Terror e contágio, de Luiza Aranha

Luiza Aranha é aluna do Bacharelado em Relações Internacionais da USP

 

Conversando sobre saúde global e epidemias, algo que chama muita atenção é como as epidemias, por deixarem marcas sociais profundas, são tema recorrente em produções artísticas e midiáticas.

Foi percebendo esse potencial de exploração artística que Charles Rosenberg, em um texto de referência intitulado “What is an Epidemic? AIDS in Historical Perspective”, analisa a midiatização das experiências epidêmicas

através da elaboração de uma escala. As narrativas epidêmicas, então, se desenvolvem em quatro fases: (1) primeiro, a epidemia em questão tem início num momento específico de tempo-espaço e sua revelação é progressiva, i.e., há alguns casos isolados até que, de repente, a situação sai de controle. A partir disso, (2) tenta-se atribuir significado ao que está acontecendo: descobrir qual é a doença e de onde ela vem, para que possa existir (3) uma negociação por resposta pública. Há, então, tentativas de explicar o que está havendo e manter a sociedade sob controle – normalmente, é nesse estágio que as narrativas se prolongam mais, explorando como a sociedade tende a sucumbir ao caos. Por fim, (4) é descoberto algum tratamento ou cura para a doença e tem início seu desaparecimento gradual, que normalmente forma a expectativa de reaparecimento da doença.

 

Para um seminário da disciplina de Saúde Global, apresentado no início de abril na Faculdade de Saúde Pública da USP, eu analisei como o contágio é representado em filmes de terror e, para isso, fiz uso da escala descrita por Rosenberg. Em Mortos que Matam, filme de 1964 dirigido por Ubaldo Ragona, o Dr. Robert Morgan, interpretado pelo célebre Vincent Price, acredita ser o único sobrevivente de uma epidemia avassaladora: as únicas criaturas que ainda existem tornaram-se vampiros, criaturas repelidas por espelhos e alho que se alimentam do sangue de outros e só saem de seus esconderijos à noite. A vida de Morgan, então, se resume a tentar sobreviver aos seus ataques durante a noite e, durante o dia, sair para recolher cadáveres e tentar angariar mantimentos.

 

O longametragem mostra-se fiel à escaleta: a doença em questão se revela lentamente, e a atribuição de significado é tardia. Há, assim como nos outros dois filmes que analisei para o seminário, uma disputa pela resposta pública: a ciência tenta explicar a situação e dialogar com a população, mas pouco a pouco perde espaço para a superstição e crença popular de que, na verdade, estavam lidando com uma forma de vampirismo. Temos, então, uma competição entre métodos de tratamento científicos ainda em desenvolvimento e métodos clássicos de combate aos vampiros: alho, estacas, espelhos e crucifixos. Curiosamente, são estes últimos que se mostram mais eficazes ao longo do filme.

 

Ao final do longametragem, entretanto, essa dicotomia é retomada: Morgan conhece Ruth Collins, única pessoa que ele vê, em muito tempo, andando sob a luz do sol. Ruth revela-se pertencente a um grupo de pessoas que foi infectado pelo “germe vampiresco” e, surpreendentemente, revela que este grupo foi capaz de desenvolver uma espécie de serum que os permite controlar a doença. É nesse cenário que o filme passa por uma mudança interessante: este grupo, que então detém conhecimento científico muito mais avançado do que o de Morgan, o médico que se rendeu à superstição, o percebe como um grande inimigo: ele é uma criatura sombria, que só sai de dia, e mata indivíduos daquele grupo. Por fim, eles assassinam o temido Dr. Robert Morgan, mostrando, então, o predomínio final daqueles que detêm o conhecimento científico e a razão sobre aqueles que deixaram-se dominar pela natureza (“personificados” por Morgan).

Neste contexto, o vírus é sempre colocado como grande vilão nas histórias, enquanto a medicina é o herói. Desta forma, é estabelecida uma ordem da natureza (vírus e a comoção social por ele gerada) sendo subjugada pelo conhecimento (a razão). Esta dicotomia contribui muito para que o indivíduo, nestas narrativas, não seja mais tido apenas como alvo dos cuidados da saúde

pública: ele é parte do problema, ao não saber controlar seus instintos. Isto é, ao não saberem subjugar, através do conhecimento, a sua natureza, os indivíduos se revelam como seus principais inimigos, quase tão perigosos quanto o virus em si. Isso explica, entre outros, a ascensão da figura do zumbi nos filmes sobre epidemias: os zumbis vêm fazer alegoria às pessoas em seu estado instintivo, reduzidas a serem criaturas selvagens que agridem e roubam médicos e farmacêuticos, depredam hospitais e supermercados etc. A população passa a representar, então, um verdadeiro perigo para si mesma ao se revelar incapaz de conter suas reações emocionais/instintivas frente a um cenário epidêmico, revelando que o predomínio da natureza sobre o conhecimento pode ser tão fatal quanto uma doença desconhecida.

 

De maneira brilhante, no início de Mortos que Matam, Vincent Price, durante um surto nervoso de seu personagem, sintetiza a dicotomia da natureza em oposição à razão ao dizer: “a única vantagem que eu tenho sobre eles [os zumbis vampirescos; os infectados] é a razão”.

 

Um estudo desenvolvido por Jens Brockmeier sobre as reações aos ataques do 11 de Setembro identifica que a maneira como as pessoas vivenciam eventos catastróficos é extremamente influenciada por retratos pré existentes de situações semelhantes à situação atual, tal qual por aquilo que é retratado pela mídia à época do ocorrido. Eventos não são simplesmente retratados: a mídia, em geral, também é responsável por “dar-lhes forma”, transformado-os e moldando, assim, a forma que serã

o vivenciados.

 

IMG-6107Considerando esse poder midiático de modelar a reação social a eventos sociais (epidemias inclusas), nós nos deparamos com um enorme problema em relação ao fenômeno da zumbificação: se o cinema não só retrata a sociedade, mas também desempenha o papel de transmitir informações e moldar reações, como diz Brockmeier, a predominância da retratação da populção como uma massa irracional, “zumbificada”, pode ter efeito extremamente negativo. A zumbificação deste “cinema epidêmico” ensina ao público que ele é irracional e não sabe reagir, em vez de orientá-lo a fazer justamente o contrário. A figura do heroi, que poderia ser tida como exemplo, é extremamente restritiva (sendo estes sempre renomados médicos, cientistas e pesquisadores biomédicos) e, então, é muito difícil que o público geral consiga se identificar com ela.

A partir disso, então, trago duas questões para reflexão: quais os desdobramentos da zumbificação das comunicações sobre saúde, quando ela, em vez deorientar o público sobre as melhores atitudes a serem tomadas, simplesmente o retrata como massa bestializada que sucumbe quase que completamente à natureza, negando a razão? E, além disso, o que essas retratações dizem sobre a maneira que percebemos não só as epidemias mas, principalmente, nós mesmos e as capacidades de governança da saúde global?

 

REFERÊNCIAS PARA O TEXTO: 

BROCKMEIER, Jens. “Language, experience and the ‘traumatic gap’: how to talk about the 9/11”. New York: Routledge.

DAVIS, Mark. “Is it Going to be Real? Narrative and Media on a Pandemic” Forum: Social Qualitative Research, Volume 18, No. 1, Art. 18 – January 2017.

ROSENBERG, Charles E. “What is an Epidemic? AIDS in Historical Perspective”

THE LAST MAN ON EARTH. Direção: Ubaldo Ragona, Produção: Robert Lippert, Estados Unidos da América e Itália, 20th Century Fox (International) 1964.

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