O Estado somos nós: higienismo e construção do Peru moderno, por Paulo Trivellato

Derrotada pelos chilenos, assim como a aliada Bolívia, na Guerra do Pacífico, a elite peruana da virada do século XIX para o XX voltou-se para a “Reconstrução Nacional”. Apesar de sua heterogeneidade, partilhava um projeto de modernização para o Peru, em que o crescimento demográfico desempenhava lugar de destaque: mesmo passadas muitas décadas desde a Conquista Espanhola, a população do país não havia recuperado seus números pré-invasão. A tecnologia médica e a higiene pública seriam ferramentas centrais para a reversão dessa tendência, como demonstram os estudos de caso reunidos em “Salud pública en el Perú del siglo XX: paradigmas, discursos y políticas”, exemplos da realidade peruana como parte de um processo global.

A partir da análise da revista Variedades (edições de 1908 a 1920), publicação de alcance nacional destinada às classes média e alta peruanas, Juan Miguel Espinoza identifica o compromisso de sua equipe editorial com o projeto de vocação civilizadora encampado pelas elites do país [1]. Veículo de difusão de práticas de higiene, divulgadas como modernas e prazerosas, Variedades exaltava avanços na infaestrutura hospitalária e de saneamento e projetava a imagem do profissional médico como “herói do progresso”, praticante de um “serviço eficiente e desinteressado” e responsável pela direção dos projetos de modernização do país.

O discurso da publicação baseia-se em linguagem gráfica e simples, numa retórica de cruzada social contra epidemias como a cólera, no uso da ficção e na publicidade de medicamentos a partir de testemunhos sobre sua efetividade e prazeres proporcionados. A disciplina seria recompensada com comodidade e prestígio social. É corroborada a tese de María Emma Mannarelli de que o discurso médico – masculino e normativo – gestava uma concepção particular a respeito das mulheres, de seus corpos e de sua identidade, centrados na maternidade e na dimensão doméstica, ao mesmo tempo em que constituíam objetos do debate público – novamente masculino [2]. Aos homens caberia a busca pela força – cuja insuficiência teria sido a razão da derrota para o Chile na Guerra – ao mesmo tempo em que profissionalizava-se o exército.

Outro elemento central é a representação da população chinesa de Lima associada à sujeira e a propagação de doenças, discurso não isolado, mas “parte da opinião pública de inícios do século XX”. Teses acadêmicas do período, paralelamente, apontavam o despovoamento como causa do não desenvolvimento peruano. Como a imigração nunca chegaria à dimensão esperada, restava promover o crescimento da população indígena com a condição de que suas “características raciais fossem melhoradas através da educação, da saúde pública e da vida militar”[3].

À pergunta proposta por Juan Miguel Espinoza – como as novas concepções sobre maternidade, higiene e crescimento populacional se difudiram e conseguiram ser assimiladas pela população peruana? – podemos responder a partir de duas perspectivas. A primeira, melhor explorada pelo artigo, centra-se na forma do discurso, exemplificado pela revista Variedades, sua linguagem e o que valorava como moderno. A segunda corresponde à verdade disseminada por aquele discurso – o lugar da mulher na modernidade, enfoques eugênicos e racismo científico, ideais de progresso associados ao crescimento populacional.

Nas palavras do autor, “La idea central era reformar las costumbres para construir sujetos autocontrolados y productivos; para tal fin, era necesario intervenir en todas las esferas de la vida social”. A construção do moderno Estado peruano, desta forma, teve como matéria não só a cidade, adaptada aos padrões de higiene pública, mas também os próprios corpos de sua população, reformados para corresponder a padrões que propiciassem o tão desejado progresso peruano. Esse fenômeno corresponde ao que Foucault denomina biopolítica, uma forma de poder aplicada sobre uma população enquanto corpo vivo [4]. O emprego de tecnologias médicas e de higiene pública para controlar fenômenos biológicos como fecundidade/natalidade e mortalidade possibilitaram ao Estado o poder de “fazer viver”, fenômeno crucial para seu estabelecimento enquanto instituição moderna.

Por Paulo Trivelatto, graduando do IRI/USP e aluno da disciplina Saúde Global

[1] ESPINOZA, J. Miguel. La higiene como experiencia moderna y placentera: la difusión de concepciones y prácticas asociadas a la salubridad en revistaVariedades (Perú, 1908-1920). Em: LOSSIO, Jorge e BARRIGA, Eduardo. Salud pública en el Perú del siglo XX: paradigmas, discursos y políticas. Pontificia Universidad Católica del Perú, Lima: 2017.

[2] MUÑOZ, Fanni. Una aproximación a las limeñas del siglo XX. Debates en Sociología 25-26, 2000.

[3] CUETO, Marcos. La vocación por volver a empezar: las políticas de población en el Perú. Rev. Peru. Med. Exp. Salud Pública 23(2), 2006.

[4] FOUCAULT, Michel. Em defesa da sociedade: Curso no Collège de France (1975-1976). São Paulo: Martins Fontes, 2000.

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