São Paulo está obesa e tem bronquite crônica, diz médico da USP – Cláudia Collucci entrevista Paulo Saldiva

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O médico Paulo Saldiva – Folhapress

Folha de S. Paulo – O patologista Paulo Saldiva lança livro ‘Vida Urbana e Saúde’

Cláudia Collucci
SÃO PAULO
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Se fosse um paciente, São Paulo seria obesa por crescer mais do que o esqueleto é capaz de suportar, teria bronquite crônica, resultado de anos de inalação de ar poluído, e insuficiência renal, por ser incapaz de excretar resíduos de forma adequada.

O diagnóstico é do médico Paulo Saldiva, 63, professor da Faculdade de Medicina da USP que acaba de lançar o livro “Vida Urbana e Saúde”.

Como patologista, pesquisa os efeitos do viver em São Paulo no interior dos corpos dos moradores. Como asmático, dedica-se especialmente às consequências da poluição do ar sobre os pulmões.

Um dos estudos que está em curso indica, por exemplo, que o morador de São Paulo fuma um cigarro a cada duas horas que passa no tráfego. “Quanto mais tempo permanecemos presos no tráfego, mais poluentes inalamos”, afirma o médico.

Folha – O sr. diagnostica várias doenças que afetam São Paulo, como obesidade, bronquite crônica, hemorragia, insuficiência renal e cardiorrespiratória. A cidade está morrendo?
Paulo Saldiva – Não, São Paulo está doente. Os prefeitos administram São Paulo como se fosse um pronto-socorro, não têm tempo nem vontade de fazer um tratamento de base, educar sobre alimentação, modificar hábitos e cultura. Só quando entra em colapso algum sistema é que se vai fazer alguma coisa para reverter. Assim como o médico deve pensar na saúde dos seus pacientes, e não apenas tratar determinada doença, uma cidade saudável é aquela em que seus cidadãos têm qualidade de vida.

O sr. diz que o uso diário do transporte público reverte na perda de um quilo por mês. Isso não deveria ser usado pelas campanhas públicas?
Sim, sem dúvida. Se tivéssemos um transporte público mais civilizado, as pessoas caminhariam até a estação, teríamos mais fluidez no trânsito. Você teria mais horas de sono, chances de ler. Na Inglaterra, as pessoas moram a uma hora e meia de Londres e vão para lá de trem. Como tem wifi, as pessoas estudam, trabalham dentro do trem. O tempo é usado para alguma coisa.

No livro, o sr. diz que “fumamos” um cigarro a cada duas horas que passamos no tráfego. Como isso acontece?
Quanto mais tempo permanecemos presos no tráfego, mais poluentes inalamos. Não adianta só baixar a concentração, tem que aumentar a fluidez do tráfego, reduzir o tempo que a pessoa fica ali.

A porcentagem de fumantes caiu não só pela conversão de fumantes a ex-fumantes mas porque os fumantes morreram e surgiu uma nova geração que não associa os benefícios inexistentes de poder e prestígio ao hábito de fumar.

Ter um carro deixou de ser um valor fundamental como era há 20 ou 30 anos. Nos EUA, país mais motorizado do mundo, a taxa de jovens que atingem a idade para dirigir e não tiram a carteira de habilitação está crescendo 11% ao ano.

A obesidade afeta cada vez mais crianças. Como as cidades podem contribuir para mudar esse quadro?
Por causa do trânsito e da violência, as crianças não caminham mais. As tarefas escolares e o lazer das crianças ocorrem olhando para a tela.

Em algumas escolas dos estados da Califórnia e de Illinois [EUA], as crianças saem para caminhar no entono da escola como parte das atividades curriculares. No Japão, em vez da ginástica laboral, os executivos são levados para o mato para caminharem e relaxarem. Aqui a gente nem enxerga a cidade.

Tenho certeza de que muita gente redescobriu a Paulista ou visitou o [parque] Trianon porque a avenida é fechada aos domingos e feriados.

Todas essas ações não só reduzem a obesidade como melhoram a saúde mental.

O sr. diz que viver nos grandes centros favorece o desenvolvimento de transtornos mentais. Como é essa relação?
Transtornos mentais como depressão e ansiedade tendem a ser mais frequentes nos grandes centros urbanos. Sem dúvida, existe uma base genética, mas há aspectos sociais e ambientais que favorecem ou previnem essa eclosão.

Regiões urbanas que permitem a formação de uma rede de solidariedade, de afeto e de apoio são protetores das nossas mentes. Já o desamparo da solidão coletiva, a falta de de uma pessoa para compartilhar nossos medos e dúvidas são fatores que favorecem o sofrimento mental e o consumo de álcool e drogas que, por sua vez, eleva o risco de ansiedade e depressão.

O sr. diz que a solidão coletiva favorece, inclusive, a mortalidade precoce. Como manejar?
Tem que ter lugares para as pessoas se encontrarem. Cidades de praia, como Santos, têm espaços naturais de convivência. As pessoas se enxergam, fazem novas relações. São Paulo não é encarada como um lugar para ficar, mas, sim, um lugar para vencer.

São poucos os lugares que cultivam essa convivência. Na Mooca ou no Bexiga você vê ainda gente com cadeiras na calçada, mas a tendência é as pessoas levantarem muros e colocarem cercas eletrificadas e uma câmera de vigilância.

Qual é o impacto da escassez de água e do excesso de chuvas de São Paulo para a saúde?
No período de crise hídrica em São Paulo, o atendimento por diarreias mais do que duplicou. Quando cai a pressão do tubo, a sujeira de fora entra pelo mesmo lugar onde vazava água.

Se tiver vazamento na rede, o esgoto entra junto. Isso explica porque na Baixada Santista, durante os feriados, há surtos de diarreias virais. Você trata a água na fonte de abastecimento, mas ela se contamina ao longo da distribuição.

Já as inundações estão relacionadas a um maior número de casos de leptospirose. Há estudos mostrando que passadas três a quatro semanas de chuva, os casos de leptospirose aumentam muito. E quem é mais afetado? Quem não pode perder a geladeira, quem não pode correr o risco de perder o que conseguiu com tanto esforço.

Se fosse prefeito, que remédios prescreveria a São Paulo?
Reocuparia as regiões ociosas da cidade, com foco no pessoal de baixa renda. Em segundo lugar, investiria em transporte coletivo de baixa emissão de poluentes. O mercado imobiliário poderia ajudar. Hoje os anúncios valorizam a localização, “a tantos metros do metrô”. Isso precisaria de alguma forma reverter em subsídios para o transporte público.Transporte coletivo não é uma commodity, que você troca dinheiro por uma passagem.

Numa cidade como São Paulo, o transporte é tão importante como a água, o solo. O barateamento e a melhoria das condições do transporte coletivo é vital para que a cidade funcionar.

VIDA URBANA E SAÚDE
AUTOR Paulo Saldiva
EDITORA Contexto
PREÇO R$ 27 (128 págs.)

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