Da guerra e da guerra: a violência continua e é outra, por Enrico Haddad Speridião

Enrico Haddad Speridião é aluno do Bacharelado em Relações Internacionais da USP

“Cartago deve ser destruída.”

– Catão, o Antigo

 

“Deus vult.”

– O povo, quando Urbano II declarou a primeira Cruzada.

 

“Tora! Tora! Tora!”

– Mitsuo Fuchida

 

Não me proponho aqui ao esforço homérico de desvendar e explicar as forças, movimentos e história da Guerra da Síria. Antes, num empenho mais modesto, exponho suas características mais proeminentes a fim de analisá-las e encaixá-las em dois padrões filosóficos sobre a agressão: o estado de guerra e o estado de violência, tal como foram caracterizados por Frédéric Gros na obra Estados de violência – ensaio sobre o fim da guerra.

Não seguirei, tampouco, o caminho natural de explicar ambos estados e apontar pra qual direção levam as características. Isto, porque o meu ponto principal é que a Guerra da Síria é tão complexa e são tantos os atores e interesses, e tão diversos os meios e movimentos, que não só torna vão o esforço de colocá-la em um dos termos, mas faz com que o melhor seja perceber como ela se encaixa em ambos.

O estado de violência sobreveio ao estado de guerra, é a forma que toma a agressão (“violência coletiva e armada”) na contemporaneidade e a primeira diferença que gostaria de apontar é a centralização vs. anarquia. Se a centralização representa a força colossal de poderes hierarquizados e bem comandados com um caráter público, a anarquia é atomização em grupos que agem separadamente e tem objetivos muito mais privados. Na Síria, imagino que achar grandes expoentes de cada não seja tarefa complicada. Os poderes da guerra tradicional são poderes da guerra civil, o governo de Bashar al-Assad que se opõe aos rebeldes. Entretanto, estes não são os únicos atores, há outros que são mais bem representados pela anarquia do estado de violência. Como exemplo temos o Estado Islâmico.

[1]

A centralização e a anarquia não só dizem respeito à organização das forças, mas também à espacialidade do conflito e à estratégia do ataque. Na guerra clássica, existe uma fronteira em disputa e um centro relativamente protegido; já no estado de violência, o ataque é disperso espacialmente. O mapa mostra que existe uma fronteira em que as forças disputam o controle das cidades e regiões. No entanto, não será preciso trazer uma torrente de notícias sobre os ataques que devastam todas as terras do país, para muito além da fronteira disputada, e que são pontuais, no centro das cidades, sem tempo ou local previsíveis. Como se fossem o blitzkrieg do século XXI. Essa é também a lógica dos atentados terroristas.

Essas são decorrências da alta tecnização dos conflitos. As novas tecnologias permitem gerar redes de informações cuja capacidade de organização dispensa a centralização, que outorgam a grupos pequenos e de interesse privado um poder igualmente destrutivo e de longo alcance.

Outra questão dos estados de violência é “perpetuação indefinida”, causada principalmente pela falta de um projeto político e por ser estrutural. Em 14 de Agosto de 1945 o imperador Hirohito disse: “a situação da guerra não se desenvolveu em prol da vantagem do Japão”[2], porque no estado de guerra sabe-se claramente o que determinará o fim da violência e isso é saber que o direito de um plano político (país) sobrepujará o outro. Do outro lado temos a violência infinita em “países desestruturados”. Quem me dirá quando vai acabar a violência, por exemplo, em El Salvador?

Na Síria, com certeza duas forças políticas se enfrentam nos limites da guerra civil, mas a barbárie e a violência são tão grandes na situação geral, temos tantos fatores, contextos e atores, que é impossível prever o direito de quem prevalecerá ao fim da guerra, se algum prevalecer. No estado de violência, Castro Alves faz menos sentido:

Não! Não eram dous povos, que abalavam
Naquele instante o solo ensangüentado…
Era o porvir — em frente do passado,
A liberdade — em frente à escravidão.
Era a luta das águias — e do abutre,
A revolta do pulso — contra os ferros,
O pugilato da razão — com os erros,
O duelo da treva — e do clarão!…[3]

Menos glorioso é o estado de violência do que descrevera Castro Alves não só pela falta de projeto político, mas pelo caráter de crime que essa nova forma de agressão carrega. Não haverá no nosso século um Alexandre, tão grande que nenhuma guerra perdera, pois o líder que bem suceder em todos os seus ataques estará mais próximo de um gênio do mal do que um conquistador glorioso – que também carrega muitos crimes, diga-se de passagem. Isso acontece, em parte, porque no estado de violência quem morre é o civil, não mais o combatente, que antes seguia um código moral e punha a sua vida contra a do outro. O que nos leva ao próximo ponto.

No estado de violência não há mais igualdade frente à morte. A morte é disseminada. É instrumento e objetivo, não mais decorrência. A morte é propaganda. É empurrar moralmente ao colo do outro a culpa. Mata-se com a crença da inocência, porque a culpa não recai em quem mata, mas em quem causa o conflito, que é sempre o outro lado. Na Síria, isso é verdade para todos os atores: das armas químicas ao ataque estadunidense contra o direito internacional. Barbarização e desregulamentação são as características proeminentes, o que torna curioso pensar em Hiroshima e Nagasaki como parte de uma “guerra civilizada” conduzida por grandes homens, e não bestas.

Então, a vida perde todo seu valor. E, se antes o que se defendia era o “sujeito de direitos”, agora o que se procura proteger é o “indivíduo vivo”, que é uma figura bem menor e mais frágil. Vive-se com que dignidade e justiça? Com que proteção? Com que liberdade? Esta é uma verdade cruel da Guerra da Síria.

Eu compreendo a dificuldade de se entender um conflito que toma características de ambos estados sem um exemplo puro de cada. Mas eu espero ter cumprido a tarefa de deixar claro que a violência da Guerra da Síria é atroz e cruel, por ser extremamente complexa e carregar o peso das duas tipologias de agressão.

Notas

[1] Disponível em: http://www.bbc.com/news/world-middle-east-33690060. Acesso em 08/05/2018

[2]Emperor Hirohito, Accepting the Potsdam Declaration, Radio Broadcast. Transmitted by Domei and Recorded by the Federal Communications Commission, 14 August 1945. Disponível em: https://www.mtholyoke.edu/acad/intrel/hirohito.htm, acessado em 08/05/2018

[3]Ode ao Dous de Julho. Castro Alves. Disponível em: http://www.avozdapoesia.com.br/obras_ler.php?obra_id=2681. Acesso em 08/05/2018

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