Tuberculose no Brasil: passado e presente – por Henrique Góes

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Há algumas semanas estava conversando com minha avó, Olga, sobre a chegada dela a São José dos Campos (SP), minha cidade natal, nos anos 50, vindo de uma longa viagem de carro desde Salvador (BA). Ela acompanhava meu avô, médico especializado em radiografia nascido no interior da Bahia, que fora motivado a vir pelo papel da cidade paulista naquela época. São José era uma estância climática, uma cidade de “ares puros” que desde 1935 se tornara, por esse motivo, um pólo sanatorial[1], para onde pessoas de várias regiões do Brasil eram levadas para realizar tratamento de tuberculose.

 Há sessenta anos atrás, essa então cidadezinha abarcava sete grandes sanatórios, que marcariam a vida da população à época. No auge dos seus 81 anos, minha avó se lembra de ver muitos doentes chegando, com pouca esperança nos olhos. Grande parte daqueles pacientes teria “vindo” compulsoriamente: o isolamento nas cidades sanatoriais era, mais do que uma opção de tratamento, uma política de Estado que visava proteger grandes cidades da transmissão da doença a partir do confinamento dos doentes. O tratamento era difícil e longo e as chances de recuperação variavam, mas em geral foram baixas durante muito tempo. Segundo alguns estudos [2], os pacientes com tuberculose eram ostracizados em suas cidades de origem e abandonados por suas famílias, tornando-se vulneráveis socialmente, ainda que conseguissem se curar da doença. Dona Olga se lembra daqueles que pulavam o muro do sanatório durante a noite e buscavam amparo em amizades e amores recém-feitos, por parte dos joseenses que moravam nos arredores. Lembra também do telefonema de uma amiga baiana, a pedindo que visitasse sua irmã, internada num sanatório no centro da cidade (visita essa que rendeu a minha avó uma visão interna das condições degradantes de um dos sanatórios). A doença, se por um lado atingia em grande medida os socialmente desprovidos, por outro, tornava alguns pobres e excluídos:

 “Eu tinha três anos quando minha mãe morreu, de tuberculose; e quando tinha nove, meu pai também morreu, da mesma doença. Era só eu ter qualquer doença, qualquer dorzinha, e logo me diziam: – ‘É preciso ter cuidado com este menino! Os pais dele morreram tuberculosos…’ “(Nogueira Apud Pôrto, 1995: 131) [Oracy Nogueira, em Vozes de Campos do Jordão, retirado de (VIANA et al., 2010)]

Atualmente, São José já é outra e muitos que vivem nela nem mais sabem da vida sanatorial. A tuberculose tem cura e o tratamento para a doença é gratuito e disponibilizado no SUS de maneira muito mais humana e inclusiva. Desde 1990 (o ano em que se inicia a base de dados disponibilizada pelo SUS), a quantidade de casos reduziu-se (de 2004 a 2014, caíram em 13,2% a quantidade de casos registrados [3]), e certamente há condições melhores do que nos sanatórios dos anos 50. Não podemos esquecer, entretanto, que a tuberculose ainda é uma doença séria no Brasil: são 70 mil casos registrados e 4,5 mil mortos por esta doença por ano no Brasil. A doença, em acordo com grande parte das discussões já trazidas neste blog, tem marcadores sociais claros. Segundo dados do Programa Nacional de Controle da Tuberculose, ela atinge majoritariamente alguns grupos vulneráveis, a saber: pessoas privadas de liberdade (presos e presas); pessoas que vivem com HIV/aids; pessoas em situação de rua e comunidades indígenas. Citando um dos exemplos quanto a população carcerária, segundo dados do SUS, 64% das mortes em presídios são ocasionadas por doenças [4], dentre as quais a tuberculose é uma das principais.

 É necessário entender a saúde como mais do que a ausência de doenças, mais do que “a cura” ou o “tratamento”. A tuberculose, como relatado aqui, persiste, ainda que seja curável, graças às condições sociais dadas a uma parte expressiva da população brasileira. A falta de renda, de estudos, de acesso à informação, entre outros fatores, restringem o atendimento às pessoas necessitadas e favorecem a proliferação da doença [5]. O direito constitucional à saúde permanecerá sendo violado enquanto outros pontos cruciais da sociedade brasileira não sofrerem mudanças estruturais. A erradicação desta e de outras doenças dependerá de um esforço que transcende àquele dos funcionários e especialistas em saúde; esforço este que será necessário para quebrar a trajetória de anos de vulnerabilidade atacada e recriada por estes surtos de doenças.

Por Henrique Góes, graduando da USP e aluno da disciplina Saúde Global

 Notas e fontes principais:

[1] Até Meados de 1950 se acreditou, no Brasil, que áreas de clima mais ameno (em geral, regiões montanhosas cercadas de matas e com baixas temperaturas) eram melhores para o tratamento da tuberculose, o que seria desmentido posteriormente. (VIANA et al., 2010)

[2]  VIANA, Juliana Eliza et al. Os Abandonados da Tuberculose:: Um Olhar Sobre São José dos Campos. In: MANFREDINI, Profa. Maria da Fátima Ramia; PAPALI, Maria Aparecida; ZANETTI, Valéria. Fase Sanatorial de São José dos Campos: Espaço e Doença Vol. IV. São José dos Campos: Universidade do Vale do Paraíba (univap), 2010. Cap. 11. p. 285-308. Disponível em: http://www.camarasjc.sp.gov.br/promemoria/wp-content/uploads/2015/07/Volume-IV-Fase-Sanatorial-de-São-José-dos-Campos-Espaço-e-Doença.pdf

[3] SUS – Sistema Único de Saúde http://portalsaude.saude.gov.br/index.php/o-ministerio/principal/leia-mais-o-ministerio/742-secretaria-svs/vigilancia-de-a-a-z/tuberculose/l1-tuberculose/11937-tuberculose

[4] http://brasil.elpais.com/brasil/2015/09/03/politica/1441251452_562835.html

[5] OTTERSEN et al. (2014) As origens políticas das inequidades em saúde: perspectivas de mudança. The Lancet- Comissão da Universidade de Oslo sobre Governança Global em Saúde. RJ: CRIS/Fiocruz. Disponível em: http://www.med.uio.no/helsam/english/research/global-governance-health/publications/the-lancet-uio-commission-report-portugese.pdf

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