre a imagem. Tal qual temos o direito de saber que determinado produto é promovido por um influenciador porque ele foi pago para isso, a edição de imagem deve ser também explicitada como mais uma ferramenta que auxilia o influenciador em sua atividade.