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A COP 26 e a Saúde Global, de Renata Quadros

17 novembro 2021

A COP 26 e a Saúde Global, de Renata Quadros

Como os últimos dois anos nos mostraram, a saúde, o meio ambiente e a economia estão intrinsicamente ligadas. As intensas mudanças causadas pela ação antrópica e pelo aumento do fluxo entre os países, em particular a perspectiva das mudanças climáticas, apresentam o desafio de repensar, como comunidade global, os riscos globais com fortes repercussões locais que caracterizam nossa era (Nunes, 2017). Dessa forma, a corrida para uma economia de emissões zero antes de 2050 é, portanto, uma corrida para um futuro saudável, limpo e resiliente e é uma questão de saúde global.

Embora as respostas à pandemia de curto prazo determinem em grande parte o ritmo e a direção das metas de saúde e clima no próximo ano, compromissos nacionais ambiciosos sobre o clima serão cruciais para sustentar uma recuperação saudável a médio e longo prazo. Dessa maneira, as duas ameaças têm características comuns no sentido em que são ameaças globais, ou seja, exigem esforços nacionais, mas com coordenação global, pois nenhum país conseguiria resolver o problema sozinho.  Por conseguinte, a resposta da governança global e dos governos nacionais à pandemia geram previsões e percepções sobre as ações a longo prazo sobre às mudanças climáticas. Enquanto o cenário pandêmico foi marcado por descaso e uso da ciência como instrumento político, falta de preparação, instabilidade do multilateralismo, com competição entre os países para acesso a equipamentos e vacinas, no combate às mudanças climáticas, ainda há políticos e governos céticos ou indulgentes em relação à ameaça e a maioria dos países parece não se preparar adequadamente para cumprir suas metas.

Segundo relatório da OMS, publicado em outubro de 2021, os benefícios das ações climáticas para a saúde estão bem documentados e oferecem fortes argumentos para mudanças transformadoras. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) concluiu que, para evitar impactos catastróficos na saúde e prevenir milhões de mortes relacionadas às mudanças climáticas, o mundo deve limitar o aumento da temperatura a 1,5 ° C. Cada décimo de grau adicional de aquecimento terá um impacto sério na vida e na saúde das pessoas.

Isso prejudica gravemente a realização da cobertura universal de saúde de várias maneiras, incluindo o agravamento a carga de doenças existentes e exacerbando as barreiras para o acesso aos serviços de saúde, muitas vezes nos momentos em que são mais necessários. Mais de 930 milhões de pessoas – cerca de 12% da população mundial – gastam pelo menos 10% de seu orçamento familiar para pagar pelos cuidados de saúde. Com a maioria das pessoas mais pobres sem plano de saúde ou seguro, choques e estresses de saúde já empurram cerca de 100 milhões de pessoas para a pobreza a cada ano, com os impactos das mudanças climáticas agravando essa tendência. A mudança climática já está impactando a saúde de muitas formas, inclusive levando à morte e doenças devido a eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes, como ondas de calor, tempestades e inundações, a interrupção dos sistemas alimentares, aumentos de zoonoses e doenças transmitidas por vetores e problemas de saúde mental.

Além disso, as mudanças climáticas estão minando muitos dos determinantes sociais para uma boa saúde, como meios de subsistência, igualdade e acesso aos cuidados de saúde e estruturas de apoio social. Esses riscos de saúde sensíveis ao clima são desproporcionalmente sentidos pelos mais vulneráveis e desfavorecidos, incluindo mulheres, crianças, minorias étnicas, comunidades pobres, migrantes ou pessoas deslocadas, populações mais velhas e aqueles com problemas de saúde subjacentes. No curto a médio prazo, os impactos das mudanças climáticas na saúde serão determinados principalmente pela vulnerabilidade das populações, sua resiliência às taxas atuais das mudanças climáticas e a extensão e ritmo da adaptação. No longo prazo, os efeitos dependerão cada vez mais da medida em que a ação é realizada agora para reduzir as emissões e evitar a violação de limites perigosos de temperatura e potenciais pontos de inflexão irreversíveis.

Tomar medidas rápidas e ambiciosas para deter e reverter a crise climática tem o potencial de trazer muitos benefícios, inclusive para a saúde. O fortalecimento da resiliência e a construção da capacidade de adaptação às mudanças climáticas, por outro lado, também podem levar a benefícios para a saúde, protegendo populações vulneráveis de surtos de doenças e desastres relacionados ao clima, reduzindo os custos de saúde e promovendo a igualdade social.
A COP26 é considerada um momento crucial para os governos mundiais se comprometerem com uma ação coletiva para limitar as mudanças climáticas. A conferência visa operacionalizar o Acordo de Paris sobre mudanças climáticas, e as Partes do acordo devem apresentar planos climáticos nacionais que reflitam sua ambição mais elevada possível. Durante a COP26 em Glasgow, na Escócia, a Organização Mundial da Saúde (OMS) anunciou que um grupo de 47 países se concentrou na criação de estruturas de saúde robustas e de baixo carbono. Entre esses 47 países, estão alguns dos mais vulneráveis aos danos à saúde causados pelas mudanças climáticas, bem como alguns dos maiores emissores de carbono do mundo, porém, o Brasil não entrou nesse grupo.

Segundo Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, “o futuro da saúde deve ser construído em sistemas de saúde que sejam resilientes aos impactos de epidemias, pandemias e outras emergências, mas também aos impactos das mudanças climáticas, incluindo eventos climáticos extremos e a carga crescente de várias doenças relacionadas à poluição do ar e do nosso planeta em aquecimento”. Além disso, ele também coloca os sistemas se saúde como parte da solução, por meio da reudução de suas emissões de carbono.  


Referências

NUNES, J. Segurança Sanitária Sustentável: da comunidade ao planeta. Saúde ao Sul, Instituto Suramericano de Gobierno en Salud (ISAGS), Rio de Janeiro, p. 5, Agosto de 2017.

COP26: Países decidem adotar sistemas de saúde resilientes às mudanças climáticas. Valor Economico,08 de novembro de 2021. Disponível em: <https://valor.globo.com/mundo/cop26/noticia/2021/11/08/cop26-pases-decidem-adotar-sistemas-de-sade-resilientes-s-mudanas-climticas.ghtml>. Acesso em: 11 de novembro de 2021.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. COP26 Special Report on Climate Change and Health. Report. Geneva, 2021.

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