Promoção da saúde indígena e seus atores: uma experiência pessoal no Xingu – parte II – por Victor Pavarin

Dando continuidade à análise do trabalho da ONG Associação Médicos da Floresta, inicialmente tratado pela colega Maria Carolina (“Promoção da saúde indígena e seus atores: uma experiência pessoal no Xingú”), buscarei, a partir dos relatos da experiência de Victor Del Vecchio, examinar como se dá o delicado contato entre os povos nativos da região do Médio Xingu e os membros da organização médica – sem a menor pretensão de exaurir as múltiplas implicações dessa relação. É fundamental, para o presente post, a prévia leitura da análise da Maria Carolina (postado no blog).

A prestação de serviços oftalmológicos às comunidades indígenas requer, como é de se imaginar, uma logística rigorosa, com o transporte de equipamentos e de pessoas. As atividades da ONG, porém, iniciam-se antes disso.

Em primeiro lugar, é fundamental um diálogo inicial com as aldeias: todas as ações devem ser previamente alinhadas com as lideranças locais. Isso envolve uma conscientização tanto dos voluntários quanto dos indígenas. Aos primeiros, são passadas informações como quais são os costumes da aldeia, como se dá o funcionamento interno, quais os limites da interferência, entre outras. Em relação aos segundos, busca-se explicar a importância do serviço prestado e passar algumas informações básicas do atendimento.

Importante ressaltar que as características das aldeias variam de etnia pra etnia. Uma mesma etnia pode ter várias aldeias. No que se refere especificamente às aldeias do Médio Xingu atendidas pela ONG, é possível observar que o cacique é sempre o primeiro a ser contatado e atendido. Trata-se de uma figura de relevante status que atua na resolução de conflitos internos, determina diretrizes e ações tomadas por sua comunidade e a representa externamente. Ou seja, uma desaprovação pode ser motivo para que os atendimentos não ocorram…

Apenas após essa fase de ajuste com as lideranças locais é que se começa a atuação direta. Esta, porém, depende da presença de intermediários, que facilitam a comunicação entre nativos que não dominam o português e voluntários.

O aprendizado da língua portuguesa, proporcionado principalmente por escolas indígenas criadas pelo governo, facilitou não só a comunicação dos indígenas com o homem branco, como também o diálogo entre etnias que tenham idiomas diferentes e não próximos entre si. Tendo em vista a diversidade de línguas indígenas (mais de 270 línguas indígenas faladas por indivíduos pertencentes a 305 etnias diferentes [1]), uma linguagem comum é fundamental para que os nativos possam lutar por sua terra, por sua cultura. Nas palavras de Del Vecchio: “o domínio da língua portuguesa permitiu uma comunicação mais eficiente, inclusive para articulações políticas e de resistência”.

O cuidado no contato com os indígenas envolve também a observância nos próprios hábitos, visto que diversos fatores podem influenciar o modo de vida da população. A ONG solicita aos voluntários, em muitas das aldeias, que não comam perto dos indígenas, pois estes possuem a alimentação baseada na pesca, caça, coleta e cultivo de gêneros locais. A introdução de fontes externas de alimentos interfere de maneira direta a segurança alimentar dos nativos. Problemas coronários e hepáticos que não existiam na aldeia podem começar a aparecer. Além disso, é cada vez maior, em aldeias que têm acesso a produtos industrializados, o número de casos de diabetes, obesidade e hipertensão.

Outro ponto delicado e complexo é o pós-operatório. A instalação dos hospitais de campanha oferece atendimento, exames e cirurgias aos índios. Um dos procedimentos mais comuns é a cirurgia de catarata. Após o fim desse processo, é colocado um curativo no olho do indígena que, por não estar ciente da importância de evitar infecções ou por simplesmente achar que o curativo não faz diferença, o retira assim que sai do hospital de campanha. Assim, muitas vezes o machucado fica exposto a lugares extremamente danosos como a oca, que possui acúmulo de poeira. Não é uma questão, obviamente, de simplesmente impor ao índio os cuidados com o curativo. Envolve uma explicação que seja capaz de superar costumes e, de certa forma, a própria cultura local, o que não é tarefa fácil.

Observa-se, diante do exposto, que o serviço prestado pela ONG Associação Médicos da Floresta “é sempre permeado por uma balança que pende entre a não interferência na cultura ancestral, e a necessidade de serviços básicos de atendimento, sobretudo na área de saúde” (Del Vecchio). Isso permite não só a possibilidade de um trabalho nobre como esse, mas também uma luta política articulada entre indígenas e o homem branco, visto que é de extrema importância a contribuição à pauta indígena, a qual tem sofrido diversos ataques das elites e das classes políticas que enxergam a demarcação das terras indígenas como entraves ao “desenvolvimento”.

[1] Censo de 2010, IBGE.

Por Victor Pavarin, graduando da USP e aluno da disciplina Saúde Global

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s