“O Rastro”: reflexões de saúde públicas levadas ao cinema – por Gabriela Crespo

 ‘’O Rastro’’, primeiro filme nacional de terror de veiculação nos cinemas, é assustador; não por seus efeitos sonoros, visual sombrio ou pelo suspense constante, mas por escancarar nas telas que a realidade da política e da saúde pública brasileira – tema central da trama – é, de fato, aterrorizante.

O longa tem como personagem principal João, um jovem médico que integra a secretaria de saúde do Rio de Janeiro. A saúde do estado está sendo acometida por um grave corte de verbas e alguns hospitais precisam ser fechados – dentre eles, um velho hospital que já fora referência regional, mas que está decadente há algum tempo. João fora residente no tal hospital, e pela sua familiaridade com o local e com o próprio diretor do hospital, ele é escolhido para coordenar e negociar o fechamento do estabelecimento.

    Heitor, o diretor do hospital, mostra-se resistente ao encerramento das atividades e insiste em aceitar internações, mesmo sem autorização do poder público. Contudo, o governo mostra-se irredutível e, em meio a uma noite de protestos da população civil contra o corte de gastos na saúde, é realizada uma megaoperação de transferência dos doentes do hospital que será fechado para outros hospitais da região. No decorrer da operação, uma jovem paciente desaparece, ocasionando uma grande preocupação de João e uma subsequente investigação por parte do mesmo.

    O jovem médico então descobre que o hospital e seus funcionários escondem um esquema: para angariar mais fundos estatais com o objetivo de evitar que o hospital fosse fechado, estes realizavam sistemáticos pedidos de exames para pacientes já falecidos. Contudo, depois que descobre tal esquema, João morre sob circunstâncias suspeitas. Sua esposa, atormentada pela história mal contada da morte do marido, retoma as investigações por conta própria e descobre um esquema ainda mais sombrio: a morte do marido fora orquestrada por figuras importantes do poder público para que o coração de João pudesse ser ilegalmente transplantado no governador do Rio de Janeiro, candidato à reeleição que queria abafar rumores de que não poderia assumir novamente o comando do estado por conta da grave doença cardíaca que possuía.

    Deixando os traços sensacionalistas inerentes a um blockbuster de lado, é muito interessante analisar como o filme se baseia no fato concreto da austeridade no âmbito da saúde brasileira para construir sua narrativa, dialogando com muitos preceitos estudados em sala de aula relativos à esfera da saúde pública como um todo.

    O corte orçamentário na área da saúde é colocado como um meio de obtenção de ganho político e pessoal para o governador do Estado, uma vez que, precarizando o hospital, este poderia utilizá-lo como central para um esquema de tráfico de órgãos e, por meio disso, garantir sua reeleição.  É possível enxergar reflexões importantes contidas nesse fato a respeito da austeridade como um todo – o ganho pessoal do governador reflete, mesmo que de maneira muito exagerada, nada mais do que um dos pontos defendidos por Stuckler e Basu na obra ‘’Austeridade e Saúde’’, de 2013, que diz que por trás das medidas de austeridade há sempre um ganho de alguma elite, seja ela econômica ou política.

    Outra importante questão relativa à teoria da saúde pública que pode ser observada no filme é a da propriedade da comunidade local em decidir sobre as prioridades de políticas públicas que serão implantadas, descrita por Dallari e Nunes.

    Como descrito anteriormente, quando o governo do Estado do Rio de Janeiro inicia a operação de fechamento do hospital regional, a população local se revolta; protestos são organizados e as saídas das ambulâncias que transferiam os pacientes para os hospitais do entorno do Rio são bloqueadas por pessoas revoltadas. A ação demonstra a incapacidade do governo de lidar com as demandas da população local, fazendo com que a comunidade fique extremamente descontente e que, consequentemente, haja uma crise de legitimidade das instituições públicas para com a população.

    Além disso, a questão da desigualdade é tratada no longa, ainda que de maneira muito sutil. Em certos momentos do filme, são mostradas imagens de um hospital sofisticado, limpo, organizado e moderno – aparentemente privado. Essas imagens contrastam muito com as do hospital regional público deteriorado, sujo e literalmente caindo aos pedaços que fora fechado no início do filme; contrastam ainda mais com as cenas de fictícia crise da saúde pública do Rio de Janeiro mostradas ao longo da obra. Mas mais importante: as pessoas que frequentam o hospital privado são pessoas de claro alto poder aquisitivo, como uma médica importante na trama e o próprio governador corrupto, enquanto no hospital regional eram admitidos trabalhadores comuns e pessoas de baixa renda em geral. Tal reflexão exemplifica a possibilidade expressa por Stuckler e Basu de especular os principais indicadores de esperança de vida de uma pessoa pelo código postal de sua residência – a periferia tem seus hospitais fechados enquanto as áreas ricas têm modernos e grandes hospitais à disposição.

    ‘’O Rastro’’ pode não ser um grande filme de terror equiparado às produções faraônicas de Hollywood; contudo, tem papel político importante ao circular nas salas de cinema de todo Brasil contando uma história da íntima e asquerosa relação entre cortes de gasto, a saúde pública deteriorada e a corrupção generalizada. Em tempos de PEC 55, ministros da saúde que pedem indiretamente a redução do SUS e Lava Jato, o longa se torna ainda mais emblemático e ainda mais aterradoramente verossímil.

Por Gabriela Crespo, graduanda da USP e aluna da disciplina Saúde Global

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