Quando o conhecimento em saúde extrapola as paredes da sala de aula – por Nathália Saffioti Rezende

A Jornada Universitária da Saúde (JUS) é um projeto de extensão universitária que conta com a participação de diversos acadêmicos da Universidade de São Paulo. Dentre as principais características do projeto, encontra-se a interdisciplinaridade, uma vez que vários cursos da área da saúde, como a enfermagem, fisioterapia, fonoaudiologia, medicina, nutrição, saúde pública e terapia ocupacional podem participar. Através do trabalho em equipe, elaboram atividades de promoção e educação em saúde para uma determinada população, que recebe a visita do projeto na Semana da Pátria, no mês de setembro.

O projeto atua em cidades do interior de São Paulo e têm duração de três anos em cada cidade escolhida para atuar. No decorrer do primeiro ano, o foco do projeto é identificar os problemas locais – dentro da sua possibilidade de atuação – além disso, são efetuadas algumas intervenções mais abrangentes, como orientações, grupos de discussão e campanhas. Já no segundo ano, o foco está no desenvolvimento de intervenções mais específicas – uma vez que possuem informações do ano anterior para se basear –, como a busca de soluções para algumas questões de saúde pública. No terceiro e último ano, o projeto busca garantir a auto sustentabilidade das intervenções realizadas, propondo alguns planos à prefeitura, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida da população.

O impacto que a JUS proporciona aos jornadeiros e, também, à cidade que a recebe é tão grande e tão rico de experiências e conhecimentos que duas alunas do curso de graduação em nutrição da Universidade de São Paulo realizaram o seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) baseado no projeto e o mesmo foi aceito para ser apresentado no VIII Congresso IberoAmericano de Universidades Promotoras de la Salud, que ocorrerá entre os dias 27 a 29 de junho de 2017.

O objetivo do trabalho foi apresentar a importância que os projetos de extensão universitários possuem, como um todo, no que diz respeito ao processo de aprendizado fora da sala de aula, sendo este um grande diferencial na formação de um profissional. E, além disso, buscou apresentar a relevância dos mesmos em relação à devolução, em forma de serviço para a sociedade, de todo o investimento que uma universidade pública tem com a formação dos alunos, especificamente, alunos da área da saúde. Além disso, o trabalho contou com a participação de graduandas em nutrição e nutricionistas formadas que participaram da Jornada Universitária da Saúde dentre os anos de 2006 e 2015, com o objetivo de avaliar, também, a percepção que elas apresentam sobre a influência da JUS no desenvolvimento das competências do nutricionista. E, para entender melhor o impacto que o projeto proporciona, foi realizada uma entrevista com a Gabriela Rigote e a Marina Prata, alunas responsáveis pelo desenvolvimento do trabalho em questão.

Quantas vezes você chegou a participar da JUS? Você poderia nos descrever as influências pessoais e profissionais que sofreu ao participar do projeto?

Gabriela: Eu estive envolvida com a JUS desde o meu primeiro ano da Faculdade (2012) até o último (2016). Em 2012, participei do projeto como jornadeira e durante os anos de 2013 e 2014 fui convidada para ser coordenadora. Já em 2015, meu envolvimento continuou através do conselho, que era uma organização formada por ex-coordenadores, responsável por fazer o estatuto do projeto, porém, não viajávamos e nem nos envolvíamos no planejamento das atividades. Em 2016, eu me envolvi com o projeto por causa do TCC, que também não apresentou nenhum vínculo com o planejamento da Jornada daquele ano, mas, sempre estive em contato com ex-coordenadores, além disso, mantive contato pesquisando sobre a história do projeto.

Participar da JUS foi uma das melhores coisas que eu fiz na USP, eu sou eternamente grata por ter feito parte desse projeto. Antes da JUS, eu era uma pessoa muito tímida, quieta e sem muita iniciativa. Depois da minha primeira jornada, eu mudei completamente, tive muita mais facilidade de interagir com as pessoas. A minha habilidade de comunicação foi se desenvolvendo muito junto com minha participação na JUS. Além disso, consegui aprimorar muito minha capacidade de ser resiliente e de saber administrar melhor imprevistos e problemas. Também tive ganhos ao conhecer pessoas de outros cursos, hoje em dia, isso facilita muito a minha prática profissional, pois, é muito mais fácil você trabalhar com outros profissionais quando você sabe o que eles fazem. A JUS também impactou muito na minha vida pessoal, com as Jornadas que vivi ganhei amigos incríveis com os quais tenho contato até hoje.

Marina: Desde o primeiro ano da faculdade eu me interessei pelo projeto, mas só fui participar dele no terceiro ano. Foram dois anos participando da JUS e podendo oferecer um pouco do conhecimento que eu estava adquirindo na faculdade tanto para os alunos dos outros cursos envolvidos no projeto, quanto para a população da cidade visitada. Foi na JUS que eu tive a oportunidade de conhecer como os outros profissionais da saúde atuam e, principalmente aprender a trabalhar de forma interdisciplinar de fato. Do ponto de vista pessoal, o meu maior desafio foi aprender a explicar todo o conhecimento teórico que eu tinha na faculdade de uma forma clara para a população, com uma linguagem em que todos pudessem se beneficiar daquele conhecimento.

De acordo com suas experiências, como acredita ser a contribuição da JUS com o desenvolvimento do direito à saúde nas cidades que recebem o projeto, considerando a complexidade desse direito?

Gabriela: Acredito que a JUS tem uma dinâmica de criar multiplicadores, ampliando o impacto das atividades que realiza nas cidades – o que contribui com o desenvolvimento do direito à saúde tanto para os alunos participantes do projeto (que acabam precisando ler mais sobre o SUS e, também, pesquisar mais sobre a promoção de saúde, políticas públicas etc.) quanto para a cidade visitada, através das ações de promoção e educação em saúde com os diversos grupos populacionais.

De modo geral, o projeto visa o empoderamento das pessoas e como elas podem ser protagonistas da própria saúde, o que acaba contribuindo na questão do direito à saúde. Outra coisa que eu acredito que influencia, é o fato do projeto ter uma ligação forte com os equipamentos de saúde e também com locais oportunos para se tratar sobre o tema, como as escolas, o que acaba mostrando para a população a grande rede de apoio que eles têm na cidade com os equipamentos públicos.

Marina: A forma como a JUS se organiza nos três anos de intervenção na cidade com o objetivo de criar multiplicadores é a principal contribuição no que diz respeito ao desenvolvimento do direito à saúde dessa população. Entender as demandas da cidade e trabalhar em cima delas, com a população ocupando papel central nesse processo contribui para que eles tenham a dimensão de seus direitos, possibilitando uma maior participação dos mesmos nos equipamentos de saúde da cidade.

Por fim, como você acredita que a sua participação no VIII Congresso IberoAmericano de Universidades Promotoras de la Salud pode contribuir com a visão que as universidades, a sociedade e os próprios alunos apresentam sobre os projetos de extensão universitária?

Gabriela: Vai ser uma oportunidade incrível de fortalecer os projetos de extensão. Acredito que as extensões não são tão valorizadas dentro da universidade, tanto pelos alunos quanto pelas faculdades em si. Senti isso, inclusive, quando eu e Marina tivemos a ideia de fazer o nosso TCC baseado em um projeto de extensão, algumas pessoas reagiram com “Nossa! Mas tem tanta coisa para falar dentro de tudo que vocês viram na faculdade e vocês vão falar sobre isso?”. Mas, mesmo assim, persistimos nesse tema. Acredito que seja isso o que falta, precisamos de mais trabalhos que demonstrem como é importante que o aluno extrapole o aprendizado obtido em sala de aula, demonstrar como as extensões têm um papel importante dentro da formação de um profissional. E, em relação a visão da sociedade, acho que a participação no congresso vai influenciar muito, porque, muitas vezes, pelos projetos de extensão serem executados por estudantes – na maioria das vezes jovens – não são levados muito a sério, consideram que não apresentam muito comprometimento. Assim, acho que esse reconhecimento vai acabar mostrando para as pessoas que os projetos de extensão é algo sério e de grande impacto para os alunos e sociedade.

Marina: Nossa participação nesse congresso é importante, pois, contribui para o fortalecimento das extensões universitárias. Se pararmos para pensar, no tripé que rege a universidade pública, muito se fala a respeito do ensino e da pesquisa e, ao longo da graduação, aprendemos o valor dessas duas vertentes. No entanto, o aluno é muito pouco estimulado a participar das extensões universitárias e muitos acabam não tendo a oportunidade de vivenciar essa experiência tão transformadora e que é capaz de contribuir para sua formação acadêmica tanto quanto o ensino e a pesquisa. Nosso objetivo com o TCC foi mostrar o que, de certa forma, já sabíamos, mas que nunca nos foi mostrado de forma tão categórica durante a graduação: que a participação do aluno na extensão universitária é um instrumento importante, onde o aluno é estimulado constantemente a ir além do que se é aprendido em sala de aula, o que favorece o desenvolvimento de profissionais da saúde cada vez mais preparados a lidar com o paciente como um todo.

Como abordado pelas alunas, a JUS contribui com a formação do direito à saúde no que diz respeito, principalmente, à prevenção das doenças (e não apenas o seu combate), à educação para a saúde e à participação da população no processo de tomada de decisão, no âmbito local e nacional. Sendo importante seu reconhecimento pelos alunos, pelas universidades e pela sociedade. Tal reconhecimento já está sendo iniciado, através de sua participação no Congresso em questão, porém, muito ainda precisa ser feito por esse projeto de extensão, bem como por todos os projetos das universidades.

Por Nathália Saffioti Rezende, graduanda da USP e aluna da disciplina Saúde Global

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