O Prometeu Moderno e o surgimento da Bioética – O bicentenário de Frankenstein, por Moises Rodrigues Paiva Silva

Criador e criatura. Dr. Frankenstein e sua criação em cena de “Penny Dreadful”, seriado americano (Showtime)

Embalados pelas bucólicas paisagens suíças nos idos de 1816, uma pequena comitiva de literatos britânicos de férias, com ninguém menos que Lord Byron, lança uma aposta. Em jogo estava a criação de uma historieta de “terror” e “fantasmas”, um gênero ainda incipiente, mas que bastaria para dar o sopro de inspiração à jovem que acompanhava o poeta Percy Shelley. Dois anos depois, em 1818, o mundo era brindado com uma das obras mais paradigmáticas da literatura universal: Frankenstein, de Mary Shelley.

Contrariando a simplicidade da ideia original, Frankenstein acabou como uma das fontes de reflexão mais preciosas acerca da natureza humana e da criação do homem. Apesar da errática imagem de terror, para sempre impressa no ideário popular, a célebre história do Dr. Frankenstein é, em realidade, um conto dramático sobre o existencialismo e, conforme alguns autores, o nascimento da bioética. Profundamente enamorado pela ciência e seus mistérios, Victor Frankenstein, diferentemente do débil médico ou cientista maníaco da cultura popular, é um jovem universitário em busca da cura para todos os males. A partir de sucessivos experimentos químicos e biológicos, o estudante começa a investir na criação de um novo homem, forte e capaz de sobreviver a moléstias.

É daí que surge, então, a imagem mais icônica e macabra da obra: o nascimento do Monstro (ou Criatura) – resultado de partes de cadáveres costuradas e reanimadas por descargas elétricas. Frankenstein concebe uma nova vida, cuja essência se transforma num pesadelo de violência e brutalidade frente ao desamparo e negligência. A implicação da dor, o consentimento físico, a formação da vida, o transplante e a pesquisa científica são tópicas próprias à bioética e todas constam no romance de Shelley, dramatizadas a partir do “experimento malsucedido” do jovem cientista.

A busca incessante pelo significado da existência (cena do clássico hollywoodiano de 1931)

Mary Shelley se valeu de um contexto propício às ciências. O século das luzes deu ensejo a Revolução Científica do século XIX, período cujos avanços estavam inseridos na Revolução Industrial e no advento do “homem moderno”. A observação empírica começava a ser aceita como método. A medicina vinha, a passos largos, num ritmo de sofisticação e descobertas: o final do século XVIII assistiria à descoberta do tratamento do sarampo, à criação da vacina e, posteriormente, da anestesia e das técnicas de tratamento antisséptico.

Este homem moderno, que passava a colidir com a ciência, questionava o seu meio. Um dos maiores mistérios à época, a eletricidade (ou “galvanismo”), era alvo das maiores especulações. Erasmus Darwin, avô do grande evolucionista, era um dos que enfileiravam, por exemplo, as alas de debate que não descartavam a possibilidade de se criar vida a partir do “princípio galvânico”. Tratava-se, pois, de um momento de efervescência e inovação, em que a geração da vida estava sob a crescente mira dos “homens da ciência”.

Conforme Albert Jonsen, professor de Ética Médica da Universidade de Washington, a bioética se dá quando as biociências encontram a vida humana, em sua condição individual e social. O propósito: discernir como a ciência e seus contingentes podem beneficiar os indivíduos com o mínimo de danos. “A bioética busca formar uma imagem da pessoa humana e da sociedade que possa orientar a visão e as intenções dos cientistas” (JONSEN, 2011, p 8). A autoridade do pesquisador pode colocar em desvantagem a vida humana, logo deve ser direcionada eticamente, assim como o “agir ético” é uma das premissas da medicina.

Frankenstein, coletor de cadáveres no cemitério local para a composição de um ser sobre-humano, coloca em tela a posição do detentor da ciência. Ao reviver ou recriar um ser, a posição do médico-cientista é, antes do espanto, de reflexão. A extrema agonia do “novo parto” será a primeira memória da Criatura, cuja dor aguda transcende a anomalia física que lhe constitui: preenche o campo psíquico de um ser errante temível pelos humanos, mas temporariamente aplacado pela alta poesia. É na reflexão sobre si e os impactos de seu advento que faz do “Monstro” um expoente do campo bioético.

Numa era de avanços à biologia sintética, refletir sobre o significado da vida é também dar sentido aos intentos científicos. Frankenstein é, entre outros, uma lição acerca das consequências da ética (ou de sua carência), com relação à vida humana. Aos comitês e cátedras de ética espalhados pelo mundo não resta outro senão o exaustivo debate, sob a lógica da proteção humana, sobre os rumos da ciência e da nanotecnologia. A serviço dos ditames avassaladores da economia contemporânea, as inovações científicas podem ficar à mercê de projetos eugênicos e eticamente contestáveis. Há mais de duas décadas a clonagem humana é um potencial sonho de autorrealização médico-científica, por exemplo.

A visionária filha do filósofo William Godwin e da proeminente escritora feminista Mary Wollstonecraft antecipa a bioética. Mary Shelley escreveu antes de mais nada uma narrativa de lamento e reflexão filosófica, infelizmente eternizada por Hollywood como história de terror, em uma era em que a ciência e seu método estavam por se consolidar. O Prometeu Moderno, em alusão ao titã criador da humanidade segundo a mitologia grega, personificou-se em Frankenstein. Hoje, 200 anos após a publicação de Shelley, discutimos o provável surgimento do Prometeu Contemporâneo, cujas consequências podem ser eticamente imprevisíveis.

Moises Rodrigues Paiva Silva é graduando em Relações Internacionais da Universidade de São Paulo

Bibliografia

DAVIES, Hugh. Can Mary Shelley’s Frankenstein be read as an early research ethics text?. Medical humanities, v. 30, n. 1, p. 32-35, 2004.

JONSEN, ALBERT. Frankenstein and the Birth of Medical Ethics In: COLT, Henri; QUADRELLI, Silvia; LESTER, Friedman (Ed.). The picture of health: Medical ethics and the movies. Oxford University Press, 2011.

SHELLEY, Mary. Frankenstein: The 1818 Text. Penguin, 2018.

VAN DEN BELT, Henk. Playing God in Frankenstein’s footsteps: synthetic biology and the meaning of life. Nanoethics, v. 3, n. 3, p. 257, 2009.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s