Livro de Débora Noal é alimento para quem quer ver o mundo

“Nada é mais significativo e sólido que a paz e a saúde. Palavras de pouca valia quando as experimentamos em abundância”. Estas frases fazem enorme sentido quando recordamos episódios que vivemos como cuidadores ou como quem foi cuidado, ou fases em que houve algum rebuliço em nossa vida. De repente, redimensiona-se completamente o que importa na vida. Passagem radical de um dia estar preocupado com o trabalho atrasado ou qualquer assunto aparentemente tão complicado e, no dia seguinte, ou até em algumas horas, sobrar só a vida imediata que se impõe em sua auto-evidência. O banal e pequeno que fica enorme: não sentir dor, conseguir caminhar etc. Em maior ou menor medida, todos já passamos por isto. Mas a pessoa que escreveu as frases citadas, Débora Noal, passou por situações pelas quais raros de nós já passamos em matéria de redução ao essencial do humano. Psicóloga da organização Médicos Sem Fronteiras, Débora oferece ao público brasileiro um valioso diário (“O Humano do Mundo”, editora Astral, 2017) em que compartilha suas impressões sobre as situações de crise em que atuou. Em tom pessoal, desprovido de pretensões acadêmicas, técnicas ou literárias, Débora nos conduz a “lugares” do Haiti, da Guiné, da República Democrática do Congo e da Líbia a que dificilmente teríamos acesso, não fosse por livros como este. Por certo, qualquer pessoa tem potencialmente o interesse em enriquecer-se com as experiências narradas – o que é destacado no belo prefácio de ninguém menos do que Eliane Brum, referência fundamental do jornalismo brasileiro. Mas o livro diz respeito especialmente a quem se interessa pelo mundo. Não é possível fazer uma crítica honesta ao humanitarismo (expressão que em geral se refere às ações voltadas às pessoas que se encontram em situação de vulnerabilidade mundo afora) sem ouvir quem trabalha no terreno, quem de fato vive na carne a ação humanitária. Como leitora apaixonada da obra de Didier Fassin (por exemplo, A Razão Humanitária), tenho bem presentes os limites do humanitarismo, em particular o quanto a compaixão pode ser despolitizante e servir, ao contrário do que muitos de seus defensores pretendem, para perpetuar as engrenagens que geram as vulnerabilidades. No entanto, creio que o livro de Débora contribui para combater aquilo que João Biehl referiu recentemente como “descolamento moral” – ou seja, ao aprofundar a crítica ao humanitarismo e reconhecer tantas barbaridades feitas sob o slogan de “salvar vidas”, há o risco de cair numa espécie de cinismo. É preciso colocar algum tipo de solidariedade no lugar da compaixão ou da caridade, que seja capaz de animar tanto o pensamento crítico como a ação social. A propósito, na capa do livro de Débora, à primeira vista parece haver um pássaro exótico que se revela, na verdade, uma mulher carregando seu filho numa estrada de terra batida. De certo modo, todo o livro é assim: experiências que talvez imaginássemos exóticas e distantes e se convertem em algo que somos capazes de compreender, que na verdade vivemos um pouco por meio da pluma da autora. Espero que o diário dessa psicóloga sem fronteiras – que sinto como minha conterrânea não porque nascemos em Santa Maria (RS), mas porque compartilhamos a conexão com o mundo vista sob o ângulo das pessoas – contribua para alimentar o interesse por ambos, mundo e pessoas, e com urgência (Deisy Ventura).

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