Por que as clínicas de consultas expressas estão se proliferando no Brasil – por Maria Alice Vellame

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As Clínicas de consultas expressas vêm conquistando cada vez mais espaço no mercado brasileiro como um todo e, em especial, em São Paulo. É possível observar inúmeras propagandas pela cidade de clínicas que oferecem esse tipo de serviço e é cada vez mais fácil encontrar unidades perto de lugares com grande circulação de pessoas, como estações de trem e metrô e centros comerciais movimentados. Esse tipo de atendimento encontrou um solo fértil para crescer ao focar no público das classes C e D, que não possuem plano de saúde e que não querem ou não podem mais esperar para serem assistidos no SUS. Com a crise econômica que se arrasta no país, muitos brasileiros perderam seus empregos e, consequentemente, perderam seus planos de saúde, o que também ajudou a alavancar esse tipo de serviço. As consultas médicas expressas ganharam força, então, com suas formas de pagamento facilitadas e seus preços atrativos que variam em média de R$80,00 a R$120,00, a depender da especialidade e da localidade da clínica.

Essas empresas tem se inspirado em modelos de negócio americano1, em que há clínicas médicas enxutas, tanto em tamanho quanto em pessoal, e que se dedicam ao diagnóstico e tratamento de doenças mais simples, encaminhando os casos mais complexos para hospitais. Esse tipo de negócio tem sido percebido como uma grande solução para o sistema brasileiro de saúde universal e gratuito que é tido como debilitado e com déficits consideráveis: as clínicas expresas supostamente dão acesso rápido ao atendimento médico a pessoas que careciam disso anteriormente, uma vez que praticam valores mais acessíveis à população em relação aos valores praticados por clínicas particulares e planos de saúde e ainda estariam desafogando os prontos-socorros para casos de maior urgência. No entanto, é preciso analisar mais de perto a lógica que está por detrás de empresas como essas.

Esse mercado que tem se desenvolvido em volta da saúde pode ser considerado bastante perigoso, pois põe em cheque a noção de saúde entendida como um direito garantido pelo Estado ao mesmo tempo em que não dá suporte a casos de atendimentos mais graves. A ideia de que a saúde seja ofertada por instituições privadas a um baixo custo e de forma mais eficiente busca desqualificar e esvaziar a responsabilidade do Estado neste âmbito e transferi-la para o indivíduo, que por sua vez deverá arcar com seus custos, que em casos menos complexos se torna viável. Em consonância a isso, entretanto, o que também precisa ser evidenciado é o fato de que clínicas deste tipo só são “acessíveis” à população por oferecem um atendimento básico; caso um indivíduo necessite de exames ou tratamentos mais caros, o valor ofertado não mais será considerado acessível e o indivíduo ficará desamparado.

Esse jogo de interesses ocultado por detrás do discurso de acessibilidade a atendimento médico eficaz fica bastante evidente por Noronha em seu breve artigo “Cobertura universal de saúde: como misturar conceitos, confundir objetivos, abandonar princípios”, em que ele aborda como o compartilhamento de um relatório declaratório da OMS com intenções de chamar atenção para formas de remover barreiras financeiras no que tange o acesso à saúde se transformou em um debate defensor do “mercado” da saúde pelas alas conservadoras.2

Tendo em vista o exposto, a falta de debate mais crítico sobre iniciativas privadas deste tipo pode levar a um aprofundamento da desigualdade social entre as camadas mais pobres e mais ricas, ainda mais em um momento de crise como o que o brasil vem enfrentando nos últimos anos e em que a ideia de corte de custos é amplamente divulgada. O discurso da austeridade e do aviltamento do Estado para questões básicas pode levar a uma discussão com tendências mais mercadológicas, principalmente se pautada por inspirações de cunho liberais como as norte-americanas, afetando as camadas mais carentes da população. É preciso estar bastante atendo aos debates políticos na área da saúde e buscar elevar a qualidade deste debate, pois uma mudança de rumo no que vem sendo pensado deste a Constituição de 1988 pode ser algo extremamente maléfico para a saúde pública no Brasil como um todo.

Por Maria Alice Vellame, graduanda da USP e aluna da disciplina Saúde Global

1Fonte:http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2015/10/1695315-clinicas-medicas-vao-para-as-ruas-e-prometem-atendimento-rapido.shtml

2Fonte: NORONHA, JC. (2013). Cobertura universal de saúde: como misturar conceitos, confundir objetivos, abandonar princípios. Cadernos de Saúde Pública, 29(5), 847-849. 

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