Aceitamos a morte de pessoas com câncer como se fosse algo inevitável, por Drauzio Varella

Folha de S. Paulo – As discussões sobre o direito de decidir como será o final de nossa vida me comovem menos do que a falta de acesso aos meios necessários para mantê-la.

Líbero/Editoria de Arte/Folhapress

A prática da oncologia me ensinou que somos prolixos e cheios de certezas filosóficas ao falar do fim que desejamos para a nossa existência apenas enquanto temos saúde e a morte nos parece um evento distante.

Justificamos com argumentos fortes nossas posições contrárias a eventuais esforços para manter-nos vivos a qualquer preço.

Nessas horas, demonstramos apreço pela eutanásia, desapego à vida e, sobretudo, generosidade com os entes queridos a quem daríamos preocupações e trabalho ao nos tornarmos dependentes.

Com os anos adquiri a convicção de que essas intenções, manifestadas antes da possibilidade real da visita da indesejável senhora, são desprovidas de valor preditivo.

O desejo de viver é instinto tão arraigado que nos agarramos ao fiapo mais frágil de esperança, para continuarmos por aqui.

Ao contrário do que defendemos na teoria, só nos entregamos à morte depois de exaurido o último resquício das forças.

Faço estas reflexões, caríssimo leitor, motivado por uma reportagem desta semana num dos telejornais da Band, a respeito de uma senhora às voltas com um nódulo mamário.

A demora para marcar os exames pelo SUS, em Brasília, levou-a a procurar serviços médicos particulares, para obter o diagnóstico. De posse do resultado, aguardava o chamado para iniciar o tratamento.

No final, a repórter dizia que em plena capital federal chegava a um ano a fila de espera para receber quimioterapia, e seis meses para a radioterapia.

Se a informação proceder, quando forem convocados para o tratamento aqueles pacientes que tiveram a sorte de estar vivos não necessitarão mais dele.

A reportagem foi encerrada com a pergunta da paciente: “De que adianta ter o diagnóstico se eu não consigo tratar a doença?”

Essa forma de eutanásia passiva é aceita com naturalidade, no Brasil. Ao cruzarmos os braços diante da realidade cruel de quem é obrigado a assistir à progressão de uma enfermidade impiedosa, enquanto espera o chamado para um tratamento que só Deus sabe quando, como e se um dia chegará, praticamos um tipo de eutanásia coletiva sem o desconforto do dilema moral de desligar o aparelho de respiração, na UTI, como nos dramas cinematográficos.

Incrível como nos tornamos apáticos. Aceitamos o sofrimento e a morte dessas pessoas pelo país inteiro, como se lidássemos com fatalidades inevitáveis.

Você, leitor, poderá dizer que no passado, antes da existência do SUS, era até pior.

Sem dúvida, mas havia uma atenuante do ponto de vista ético: dispúnhamos de poucos recursos terapêuticos para o tratamento do câncer. Ricos ou pobres, a maior parte dos doentes era incurável.

Com a tecnologia disponível hoje, a realidade se inverteu: curamos a maioria dos casos, desde que tratados a tempo.

A decisão de organizarmos o sistema de saúde de modo a dar prioridade ao combate de doenças potencialmente fatais, como a da paciente citada, é, antes de tudo, política.

Houve tempos em que não vacinávamos as crianças, não distribuíamos antivirais para quem sofria de Aids nem transplantávamos órgãos aos que não podiam pagar por eles. A justificativa das autoridades era a de que o país não tinha condições financeiras para tanto, a mesma usada para explicar a passividade fatalista de agora diante de pessoas com câncer.

Quando decidimos enfrentar esses desafios, criamos os maiores programas gratuitos de vacinação, transplantes de órgãos e distribuição de medicamentos anti-HIV do mundo.

O país foi à falência, por acaso? Teria saído mais em conta conviver com as internações hospitalares por sarampo, paralisia infantil, varíola, pneumonias e as demais infecções da Aids?

Doenças malignas, como o câncer, exigem prioridade absoluta de acesso ao sistema de saúde, não apenas por razões humanitárias, mas porque o diagnóstico precoce e a abordagem médica nas fases iniciais são mais simples e evitam os custos inerentes às complicações dos estágios mais avançados.

Drauzio Varella – Médico cancerologista, dirigiu o serviço de Imunologia do Hospital do Câncer. Um dos pioneiros no tratamento da Aids no Brasil e do trabalho em prisões. Escreve aos sábados, a cada duas semanas.

 

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